Quase uma semana após o início do maior incêndio registado em Portugal, há apenas um ponto em comum nas intervenções dos vários protagonistas envolvidos no combate ao fogo de Pedrógão Grande: mais uma vez, o SIRESP falhou. A partir daqui, há dúvidas sobre dúvidas.

E o Ministério da Administração Interna entrou em blackout. O primeiro-ministro pediu esclarecimentos à GNR, Instituto Português do Mar e da Atmosfera e SIRESP sobre os acontecimentos de Pedrógão Grande. Ao SIRESP, Costa dirigiu uma pergunta sobre o sistema de comunicações, para a qual esperava um “esclarecimento rápido”. As respostas deviam ter chegado quarta-feira, mas até este momento não havia sequer informações sobre quando esse relatório estaria concluído.

A primeira confirmação de falhas. O incêndio tinha começado por volta das 14h de sábado, com origem em Escalos Fundeiros, uma pequena aldeia a 5,5km de Pedrógão Grande. Nessas primeiras horas, o secretário de Estado da Administração Interna foi o rosto que mais vezes surgiu perante as câmaras para avançar novos dados sobre a evolução do combate que se travava no terreno. Num desses pontos de situação à comunicação social, junto ao posto de comando de Pedrógão Grande, uma jornalista confrontou Jorge Gomes com a informação de que o SIRESP — Rede Nacional de Emergência e Segurança — não estaria a funcionar em condições.

Eram sensivelmente 23h30 quando o secretário de Estado admitiu que já se tinham registado “falhas momentâneas de comunicação” no sistema. Mas, à hora a que prestava esclarecimentos, as comunicações entre as várias entidades no terreno tinham sido “restabelecidas“, garantia o governante. “Isso [uma falha do sistema] é natural, porque os postes começam a arder, as prestações de comunicação por vezes caem”, desvalorizou, garantido que o SIRESP estava “a funcionar, com bastante regularidade e bastante bem”.

Ministra entra em ação. Cerca de cinco horas depois de um raio atingir uma árvore e dar origem ao maior incêndio em Portugal — segundo explicações da Polícia Judiciária –, 47 pessoas eram apanhadas de surpresa pelas chamas que envolveram um troço de 500 metros da Estrada Nacional 236 e que as impediram de escapar ao fogo.

Mais tarde nessa noite, Constança Urbano de Sousa chegou ao teatro de operações. Numa primeira intervenção, e quando os números oficiais ainda não contabilizavam todas as mortes naquela estrada, a ministra da Administração Interna escusou-se a responder a perguntas sobre a operação de combate. Aquele era “um momento de dor, de pesar”.

Sistema falhou “algumas horas”. Segunda-feira, primeiras horas da manhã. Ainda que de forma genérica, em entrevista ao i, Jaime Marta Soares, presidente da Liga de Bombeiros, era o primeiro elemento ligado aos homens no terreno a avançar que “durante algumas horas da tarde de sábado”, o SIRESP “faliu”.

A falha, aparentemente breve, “teve implicações” no trabalho dos bombeiros. “Mas, nessa altura, os bombeiros já estavam a combater o fogo”, acrescentou Marta Soares.

Bombeiros sentem “dificuldades” no terreno. Os trabalhos de combate às chamas decorriam há dois dias, sem interrupção, mas o incêndio continuava fora do controlo. Mas as falhas no SIRESP, que se fizeram sentir logo no sábado, estavam, afinal, longe de ficar resolvidas.

“Tem havido algumas dificuldades em comunicar. Essa dificuldade é maior quando efetivamente as ligações entre bombeiros e as forças de segurança não funcionam como se esperava que funcionassem. Os bombeiros estão a operar com as suas próprias redes e com os seus próprios repetidores de comunicações”, admitia Fernando Curto, presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais e vice-presidente do Sindicato Nacional de Bombeiros Profissionais, em entrevista à Exame Informática, ao final da tarde dessa segunda-feira.

