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Na noite do atentado, José Santos Cabral está em casa, em Coimbra, a ver televisão. Tem 32 anos e é ainda um jovem juiz. Há de tornar-se diretor nacional da Polícia Judiciária, mas para já, trabalha há um ano no tribunal de Vila Nova de Ourém. Por isso, está habituado a casos relacionados com Fátima.

As imagens a princípio eram confusas, não se tinha a perceção propriamente do que tinha acontecido, e pouco a pouco foi se formando a ideia de que realmente tinha havido um atentado, com o decorrer das horas. E nessa altura pensei: "bom, já vou ter trabalho".

Dentro de cinco meses, Santos Cabral vai ter nas mãos a tarefa de julgar o padre Crohn. Os olhos do mundo vão estar naquele tribunal de Ourém, mas para já, o juiz ainda sabe muito pouco. Está no sofá, perplexo com o que acaba de ver. As horas que se seguem vão ser decisivas. Crohn vai confessar tudo à polícia. Mas ao longo das próximas semanas, vai começar a surgir uma dúvida na cabeça de polícias e procuradores que Santos Cabral vai ter de desfazer. O padre Crohn é culpado ou é louco? O padre Crohn não esperava isto. É madrugada do dia 13 de maio. Poucas horas depois de ter tentado matar o Papa, está detido num carro da polícia a caminho de Lisboa. João Paulo II está a dormir em Fátima e vai continuar a viagem por Portugal como se nada tivesse acontecido. Há sete meses, tinha visto o assassinato do presidente egípcio na televisão. Ia fazer o mesmo ao Papa e pelo meio ia ser abatido pela polícia, tornando-se um mártir. Com esse gesto, tão dramático quanto simbólico, ia libertar a Igreja da lenta agonia em que sufocava e devolvê-la ao caminho de onde nunca devia ter saído, o dos papas anteriores ao Concílio Vaticano II. As reformas modernistas não passariam de um pequeno acidente de percurso numa tradição milenar. E ele, Juan Fernández Crohn, seria lembrado como o herói que restaurou a dignidade da Igreja Católica. Mas vai passar os próximos meses entre uma cela da prisão e um tribunal. Correu tudo mal. "Matar o Papa" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Pedro Laginha, com banda sonora original de Rodrigo Leão e participação especial de Adriano Luz na voz de Juan Fernández Crohn. Episódio cinco: Não é pecado.

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Crohn decide não resistir à detenção. Está resignado, encharcado em suor, a batina e a camisa desapertadas. É levado pelo meio da multidão. Puxam-no violentamente, mas não recusa nenhuma ordem. Enquanto avança, continua a gritar. É anticomunista, um mártir, não tem cúmplices. Está sozinho. É levado para uma das saídas do santuário. No caminho, passam por baixo das arcadas laterais, onde estão os convidados de honra. Entre eles, Crohn vê o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal italiano Agostino Casaroli. Sabe bem quem ele é. Grita-lhe diretamente: "Casaroli, comunista, assassino, traidor!" Casaroli é um diplomata com uma longa carreira no Vaticano. É o principal operacional da Ostpolitik da Santa Sé, a tentativa de diálogo com os países comunistas iniciada na década de 60 pelo Papa Paulo VI. O cardeal italiano foi o arquiteto de acordos com países como a Checoslováquia, a Jugoslávia e a Hungria, que garantiram alguns direitos e liberdades à população. Mas para Crohn, a simples ideia de dialogar com aqueles países é uma traição. E ali está Casaroli, numa tribuna de honra de Fátima, a assistir às celebrações como se nada fosse, enquanto ele próprio é arrastado pelas autoridades, humilhado e impotente. Junto ao carro da polícia, é abordado pelo guarda-costas do Papa. O arcebispo Marcinkus pergunta-lhe por que tentou matar João Paulo II. E o padre Crohn responde-lhe: "Esse homem está a destruir a Igreja e é o anticristo místico. Logo a seguir, um bispo português também se aproxima. Tenta arrancar-lhe a batina à força. Diz-lhe que ele não é sacerdote nem digno daquelas vestes. Depois, a polícia acaba com a tensão. O padre Crohn é posto dentro do carro e levado dali para fora. O primeiro destino é o posto da PSP de Fátima. É interrogado logo na cela e confessa tudo. Admite que veio de Paris para matar o Papa e explica as razões que o levaram a fazer aquilo. Mas o que está em causa não é um simples crime, é um atentado contra a vida de um chefe de Estado e isso é matéria para a Polícia Judiciária. Ainda nessa noite, o padre Crohn vai seguir imediatamente para Lisboa. Quando chega às 3h30 da manhã, fica detido na PJ. Anos depois, há de confessar à RTP que foi a primeira noite em muito tempo que conseguiu dormir decentemente.

