Rui Bragança falhou as meias-finais ao perder com o dominicano Luisito Pie (1-4) e terminou em nono lugar a sua participação nos Jogos Olímpicos. No fim estava orgulhoso pelo primeiro combate, pela caminhada até ali e, mais importante, por quem esteve ao seu lado no Rio de Janeiro, na Arena Carioca 3. O português sentia, no entanto, algum desencanto…

“Acho que só o ouro é que não teria dado desencanto. Estou feliz pelo primeiro combate [12-2 vs. Carlos Muñoz Oviedo]. Estou orgulhoso por toda a caminhada até cá, foi uma sensação única ter os meus pais, a minha namorada, os meus amigos, saber que atravessaram o Atlântico para estarem aqui. Entrar e sentir aquilo…”, trava-se, para travar as lágrimas. Os olhos já brilhavam. “É a melhor coisa que levo daqui”, completa.

Rui Bragança chegou ao Rio de Janeiro como nº 3 do ranking olímpico, nº 2 do ranking mundial e bicampeão europeu. As expectativas eram, por isso tudo, muito altas. Mas caiu no segundo combate, contra um homem com mais três centímetros do que ele (1,83m), que parecia estar mais sólido durante o combate.

“Foi um combate muito tático. O primeiro a errar, perdia. Fui eu. Estávamos os dois muito fechados, se calhar podia ter tentado antecipar mais vezes, mas não me estava a sentir confortável com isso. Tentei ir mais para contra-ataque. Também estive perto de conseguir, toquei-lhe algumas vezes no colete. Ele passou perto da minha cabeça, eu passei perto da dele. As coisas estavam equilibradas. Foi aquele toque que decidiu tudo”, explica. Aquele toque foi o pé do dominicano a tocar na cabeça do português, gesto que vale três pontos, que é uma vantagem importante num combate fechado.

“Não posso voltar atrás, não posso mudar nada. Só posso olhar para ali [arena] e ver o futuro. Já sabia que neste palco não dá para errar, aquele foi o meu erro. A seguir tentei recuperar, não deu. Fui com tudo o que tinha, tentei tudo e mais alguma coisa, simplesmente não deu”, lamenta.

Rui Bragança disse depois aos jornalistas que este foi o último combate na categoria -58kg. “Sem duvida. Agora é recuperar o corpo. Esta estrada foi muito longa. Os últimos dois anos para a qualificação foram incrivelmente duros. Agora tenho de recuperar, aliviar a cabeça e depois logo se vê.” O português afirmou ainda que só estará em Tóquio, daqui a quatro anos, se tiver apoios e dinheiro que não saia do seu bolso.

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - AUGUST 17: Rui Braganca of Portugal kicks Luisito Pie of the Dominican Republic during the Taekwondo Men's -58kg Quarter Final contest at Cairoca Arena 3 on August 18, 2016 in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Ryan Pierse/Getty Images)

Vs. Luisito Pie (Photo by Ryan Pierse/Getty Images)

“Só se houver condições. Podia dar, voltar a pedir aos meus pais, mas… Tem a ver com patrocínios, apoios, porque estar a fazer as coisas à maluca e bola para a frente, assim não dá”, diz, refletindo sobre o pouco peso que o taekwondo tem no país. O Vitória de Guimarães, explica, não tem condições para o ajudar. A modalidade ainda não é como o judo, por exemplo, passa por outras dificuldades. “Espero abrir caminho para os que vêm atrás.”

Gratidão é palavra que não falta na conversa deste estudante de medicina (Universidade do Minho), de 24 anos, que já foi vice-campeão do mundo e que duas vezes foi o cara da Europa. “Aos meus pais devo estar aqui. Todo o apoio, emocional e financeiro. Ao meu treinador, ao meu colega de treino. Isto foi um esforço pessoal. (…) Pode ser que as coisas mudem depois destes Jogos. Pode ser que se comece a olhar como se olhou para o judo…”

Confrontado com a falta de apoios, Rui Bragança explicou então a diferença de realidades. “O Irão tem liga profissional, a Coreia tem liga profissional. Têm 1001 apoios. Nós andávamos a ir em voos low cost, a andar em hostels… Eu e o Nuno [colega de treino] podíamos escrever um livro, temos muitas aventuras. Mas isso não dá para repetir. Foi muito divertido, mas muito duro.”

E não se deixou cair: “Ficava mais feliz com o ouro, mas não estou triste com o nono lugar. Só quero chegar lá fora e dar um abraço aos meus pais, um beijo à minha namorada. Aproveitar eles terem vindo cá, aproveitar o resto dos Jogos. É uma experiência única.”