Os bombeiros continuavam sem conseguir comunicar entre si e sem conseguir coordenar-se com as restantes entidades. “Não sei se é por não haver repetidores ou se é por a zona ser acidentada, há locais onde efetivamente o SIRESP não tem funcionado“, garantia Fernando Curto.

Nesse mesmo dia, segunda-feira, 19 de junho, o primeiro-ministro exigiu respostas urgentes à GNR, Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e SIRESP. “Confirma-se que houve interrupção do funcionamento da rede SIRESP, porquê, durante quanto tempo, se não funcionaram as suas próprias redundâncias e que impacto teve no planeamento, comando e execução das operações, como se estabeleceram ligações alternativas” era um dos conjuntos de questões colocados por António Costa.

As respostas deviam chegar até quarta-feira. IPMA e GNR cumpriram o prazo. A resposta da Guarda refere que, “apesar das dificuldades nas comunicações (todas)”, foi possível assegurar as operações de socorro e o apoio às populações. Mas não concretiza que falhas se verificaram nem que consequências resultaram dessas falhas para as operações de socorro — ou, sobretudo, se a incapacidade de comunicar com os bombeiros através do SIRESP teve influência no não encerramento da Estrada Nacional 236, logo no sábado.

Ao Observador, a GNR refere agora que “vai fazer a avaliação de todos procedimentos que foram adotados nas operações de socorro”, revendo “toda a informação recebida, todas as ordens dadas, fazendo a análise da informação de que dispunha no sábado, dos meios no terreno”. Esse trabalho não tem data prevista para estar concluído.

“Falhas inferiores a um minuto”. Horas antes de a ministra da Administra Interna dar uma entrevista à RTP, na quarta-feira à noite, o comandante operacional da Proteção Civil era confrontado com as falhas nas comunicações entre os operacionais. Episódios sem gravidade, garantia Vítor Vaz Pinto. “Há falhas no sistema SIRESP como há falhas em todos os sistemas, é preciso é que haja redundância dos sistemas de comunicação”, dizia o comandante.

Nesse momento, já tinha ficado claro que o sistema tinha falhado. Os cabos de transmissão de dados tinham ardido, afetando as antenas que serviam a região de Pedrógão Grande, onde se concentrava o esforço do combate às chamas. Continuava por esclarecer durante quanto tempo as comunicações tinham ficado em baixo e se essas falhas teriam afetado as operações. Vaz Pinto explicou então que as falhas foram “muito curtas, inferiores a meio minuto, um minuto” e que não tiveram “influência na gestão do plano de comunicações”.

Ministra reconhece falhas. Mas, na mesma entrevista à RTP (quatro dias depois do início do incêndio), a ministra dizia que, de acordo com a “informação preliminar” de que dispunha nesse momento, não tinha havido uma “falha total, houve intermitências” do sistema de comunicações. “A fibra ótica foi destruída pelo incêndio”, impossibilitando as comunicações entre os vários níveis da hierarquia de operacionais concentrados no combate ao incêndio.

Ficava, no entanto, a garantia de que “às 20h de sábado havia antenas móveis que foram imediatamente mobilizadas para o local” e que permitiram “assegurar a rede SIRESP”.

Antenas móveis mobilizadas só ao final da noite. Entre o ponto de situação de Vítor Vaz Pinto e a entrevista de Constança Urbano de Sousa, a revista Exame Informática publicou um artigo com o título “Pedrógão Grande: as torres do SIRESP que falharam”, em que se apresentava uma versão diferente dos problemas que envolveram o sistema de comunicação dos bombeiros, da GNR, do INEM e da Proteção Civil.