Entretanto, em Fátima, mais de 12 horas depois da tentativa de agressão ao Papa.

Quando acorda, a notícia já começou a espalhar-se. Na noite anterior, a maioria das pessoas não se aperceberam do que tinha efetivamente acontecido.

Muitos peregrinos não queriam acreditar que alguém, e muito menos um sacerdote, pudesse atentar contra a vida de um homem que não faz mal a ninguém.

Na manhã de 13 de maio, os jornais e as rádios começam a dar as primeiras informações sobre o ataque e os jornalistas acampam à porta da PJ. É o próprio padre Crohn que faz questão de falar com os inspetores no primeiro dia. O processo judicial arquivado na Torre do Tombo conserva o registo dessa primeira conversa. Mais uma vez, o espanhol conta tudo. Nas primeiras horas, o padre Crohn dá todos os detalhes à PJ. Explica que é um anticomunista e que foi quando viu na televisão o assassinato do presidente egípcio que ganhou coragem para matar João Paulo II. E apresenta pela primeira vez o argumento que vai usar durante todo o processo: agiu em legítima defesa. Diz que não é pecado matar o Papa, se isso for feito em legítima defesa da Igreja. Conta como comprou três facas para perceber qual era a melhor. Explica que desenhou o plano durante seis meses. Dá os pormenores da viagem de comboio entre Paris e Fátima e detalha como estudou o terreno no santuário e se posicionou junto ao corredor central para tentar esfaquear João Paulo II. Hoje diz que os interrogatórios a que foi sujeito foram especialmente duros e traumáticos.

Foi muito traumático, mas ao mesmo tempo aceitei e suportei tudo. Com espírito de sacrifício, efetivamente. Foi traumático porque fui agarrado, acusado e interrogado por pessoas diferentes, que a cada minuto entravam e saíam. Nos interrogatórios não me tocaram. Esse primeiro foi muito duro, muito acusador. E depois fui interrogado por dois da Polícia Judiciária, quando já estava detido em Lisboa. Duros.

