Uma longa maratona no terceiro dia em terras de Marrocos fez-nos descer desde Casablanca até Sidi Ifni, trocando a cidade mais importante, do ponto de vista de desenvolvimento, por uma das mais pequenas e isoladas, tão irrelevante que mal se encontra no mapa. E como Sidi Ifni não é ponto de passagem, só lá vai quem mesmo quer ir…

O contraste entre as duas cidades não podia ser maior, se atendermos também ao seu passado histórico. Ambas foram governadas por potências estrangeiras, os franceses em Casablanca, como toda a gente sabe, os espanhóis em Sidi Ifni, onde a presença se limitou a 35 anos, mas marcados por uma guerra e diversos episódios que retratam a tensão que se viveu em Marrocos, depois deste reino se ter tornado independente, em 1956.

Memória espanhola em Sidi Ifni

A independência significou que os franceses partiram, mas não os espanhóis, que tinham uma forte presença na costa mediterrânica, no noroeste da costa atlântica e igualmente na zona sudoeste, onde dominavam o Sahara Ocidental. Esta região chegou mesmo a ser reclassificada como província espanhola, e não território colonial, numa alteração linguística para ganhar tempo nas discussões com as Nações Unidas, que cada vez mais pressionavam a Espanha franquista a abdicar da sua presença em Marrocos. Essa pressão já tinha, aliás, resultado positiva nas áreas do norte, onde Espanha apenas manteve, até hoje, os enclaves de Ceuta e Melilla. Mas antes de pretender o Sahara, Marrocos reclamava Sidi Ifni. E se não seria a bem, tentou que fosse a mal, desencadeando em 1958 uma série de ataques contra as posições espanholas, nesta cidade e ainda em El-Aayoun, que levaram Franco, ou não fosse um general do Exército, a determinar o reforço da presença colonial, quer através de meios militares mais avultados, quer ainda pela implementação de um plano de crescimento das cidades que o país tutelava. O ditador espanhol chegou mesmo a deslocar a capital da então África Ocidental Espanhola desde Villa Cisneros, a actual Dakhla, para El-Aayoun, hoje também capital da região marroquina do Sahara, sob o nome Laayuone.

Cercada durante pouco mais de meio ano, entre 1958 e 1959, Sidi Ifni recebeu reforços pelo ar, inclusive uma companhia de paraquedistas, e prevaleceu inexpugnável, sob um episódio contemporâneo e muito idêntico ao do cerco a Berlim Ocidental, 10 anos antes, que assinalou o despoletar da “Guerra Fria”, entre os blocos de leste e ocidental, em que uma enorme ponte aérea das forças aliadas, nomeadamente das norte-americanas, garantiu os abastecimentos da cidade. Usando os mesmos recursos, os espanhóis acabaram por levar as forças marroquinas a desmobilizar. Mas estes, todavia, não partiram de mãos a abanar. Não conquistaram a cidade, mas de algum modo sentiram-se vitoriosos nesta “Guerra de Sidi Ifni”, pois mesmo sem terem ganho em combate, bem pelo contrário, foram rudemente fustigados, nomeadamente depois de uma invulgar ofensiva aérea, em que os franceses vieram em socorro dos espanhóis e atacaram as posições marroquinas com centena e meia de aparelhos.

Café Avenida, no centro de Sidi Ifni

Esta sensação de vitória, experimentada pelos marroquinos, deveu-se ao facto de terem conseguido negociar com o General Franco uma redefinição dos limites do Sahara Ocidental Espanhol, que recuaram para baixo, colocando a nova fronteira a sul do Cabo Juby, o que levou ao abandono da cidade de Villa Bens, que imediatamente renasceu como Tarfaya.

