O Banco Central Europeu (BCE) está a tomar medidas que “seriam impensáveis no passado” e a sua integridade está em risco, com a conivência de políticos europeus que “traíram” o projeto da moeda única. É este o retrato negro feito por um dos fundadores da união monetária, o alemão Otmar Issing, que avisa que, “um dia, o castelo de cartas vai desmoronar-se”.

Numa entrevista ao Central Banking (acesso pago), citada pelo The Telegraph, Otmar Issing diz que os políticos europeus precisam de reconhecer que “não há possibilidade” de haver uma união política. Sem essa união política, para a qual não existe apetite nesta altura, não será possível fazer as alterações que seriam necessárias para que a zona euro funcione. Assim, viveremos sempre “num arrastar de crises, uma atrás da outra”.

É difícil prever por quanto tempo isto pode continuar, mas não pode continuar para sempre”.

Otmar Issing critica a Comissão Europeia por estar na primeira fila da instrumentalização política do Banco Central Europeu. Bruxelas desistiu, por sinal, de aplicar as regras de uma forma minimamente exigente, algo que está a distorcer os incentivos: “os riscos morais são enormes“, diz Otmar Issing.

O Pacto de Estabilidade e Crescimento, podemos dizer, fracassou. A disciplina imposta pelos mercados evaporou-se devido à atuação do BCE. Não existem mecanismos de controlo nem vindos dos mercados nem vindos da política — todos os elementos necessários para provocar um desastre na união monetária”.

O economista alemão defende que “todos os dias é violada a cláusula que proíbe os resgates“. Na entrevista, lança fortes críticas ao Tribunal Europeu de Justiça por ter aprovado os resgates financeiros: essa foi uma decisão ideológica, tomada por um Tribunal, acusa o fundador da zona euro.

Quanto ao BCE, instituição que Otmar Issing ajudou a formar, está num “piso escorregadio” e já “abriu a Caixa de Pandora” ao assumir, em simultâneo, o papel de regulador e supervisor da banca e, por outro lado, de autoridade de política monetária. Issing alerta que, devido aos programas de estímulo monetário, que passam pela compra de títulos de dívida, a instituição liderada por Mario Draghi já acumulou mais de um bilião de euros em dívida comprada a taxas mínimas (ou, mesmo, abaixo de zero) que, se as taxas de juro subirem, vai provocar perdas ao Banco Central Europeu.

O BCE está, agora, a comprar dívida empresarial com ratings perto de lixo. O risco reputacional de tais intervenções por um banco central seriam impensáveis no passado”.

Fica claro que Otmar Issing pertence ao grupo daqueles que criticam duramente as implicações, a prazo, do programa de compra de dívida do BCE. Uma vez iniciado o programa, “uma retirada das políticas de quantitative easing será cada vez mais difícil, com consequências potencialmente desastrosas”.

A alternativa? Esta teria de ter começado a ser desenhada em 2010, com o resgate à Grécia. Na altura, Otmar Issing considerou o resgate grego um resgate aos bancos e defendeu que a Grécia deveria ter sido ajudada a voltar ao dracma, o que teria sido uma lição para todos — governos e bancos. Não foi essa a opção tomada, o que, na opinião de Otmar Issing, originou uma sequência de acontecimentos, incluindo os outros resgates públicos e à banca espanhola, que estão a proporcionar a criação de um federalismo europeu “pela porta das traseiras“.