Crohn conta que a Polícia Judiciária estava convencida de que o padre não tinha agido sozinho. Um ano antes, o atentado de Ali Agca levou as autoridades a investigar as possíveis ligações ao KGB e a um plano internacional para matar o Papa. Agora, a PJ quer ter a certeza de que não está perante uma nova conspiração. Ou pior, a mesma. O caso do atentado no ano anterior ainda nem sequer estava totalmente fechado. Nesta mesma semana, o cidadão turco, que tinha tentado matar João Paulo II a tiro em Roma, voltou a ser interrogado. A polícia italiana queria que Ali Agca revelasse a identidade dos cúmplices que o tinham ajudado no plano. Depois de o próprio ter revelado, por exemplo, que foi treinado na Bulgária e na Síria por especialistas em terrorismo internacional. Outros homens chegaram a ser detidos por suposta ligação ao ataque. A possibilidade de o padre Crohn estar ligado ao atentado anterior não era assim tão remota. E a de haver cúmplices, ainda menos. A polícia admite todas as possibilidades e está determinada a não cometer nem mais um erro. Num só dia, faz quatro detenções: dois estrangeiros que estavam há cinco dias hospedados num hotel em Lisboa, um homem que planeava invadir a Nunciatura Apostólica e um ex-padre que andava a fotografar os locais por onde o Papa ia passar em Coimbra. Na sede da Polícia Judiciária, Crohn continua a repetir o mesmo: agiu sozinho. Como não quer que algum detalhe se perca na tradução, nem que restem quaisquer dúvidas sobre o que fez e porque o fez, o padre espanhol não se limita a responder às perguntas da PJ. Além de confessar de viva voz, pede papel e caneta e senta-se a escrever. Logo nesse dia, 13 de maio, em que João Paulo II preside à missa em Fátima, o padre Crohn entrega aos inspetores um longo manuscrito. São 10 páginas em papel timbrado da PJ, escritas em espanhol com uma esferográfica azul Nelas, Krone recorre à teologia para se justificar. Recua à Idade Média e diz que o Renascimento representou o primeiro passo na decadência da Igreja. Escreve que João XXIII, Paulo VI e João Paulo II são antipapas, encarnações modernas do Anticristo. Critica o Concílio Vaticano II e o comunismo. Tudo para chegar a uma conclusão que para ele é óbvia: é preciso pôr um ponto final à agonia da Igreja, matando João Paulo II. No dia seguinte, enquanto o Papa continua a percorrer o país com aparente normalidade, o padre Krone vai ser levado a um juiz para o primeiro interrogatório e a atenção dos jornalistas vai dividir-se entre os dois. Os jornais contam que depois de passar cerca de 24 horas em Fátima, João Paulo II volta a Lisboa de helicóptero. A agenda do Papa para o dia 13 ainda inclui uma audiência com o corpo diplomático antes do cair da noite. Rui Correia de Oliveira fica aliviado quando o Papa sai de Fátima.

O dia 13 foi, de facto, um momento de grande relaxamento, com uma enorme alegria interior de que uma grande coisa tinha acontecido, onde a questão do atentado nem se falou.

Mas o atentado continua em destaque nos jornais. O Primeiro-Ministro Francisco Pinto Balsemão faz um comunicado a dizer que o governo português manifesta repulsa e profunda consternação. E o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, dá graças a Deus por nada ter acontecido ao Papa. A PJ revela novos dados aos jornalistas. Através da Interpol, está em contacto com França e Espanha. Já confirmou que Krone é um padre ligado à fraternidade de São Pio X, a comunidade do bispo francês ultraconservador Marcel Lefebvre. A agência espanhola EFE distribui aos jornais portugueses o testemunho de um antigo colega de escola do padre Krone. Descreve-o como inteligente, frio e calculista, e como um aluno brilhante. No dia seguinte, a 14, João Paulo II viaja para o Alentejo. Vai a Vila Viçosa para visitar o Santuário de Nossa Senhora da Conceição, a padroeira de Portugal.

As grandes empresas devem utilizar a terra, fazendo-a produzir sempre mais, com a oportuna participação dos trabalhadores.

João Paulo II dedica uma parte do discurso que fez numa terra marcada pela reforma agrária aos trabalhadores agrícolas e à justiça salarial.

Ao direito do justo salário de quantos contribuem para a produção, sem perder de vista a função social da propriedade.

Krone está na prisão, mas chegam-lhe ecos do discurso. Apesar de João Paulo II também ter criticado quem tira dividendos partidários da reforma agrária, Krone só ouve o que quer. Há de dizer no julgamento que o Papa foi a Vila Viçosa justificar a reforma agrária feita pelos comunistas. Além da notícia sobre o discurso do Papa, o Diário de Lisboa publica o testemunho de um jornalista espanhol que andou com o padre Krone na faculdade. "Foi sempre um homem estranho, com olhos de louco e que ficava em êxtase com relatos de aparições", escreve o jornalista, que revela ainda um episódio mais recente. Meses antes, Krone encontrou o líder socialista espanhol Felipe González num aeroporto em Paris. Insultou-o durante 15 minutos até ser levado pela polícia. No dia 15, João Paulo II ainda viaja para Coimbra, Braga e Porto. Ao final da tarde, embarca num avião com destino a Roma. Em Portugal, numa cela, fica o padre Krone. Está cada vez mais sozinho. A fraternidade de São Pio X emite um comunicado a afastar-se dele. Chamam-lhe antigo membro. Dizem que não é de agora que deixou de fazer parte do grupo. Krone está entregue a ele próprio.

