Na aldeia do Bairro, Ourém, em quase todas as casas há alguém que saiba encadear terços. Há quem faça das voltas ao arame e às contas emprego. Outros pegam no alicate como um entretém, à beira da horta ou durante o pastoreio.

Aurélia já tem “as mãos pesadas”, mas os cerca de 60 anos de volta dos terços fazem com que hoje encadeie “quase de olhos fechados”, enquanto pastoreia as suas ovelhas e cabras, na aldeia do Bairro, situada no extremo oriental da Serra de Aire.

Por esta e por outras aldeias próximas era comum levar-se no braço o arame, já com as contas do terço enfiadas, enquanto as cabras pastavam, que “elas não dão muito que fazer”.

Hoje, já não há tanta gente a encadear terços – um trabalho que era feito maioritariamente pelas mulheres -, mas em muitas casas continua a haver alguém que saiba manusear o alicate para dobrar o arame a cada uma das contas do terço.

Aurélia Felicíssimo ainda se lembra de fazer terços com alfarroba. Mas se o material mudou ao longo dos anos, a forma de fazer não.

“Foi sempre assim, com o alicatezinho”, conta a mulher de 71 anos à agência Lusa, sublinhando que o entretém “ajuda um pouco à reforma, que é pequenita”.

“Antes, era toda a gente”, sublinha o presidente da Junta da Nossa Senhora das Misericórdias, Luís Oliveira, realçando que na zona das aldeias do Bairro e do Sobral o encadeamento de terços é uma “coisa muito antiga”, associada à criação naqueles lugares das principais empresas de artigos religiosos.

É nesta freguesia que foram fundadas as cinco empresas que produzem o terço oficial do centenário das “aparições”, realça.

Adelaide Vieira não conta os terços que faz por hora, mas a velocidade com que manuseia o alicate denuncia a experiência.

“Praticamente desde criança” que sabe encadear terços e assegura que “quase todas” as colegas da sua idade sabem fazê-los, responde, sem largar os olhos do terço, enquanto se ouve o tilintar do arame de latão e o corte rápido e preciso do alicate.

O processo é “quase automático”, assegura a funcionária dos quadros da empresa de artigos religiosos Manuel Reis Pereira, que opta por trabalhar em casa.

Já Manuel e Conceição, reformados, fazem com outro vagar.

Normalmente ao pé da horta, à sombra, Manuel vai enfiando contas e encadeando alguns terços, que começou a fazer depois de ter chegado a reforma.

“Não consigo estar parado”, frisa.

A sua mulher, Conceição, de 73 anos, começou a fazer terços com nove ou dez anos, depois de aprender com vizinhas.

“Antes de ir para a escola primária os meus pais diziam: ‘vê lá se fazes dois ou três'”, recorda.

O encadear de terços faz parte da vida da pequena aldeia do Bairro, onde se situa a empresa que mais terços oficiais do Centenário produziu até agora, a Manuel Reis Pereira (cerca de 60 mil terços).

Com 12 funcionários, a empresa tem nos quadros algumas pessoas que encadeiam de forma completamente artesanal nas suas casas.

“Essas pessoas ainda compensa porque trabalham há vários anos nisto e conseguem fazer quase dez terços por hora”, refere Vítor Pereira, filho do fundador da empresa, vincando os números associados ao trabalho “custoso” por trás de cada terço: são 59 contas que têm de ser enfiadas no arame e 118 argolas feitas manualmente com o alicate.

Num raio de dez quilómetros qualquer pessoa, “em qualquer aldeia, sabe fazer um terço”, realça.

Hoje o milho, alfarroba ou grão de bico usados noutros tempos, foram trocados por contas em vidro, plástico ou cristal feitas na República Checa ou na China.

A variedade também é completamente diferente. Só na empresa sediada no Bairro, há cerca de “mil terços diferentes”, em termos de cor, tamanho e modelo.

Apesar de a empresa ter uma técnica “semi-automática” que permite fazer o terço “três vezes mais rápido”, Vítor Pereira não acredita que algum dia o processo será completamente automatizado.

“É preciso delicadeza”, realça.