Avraham Grant no passaporte israelita, Abraham Grant no passaporte polaco, Avram Grant no passaporte do mundo do futebol. Aos 62 anos está mais magro e torna-se mais complicado de reconhecer por ter deixado crescer a barba. O técnico que trabalhou com José Mourinho cerca de três meses no Chelsea antes de suceder ao português no comando técnico dos blues esteve presente na última conquista europeia do Manchester United, em 2008, perdendo no desempate por penáltis. Nove anos depois, após as finais da Liga dos Campeões perdidas em 2009 e 2011, os ‘red devils’ estão de volta aos grandes palcos, desta feita para discutirem com o Ajax a final da Liga Europa (19h45). Já sem Cristiano Ronaldo, “um dos melhores da história”, mas com José Mourinho, “um grande treinador e uma excelente pessoa, ao contrário do que se possa pensar”.

No último mês, o antigo selecionador do Gana passou por Lisboa, onde foi um dos oradores no congresso The Future of Football, organizado pelo Sporting e realizado no auditório Artur Agostinho, em Alvalade. Como palestrante, focou os problemas da migração dos jogadores e os entraves para que as equipas africanas continuem a não chegar aos grandes palcos mundiais. Ao Observador, fez uma viagem de 35 anos de carreira em dez perguntas.

Começou a carreira de treinador com apenas 18 anos. Foi forçado a isso ou tomou essa opção?
Comecei pouco depois dos 18 anos mas foi por mera coincidência, nada pensado. Tive um acidente de carro, grave. Era um bom jogador, jogava como médio. Tive fraturas graves do lado esquerdo do corpo que demoraram um ano para ficar totalmente recuperado. Sempre fui capitão do Hapoel Petah Tikva e nessa altura pediram-me para ser treinador. Foi até hoje, por coincidência…

E como foi esse início de carreira em Israel?
Treinei equipas de Sub-12, de Sub-15 e aos 24 anos tornei-me diretor da academia. Foi um trabalho muito positivo porque, como não havia dinheiro para investir, o objetivo era sempre formar jogadores jovens e tinha um papel importante. Depois passei a treinador principal e fomos campeões da Toto Cup, o que não foi fácil no contexto do futebol israelita. Fui campeão no Maccabi Telavive e no Maccabi Haifa antes de chegar à seleção, onde acabámos por falhar a qualificação num grupo onde não perdemos com França, Rep. Irlanda e Suíça… e por dois golos.

Como chega depois ao Chelsea?
Quando saí da seleção de Israel, tive o convite para ser diretor técnico do Portsmouth. Aceitei. Era uma posição diferente mas hoje, com o tempo, consigo perceber que é um dos cargos mais importantes. Os donos do futebol não têm um conhecimento tão vasto sobre o jogo e o que se passa todos os dias nos clubes, e os treinadores sentem-se inseguros porque acham que com dois ou três maus resultados estão de saída. Às vezes, pedem jogadores que depois não precisam. Os diretores técnicos têm uma visão clara sobre isso e no Portsmouth tivemos um dos melhores anos no clube com Harry Redknapp. Em 2007, fui convidado por Roman Abramovich para esse cargo no Chelsea.

Mas só trabalhou três meses com José Mourinho, que saiu…
Sim, foram só três meses até passar de novo a treinador depois da saída do José mas esse tempo acabou por ser uma boa experiência.

Que só não foi melhor porque perdeu a final da Liga dos Campeões frente ao Manchester United, em Moscovo.
Foi a primeira vez que este novo Chelsea foi à final da Champions, porque tínhamos perdido antes dois anos seguidos com o Liverpool nas meias-finais. Aí conseguimos ganhar, foi estranho. Quem consegue imaginar meias-finais de uma competição como esta três vezes seguidas com o mesmo adversário? Na final, à exceção dos 20 minutos iniciais, fomos melhores. Em 70% das vezes, quem é melhor durante o jogo não ganha nos penáltis, há uma parte mental nisto. E nós não conseguimos ser mais fortes.