A comunidade declarou lamentar profundamente o incrível comportamento de um dos seus antigos membros, condenando severamente este fanatismo obcecado. Tendo recebido em 1978 a ordenação sacerdotal, que lhe foi conferida por monsenhor Lefebvre, Juan Fernández Krone acabou por deixar a fraternidade ao recusar-se, ao contrário desta, a reconhecer a autoridade do Papa.

Mais de 40 anos depois, o padre espanhol continua a rejeitar o comunicado da organização.

Estive sempre na fraternidade até ao fim. Houve alguns que disseram o contrário, talvez para desculpar um pouco monsenhor Lefebvre e a fraternidade, para se distanciarem de mim, mas isso não é verdade. Eu estive na fraternidade até ao último dia, até ao dia em que apanhei o comboio para Fátima.

Krone está sentado numa sala rodeado por quatro homens. Veste ainda a mesma batina de padre que usava há dois dias quando tentou matar o Papa. Levanta-se várias vezes durante a conversa, gesticula. Um jornalista da RTP, que acompanha tudo através da janela de um prédio vizinho, relata que o padre espanhol passa repetidamente a mão pelo cabelo. Parece nervoso. Estamos no Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa e um dos quatro homens que o rodeiam é o juiz de instrução, que durante quase quatro horas interroga Krone sobre o ataque contra o Papa João Paulo II. Krone não quer um advogado, por isso é acompanhado por um defensor oficioso chamado pelo tribunal.

Durante o interrogatório, Krone terá mesmo declarado que planeara o atentado nos últimos seis meses e garantiu que chegou a tocar na perna do Papa, à altura em que João Paulo II o teria fulminado com o olhar.

Por causa da visita do Papa, estão muitos jornalistas estrangeiros em Portugal. Agora, têm um novo motivo para ficar. Krone vai aguardar julgamento em prisão preventiva. Se for condenado, arrisca passar 20 anos na cadeia. Depois dos primeiros dias nas celas da PJ, Krone é enviado para o estabelecimento prisional de Lisboa, no centro da capital. Vai estar preso cinco meses enquanto espera pelo julgamento. O jornalista João Francisco Gomes falou com Juan Fernández Krone.

A prisão preventiva foi muito dura. Muito dura. Na rua Marquês de Frontera era um caos, um inferno. Agrediram-me várias vezes.

Os polícias, os guardas prisionais ou os outros?

Não, os outros presos. Havia efetivamente uma pressão ideológica, havia uma pressão ambiental de esquerda. Fizeram de mim um extremista de direita. Quase todos os reclusos viam em mim um fascista. Havia uma anarquia total e tive confrontos violentos, em parte, resultado da minha reação desesperada para sair daquilo. Era uma situação de pressão e de ameaça muito grande, que nunca tinha vivido.