E já lá vão 3008 quilómetros

Por mera coincidência, quando o odómetro do Peugeot 3008 marcou 3008 km, estávamos a chegar ao fim da nossa terceira jornada. O nosso destino era um pequeno hotel de praia muito especial, começando logo pelo nome: “Un Thé Au Bout Du Monde”, aberto há cerca de uma década por um casal de franceses, que se conheceram por ali mesmo, literalmente de cana na mão, enquanto se entretinham com uma paixão comum: a pesca. Daí nasceu outra, diga-se de passagem, e além de terem construído uma relação, construíram este hotel, que se estende por alguns blocos de casas térreas, imaculadamente caiadas de branco, com um terraço por cima, portas e janelas em azul indigo e canteiros cheios de buganvílias bastante coloridas encostadas às paredes, que intensificam o quadro bonito de todo o conjunto.

Não tomámos um chá no fim do mundo, mas sentimo-nos tão bem que decidimos prolongar a estadia, fazendo logo aqui uma das diversas neutralizações previstas nesta Expedição Peugeot 3008 Lisboa-Dakar-Bissau. Tanto mais que descobrirmos que além do conforto dos quartos, a cozinha é excelente. Rendemo-nos a um prato a que sempre tínhamos resistido: carne de dromedário, neste caso estufada, numa tagine, que se revelou incrivelmente saborosa.

Confortavelmente instalados, adormecemos embalados pelo som das ondas do Atlântico a desfazerem-se contra as arribas em redor, mas nem de manhã, ao acordarmos, conseguimos entender que mesmo em frente havia uma praia, tão denso que era o nevoeiro que cobria toda a zona costeira.

Partimos em direcção a Sidi Ifni, para revermos esta cidade, que já não visitávamos há cerca de uma década. Encontramo-la igual, inclusive com as mesmas referências bem vivas da presença espanhola, a começar pelo imponente Palácio do Governador, num recanto da praça principal, a antiga Plaza de España. Não estaremos longe da verdade se dissermos que todas as casas do centro da cidade são ainda do tempo dos espanhóis. E algumas não perderam sequer a designação espanhola, como o Cine Avenida, que ainda continua em funções, o café em frente, com o mesmo nome, alguns velhos hotéis e até as esplanadas sobre a praia, na ponta da arriba, como se fosse um imenso balcão, onde ao fim da tarde parece que vem meia população, para assistir ao pôr do sol e esperar que a noite caia. Também o fizemos, mas depois de uma sardinhada no mercado do peixe, onde negociamos com o assador servir-nos dois grandes peixes, que chegamos a confundir com robalos, e que nós mesmo tínhamos comprado numa banca, para tentar contrariar a ementa diversificada que nos tinha sido apresentada: havia de tudo, desde que fossem sardinhas…

As primeiras pistas fora de estrada

Um almoço de peixe é sempre leve, pelo que depois de termos feito como os marroquinos, preguiçando um pouco num dos cafés junto ao mercado, instalámo-nos a bordo do Peugeot 3008 e arrancamos à descoberta das pistas de terra que serpenteiam pelos montes e vales em redor da cidade.

As primeiras pistas de terra, ainda muito civilizadas. Para África, é claro

Finalmente íamos sujar o carro com poeira e embora não tenhamos senão percorrido umas dezenas de quilómetros fora da estrada, este primeiro teste surpreendeu os nossos companheiros desta fase da viagem, Luís Jerónimo e Pedro Nogueira Simões, que não precisaram de mais para se convencerem que o novo 3008 merece ser considerado um SUV.

O conforto sentido nos pisos de terra foi desde logo evidenciado, tal como todos notámos as enormes vantagens de podermos dispor de pneus “all-terrain”, próprios para um uso frequente em caminhos não pavimentados, que oferecem bastante mais motricidade nas pistas de terra. Além disso, possuem ainda uma carcaça reforçada, que os torna quase imunes às agressões do terreno e aos furos. E como isso nos autoriza a levar o Peugeot 3008 mesmo por trilhos de pisos irregulares, bastou este aperitivo, digamos assim, para desde logo se sentir a bordo uma leve ansiedade pelos piores caminhos, África abaixo…