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E como foi essa relação com José Mourinho?
Bem, sei do que disseram na altura sobre a nossa relação… Só trabalhei com ele três meses mas devo dizer que me pareceu uma excelente pessoa. Sei que as pessoas têm tendência para ver o outro lado dele, aquele lado mais agressivo, mas cara a cara é muito simpático, inteligente. Acabou por acusar um pouco a pressão a certa altura, o que é normal porque não é fácil aguentar tanto tempo no topo. É um bom treinador, bom manager. Estou contente por vê-lo em Inglaterra ou em qualquer lado, gosto dele. Só tem de mudar a atitude: até hoje, ele ganhou muitas vezes os títulos sendo ‘underdog’, agora já não é. É um dos melhores treinadores do mundo, deve aprender com alguns erros que fez apesar da grande carreira. Mas pessoalmente gosto dele, nada a dizer.

Continuando nos portugueses, qual é a sua opinião de Cristiano Ronaldo, que acabou por ganhar essa final da Champions de 2008?
É um grande jogador. Não acho que seja um predestinado como Messi, mas isso só faz dele ainda mais respeitável. Tem tudo: 1×1, remate, livres, jogo aéreo. Até acho que ele pode conseguir atingir mais, porque fizemos algum trabalho estatístico sobre ele que apontava nesse sentido. Conheço-o desde os 16 anos. No Chelsea tentámos contratá-lo, mas fomos tarde demais, Alex Fergusson já o tinha detetado e não o libertou. Às vezes, havia 20% que poderia melhorar nos jogos grandes. Agora tem melhorado, com o tempo. É um jogador demasiado emocional, que tem de estar sempre a mostrar qualquer coisa. Isso é bom, claro, mas pode também aumentar a ansiedade porque todos estão a olhar para ele. É fantástico, um dos melhores de sempre na história.

Não acho que Ronaldo seja um predestinado como Messi, mas isso só faz dele ainda mais respeitável. Tem tudo: 1×1, remate, livres, jogo aéreo. Até acho que ele pode conseguir atingir mais (…) Conheço-o desde os 16 anos. No Chelsea tentámos contratá-lo, mas fomos tarde demais, Alex Fergusson já o tinha detetado e não o libertou.

Voltou depois ao Portsmouth, esteve no West Ham e no Partizan Belgrado e em 2014 assinou pela seleção do Gana. Tinha esse fascínio do futebol africano?
África é completamente diferente. Dizem que é terceiro mundo, mas as pessoas são muito, muito simpáticas. O que estamos a ver é que o talento não é suficiente. Têm talento, paixão mas não chega. E no dia em que superarem essas partes menos desenvolvidas, lutarão com os melhores do mundo. Todos prestam atenção ao futebol mas isso não acontece em África. Problemas: os campos são terríveis, 82% de lesões do CAN são ao nível do tornozelo; os salários dos futebolistas são inferiores aos ordenados médios, de alguém que trabalhe numa fábrica, por exemplo, o que faz com que escolham mal e a pensar mais no dinheiro quando vão para fora; e, em alguns casos, a idade: como treinador tive um jogador que tinha 32 anos em 2006 e 33 em 2010… Mas são loucos por futebol e têm talento.

Mais uma vez, o talento não chega para tudo
O Anelka tem mais talento do que o Drogba mas nunca chegou ao pé dele porque isso não chega, é preciso paixão e força mental, porque no futebol como na vida há dias bons e maus. África tem talento, tem paixão. Mas também um grande problema. Sabe qual é o maior negócio do mundo? Dar esperança. As pessoas chegam, prometem tudo e mais alguma coisa e algumas pessoas nem têm eletricidade em casa e aceitam sem ver estas ofertas falsas. Como disse no Congresso, às vezes levam as famílias mas depois era tudo falso e não conseguem fazer nada, nem voltar a casa.

Como vê o futebol de hoje?
No treino e na parte tática, apesar de cada um ter as suas ideias, os treinadores até são parecidos. Graças à evolução tecnológica, a parte física tem várias ajudas em todos os aspetos. Houve alguém que me disse um dia “não posso ler todos os livros, vamos deixar os jogadores jogarem”. Temos de trabalhar com a paixão e com a parte mental, porque podemos passar do zero ao 100 e do 100 ao zero num instante. Mas houve uma coisa que piorou no futebol: a falta de paciência em relação aos resultados. O dono de um dos clubes por onde passei, que por acaso é russo e tem um dos maiores clubes em Inglaterra mas não digo o nome (risos), era assim e disse-lhe isso – parece que um treinador tinha até ontem para ganhar…