Na cadeia, o padre Krone reza o terço mais de 10 vezes por dia. O resto do tempo é passado a escrever. E a justiça vai ser surpreendida com o atacante, que explica tão ao pormenor o que aconteceu, que até acrescenta uns desenhos a esferográfica azul, estilo banda desenhada, com setas a apontar para ele próprio e para o Papa no momento do ataque. No primeiro, mostra onde se posicionou no santuário à espera de João Paulo II. No último, retrata-se deitado no chão depois de ser derrubado pela polícia. Mas o texto mais importante que Krone escreve na prisão é um livro. "Acuso o Papa" é o título, e o subtítulo é: "Em defesa do terceiro segredo de Fátima". Tem mais de 250 páginas, sai ainda no ano do ataque e é editado por Valdemar Paradela de Abreu, o mesmo que anos antes tinha publicado o livro "Portugal e o Futuro", do general Spínola. O livro serve, acima de tudo, para o padre Krone se justificar. Uma das coisas que o padre Krone descreve no livro é o momento em que pôs à prova a intenção que tinha de matar João Paulo II. Estava junto a uma estátua de Nossa Senhora. Bateu com o pé no chão e em fúria falou para a imagem: "Se Nossa Senhora reprovar as minhas afirmações, que ela me precipite imediatamente no inferno". Não aconteceu nada. Para o padre Krone, isso só podia querer dizer que a Virgem Maria estava do lado dele. No livro e nos textos que escreve na prisão, Krone repete os argumentos que justificam o atentado, nomeadamente a suposta proximidade de João Paulo II ao comunismo. À distância de 40 anos, o padre Peter Stilwell diz que essas teses não fazem sentido.

Krone tem a sua resposta no fato de que foi a opção de João Paulo II quem muito contribuiu para o colapso dos regimes comunistas. Portanto, quem tinha razão, na segunda história. No mundo ocidental, havia muito a ideia de que os regimes comunistas estavam para ficar e que seria impossível que eles caíssem. A ideia de que os regimes pudessem colapsar por dentro era qualquer coisa que não estava na mente de quem quer que fosse do Ocidente. E o Krone padece dessa falha de visão.

Quando o padre Krone tentou matar João Paulo II, ainda faltavam sete anos e meio para a queda do Muro de Berlim, mas a influência do Papa na luta contra o comunismo já era evidente. O que só seria tornado público muitos anos mais tarde, já depois da morte do Papa, é que João Paulo II não saiu ileso daquela noite em Fátima. Outubro de 2008. João Paulo II já morreu há três anos. O Papa é agora Bento XVI. Centenas de bispos de todo o mundo estão em Roma para participar na Assembleia Geral do Sínodo. Para comemorar os 30 anos da eleição de João Paulo II, Bento XVI e os bispos presentes em Roma reúnem-se num auditório do Vaticano Vão assistir à estreia de um filme. Chama-se "Testemunho". É a adaptação para o cinema das memórias de Stanislaw Dziwisz, que durante quase quatro décadas foi secretário de Karol Wojtyła. No filme, o secretário torna pública uma informação que ficou em segredo durante 26 anos.

"Posso agora revelar que o Santo Padre foi ferido. Na altura, mantivemos tudo em segredo. O Papa conseguiu terminar a cerimônia e só quando regressamos ao quarto é que percebemos que a batina dele tinha sangue e que a faca o tinha ferido".

João Paulo II e Stanislaw Dziwisz decidiram, ali mesmo, que a informação nunca sairia daquele quarto. Nem mesmo Manuel Ramalhete, o chefe da segurança que salvou o Papa, soube do ferimento. Mais de 40 anos depois, continua a dizer que o único sangue que viu foi o de um agente que se cortou num dedo.

O subchefe Moura, um meu colega, cortou-se ao tirar o sabre ao padre Krone, portanto ao agressor. Cortou-se, fez um golpezinho num dedo, um pequeno golpe, mas fez sangue. Depois mais tarde, houve um bispo, que era o secretário, que veio falar que Sua Santidade tinha sangue na vestimenta, no momento. Se teve, ninguém me comunicou, nem eu vi.

