A relação de Donald Trump com Vladimir Putin deteriorou-se nas últimas semanas. Sobretudo após o ataque dos Estados Unidos contra o regime sírio. Foi o próprio presidente russo quem esta quarta-feira o assumiu em entrevista à MIT TV: “Pode dizer-se que a confiança a nível de trabalho e, especialmente, a nível militar não melhorou. Antes pelo contrário”.

Mas tempos houve em que a relação entre ambos foi particularmente próxima. Agora, é o Guardian que esta quinta-feira escreve (citando fontes anónimas e próximas do Government Communications Headquarters, ou seja, o serviço de inteligência britânico) sobre a relação de Trump com Moscovo e a alegada interferência russa no processo eleitoral dos Estados Unidos.

Segundo o jornal britânico, os contactos entre membros destacados da campanha de Trump e as secretas russas começaram em meados de 2015. Seis meses mais tarde, no Verão do ano seguinte, e depois de intercetarem parte dos contactos que considerariam “suspeitos” e “sensíveis”, terá sido o então diretor do GCHQ, Robert Hannigan, quem partilhou este material com o homólogo da CIA, John Brennan.

Não terão sido, no entanto, somente as secretas britânicas a colocar sob escuta os homens próximos de Trump. Também as secretas da Alemanha, Estónia, Polónia ou Austrália o terão feito e, tal como as britânicas, contactado o FBI.

Porém, e ao contrário do que afirmou em tempos Kellyanne Conway, conselheira do Presidente dos Estados Unidos e ex-chefe de campanha de Donald Trump, este nunca foi escutado pelo FBI a pedido de Obama — Kellyanne falou até de escutas escondidas em micro-ondas. E mesmo as escutas das secretas britânicas, explica o Guardian, não foram inicialmente dirigidas a Trump mas a alguns membros das secretas russas, tendo a interceção destas conversas sido recolhidas “por acaso” numa “vigilância de rotina” à Rússia.

Uma fonte das secretas britânicas explicou ao Guardian que, mesmo após a troca de informação entre o GCHQ e o FBI, as secretas norte-americanas tardaram a agir. “Eles não foram treinados para fazê-lo [analisar a comunicação privada de cidadãos norte-americanos sem um mandado judicial]. É como se as secretas [norte-americanas] estivessem a dormir. As agências europeias diziam: há contactos entre gente próxima de Trump e as secretas russas, tenham cuidado, há algo de errado aqui.”

Em reacção à notícia do Guardian, o porta-voz do GCHQ limitou-se a dizer: “É política de longa data que não comentamos assuntos de inteligência”.

Mas as escutas que levantam suspeitas sobre a relação de Trump com Moscovo não são uma novidade. Chegou a especular-se, após a sua chegada à Casa Branca, se Donald Trump não estaria mesmo a ser vítima de “kompromat”, ou seja, de chantagem por parte de Putin e das secretas russas.

E tudo porque dois ex-espiões britânicos (que hoje trabalham como consultores do setor privado, na empresa londrina Orbis Business Intelligence) apresentaram um relatório sobre as ligações à Rússia do presidente norte-americano. O relatório, segundo o qual Moscovo conspirou durante anos para estabelecer relações com Trump, foi classificado pelo Presidente americano como “uma impostura” e “informação falsa”.

O relatório terá sido entregue aos serviços de informação norte-americanos no ano passado.