O segredo tinha sido bem guardado. A investigação da PJ dura cinco meses. O trabalho dos investigadores é facilitado pela confissão de Krone. O padre espanhol garante que não quer esconder nada. Faz questão de que os manuscritos que preparou sejam anexados ao processo. São dezenas de páginas que contêm os pormenores do caso. Mas a polícia tem de confirmar tudo. Ao longo de cinco meses, os inspetores interrogam várias testemunhas, incluindo Manuel Ramalhete e os outros agentes que fizeram o cordão de segurança ao Papa. Todos contam a mesma história. Garantem ter visto Krone tentar chegar perto do Papa várias vezes e só viram o sabre quando o padre foi atirado ao chão. A arma, entretanto, também é analisada pela Polícia Científica. Os inspetores não têm dúvidas de que é uma baioneta usada nas espingardas Mauser. A lâmina de aço puro tem mais de 24 cm de comprimento. Tinha sido afiada e tem um apreciável poder de corte, diz o relatório da polícia. Tem uns caracteres asiáticos gravados no punho. Os primeiros inspetores que os viram pensaram que eram árabes ou chineses, mas uma perícia pedida pela investigação revela que é uma baioneta tailandesa de 1902. De alguma maneira, foi parar a uma feira de velharias em Paris, onde Krone a comprou. Pelo meio da investigação, hão de surgir teorias que nunca serão comprovadas. Duas testemunhas dizem ter reconhecido Krone na televisão. Teria estado em Santa Maria da Feira no ano anterior com um padre conotado com a extrema-esquerda. O tal padre é chamado a testemunhar e rapidamente se conclui que é tudo mentira. Outras duas testemunhas vão à PJ do Porto dizer que estiveram em Fátima no dia do ataque e que viram um rapaz com um ar suspeito que podia ser cúmplice, mas a pista também não leva a lado nenhum. No final de julho, o Ministério Público formaliza a acusação. Krone vai responder por três crimes: porte de arma proibida, agressões a um chefe de Estado estrangeiro e tentativa de homicídio. Está uma multidão na rua. No caminho entre a prisão de Leiria, onde Krone passou a noite, e o Tribunal de Ourém, há 250 agentes da polícia. É uma operação de alto risco. Há vários meses que os portugueses aguardam este dia. Finalmente, vai começar o julgamento do homem que quis matar o Papa em Fátima. O juiz José Santos Cabral tem que contornar a multidão para poder entrar.

As pessoas estavam expectantes e as pessoas não compreendiam muito bem ainda o que aquele ato em concreto representava, como é que se tinha passado, qual tinha sido efetivamente o contorno daquilo.

Santos Cabral quer tratar o caso como apenas mais um. Tem de decidir imparcialmente, como em qualquer outro julgamento. Mas a atenção mediática é esmagadora.

Eu e os meus colegas tínhamos a noção de que este julgamento foi o primeiro julgamento com uma repercussão internacional muito grande. E que nós tínhamos uma responsabilidade acrescida, que as coisas corressem e fluíssem formalmente bem e que transparecesse uma ideia de que realmente a justiça portuguesa estava apta para julgar este ou qualquer outro caso, por maior que fosse a dificuldade.

O padre Krone volta a recusar contratar um advogado. Por isso, recebe um defensor oficioso, José Maria Lopes Perdigão. O advogado de 82 anos é católico e empenha-se no caso. Acredita que vai defender um homem de bons sentimentos. Mas o processo começa logo a trazer-lhe problemas. Antes do julgamento, recebe uma carta ameaçadora em nome de um grupo de católicos. "Veja no que se mete", escreviam. Crone chega descalço, vestido com uma batina verde e uma cinta de couro. Diz que é fruto de um voto a São Francisco de Assis e o símbolo da esperança.

Lembro-me perfeitamente também da própria figura do arguido e da forma do comportamento dele. Era um símbolo, era uma simbologia que ele pretendia. Configurava-se não só nas palavras que ele dizia, mas na postura também e até na forma de vestir. Ele ao vestir-se da forma como vestia. Ele queria transmitir uma mensagem, a mensagem do grupo a que pertencia e das ideias que tinha consigo.

A sessão começa às 14h. É o dia 20 de outubro de 1982. No primeiro dia, o julgamento dura mais de sete horas. Só acaba já depois das 22h. São ouvidas nove testemunhas de acusação, quatro de defesa e o próprio Krone. As testemunhas de acusação contam a história de um ataque confuso, mas ninguém viu a faca nas mãos de Krone. Na defesa, surge Paradela de Abreu, o editor que já está a preparar a edição das memórias do espanhol. Defende-o como um religioso fervoroso, mas não um louco. Afinal, se Krone escreveu mensagens ao Papa, por que é que haveria de o matar? Não se escrevem cartas a mortos. Quando é chamado a depor, o padre Krone nunca fala de João Paulo II como Papa. Refere-se a ele como Karol Wojtyla e, por isso, apesar de confirmar todos os factos da acusação, rejeita que o crime tenha sido cometido contra um chefe de Estado. Para ele, Wojtyla não é Papa, é só um impostor. E insiste em um ponto: não está louco. É uma pessoa normal do ponto de vista psicológico e não aceita que digam o contrário. Acredita que essa é a narrativa posta a circular pela Igreja. Para o padre Krone, chamar-lhe louco é pior do que prendê-lo. Está furioso com o que pensa serem as manobras da Igreja para o declarar um alienado mental. Diz que é uma forma de descredibilizar os argumentos que defende. Antes de a sessão terminar, o tribunal faz aquilo que Krone mais temia. Para decidir em consciência sobre a aplicação de uma pena tão grave, os juízes precisam de ter a certeza sobre se o arguido está em condições de responder pelos crimes que cometeu.

Quando há o mínimo de suspeita sobre a estabilidade mental de um arguido, impõe-se, até por uma questão de defesa do próprio tribunal, definir se efetivamente ele pode ser imputável criminalmente, pode ser responsabilizado. A diferença que vai entre uma paranoia e uma funcionalidade normal é uma linha, como dizem, difícil de definir.

Contra a vontade, Krone vai ter de ser submetido a exames psiquiátricos. Ao fim de cinco meses, continua a dúvida: é um criminoso ou é um louco? E pode sequer ser condenado por tentar matar o Papa? Mais de 40 anos depois, continua a insurgir-se contra a decisão do tribunal.

Pôr-me um selo de desgraça, de louco, de um indivíduo pronto pra análise psiquiátrica e para o enterro. Foi assim que eu encarei.

Para o padre Krone, é tudo uma farsa. Insiste que agiu por motivos religiosos para repor a verdade na Igreja e que, por isso, aquele tribunal não tem qualquer autoridade sobre ele. Só responde perante a justiça divina. Krone está convencido de que sabe muito bem porque é que a Igreja quer que pensem que ele é louco. É exatamente a mesma razão que faz com que três papas mantenham há décadas, trancado num cofre dos arquivos do Vaticano, um documento secreto. Na cabeça do padre espanhol, tanto ele como esse documento têm o poder de desmascarar o Vaticano e expor ao mundo os erros da igreja moderna. É um segredo que o Vaticano esconde desde 1960 e Krone tem a certeza de que o desvendou. Foi este segredo que fez com que João Paulo II viajasse até Fátima para agradecer por estar vivo. E foi apoiado no que pensa ser este segredo, que o padre Krone quis matar o Papa no santuário. O problema é que o segredo não é, afinal, nada daquilo que Juan Fernández Krone imaginava. Quando percebeu isso, era tarde demais. Mas essa é uma história para o último episódio. No próximo episódio. É preciso obrigá-lo a acalmar-se para que o coletivo de juízes possa finalmente ler a decisão. O padre espanhol está inquieto, mexe-se no banco, não consegue esconder os nervos. Alguns minutos depois, quando a sentença se começa a aproximar da condenação mais do que evidente, Krone volta a interromper o juiz aos berros. "Não aceito esta condenação, estou moralmente inocente. Viva Portugal católico, morte ao 25 de abril, morte a Roma!" "Matar o Papa" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Pedro Lajinha, com banda sonora original de Rodrigo Leão e participação especial de Adriano Luz na voz de Juan Fernández Krone. O guião e as entrevistas são de João Francisco Gomes. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons do arquivo da RTP e outros retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

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