“Às 23 horas de sábado, foram acionados os procedimentos necessários para que duas das estações móveis da rede SIRESP se encaminhassem para a zona de Pedrógão Grande”, começa o artigo. Logo aqui, há um contraste significativo com os dados apresentados pela ministra e pelo comandante operacional sobre a hora a que as unidades móveis foram chamadas para o terreno. A versão oficial colocava as carrinhas às 20h em Pedrógão Grande; a revista garantia que só mais de três horas depois, às 23h30, os meios foram acionados.

Outra questão: havendo, em teoria, quatro carrinhas com antenas móveis disponíveis — uma da GNR, uma da PSP e duas da Proteção Civil –, quantas foram colocadas no terreno? “Aqui, foram colocadas duas antenas móveis e, portanto, que estavam a funcionar por satélite”, garantiria Constança Urbano de Sousa, recusando-se a confirmar a informação de que só uma carrinha tinha chegado ao local dos incêndios. Mas a revista Exame Informática dava pormenores: “A GNR ainda terá tratado de destacar a equipa que deveria transportar a unidade móvel até ao local, mas esta unidade móvel encontrava-se em reparações, devido a um dano registado na antena periscópica aquando das operações que a GNR montou no terreno durante a visita do Papa Francisco a Fátima.” Valeu o equipamento da PSP.

SIRESP esteve 14 horas fora de serviço. Esta sexta-feira, o jornal i também trouxe informações sobre as falhas no sistema de comunicações. “A rede de comunicações de segurança e de emergência (Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal, SIRESP) deixou de funcionar entre as 19h de sábado e as 9h30 de domingo, no pico do incêndio.

O mesmo jornal refere que “o SIRESP só foi restabelecido depois de ter chegado ao local um carro de apoio, com antenas para emitir sinal de comunicação, que partiu de Lisboa. Este carro de apoio foi pedido pelas autoridades às 23 horas de sábado e chegou ao local às 8h30 da manhã.

Já esta sexta-feira, questionado sobre a demora da resposta do SIRESP ao despacho do primeiro-ministro, e considerando as notícias que apresentavam uma versão diferentes dos factos, o MAI adiou, sem data, a apresentação de novos esclarecimentos.

“Porque ainda decorrem vários tipo de averiguações, o Ministério da Administração Interna não fará qualquer tipo de comentário à prestação da rede SIRESP nas ocorrências dos últimos dias”, refere o ministério de Constança Urbano de Sousa ao Observador.

Ao Observador, duas fontes que pediram para não ser identificadas, ambas com conhecimento sobre o funcionamento do SIRESP mas a partir de perspetivas diferentes (técnica e operacional), garantiram que a unidade móvel do sistema de comunicações só chegou ao terreno no domingo.

Uma das fontes confirmou a informação de que o período de inatividade do SIRESP — avançado pela revista Exame Informática e depois noticiada pelo diário i — se prolongou dois mais de 14 horas. Essa fonte operacional coloca a falha no sistema às 18h de sábado (pouco antes de as 47 pessoas terem sido apanhadas pelo fogo na Estrada Nacional 236) e refere que a unidade móvel começou a assegurar a operação do sistema às 8h30 de domingo. Esse sistema, uma unidade móvel da PSP, terá sido acionado às 23h30 de sábado, precisando de nove horas para chegar ao local do incêndio.

Depois desta sequência de episódios, o Governo publicou na sua página oficial o relatório da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) sobre os acontecimentos de Pedrógão Grande. Terão passado, afinal, mais de 40 horas sem que as comunicações tivessem funcionado em condições.

As primeiras falhas ocorreram às 19h45 de sábado, dia 17 de junho. E só ao meio-dia de segunda-feira, 19 de junho, “a ANPC recebeu por parte da SIRESP a informação de que a estação base de Pedrógão Grande ficou operacional”, refere o relatório.

Quanto às duas antenas móveis, a da GNR estava “inoperacional” e a da PSP estava “em reparação“. Conclusão: nenhum dos equipamentos podia ser rapidamente enviado para o terreno. Existem outras duas antenas, a cargo do MAI, mas, por não assegurarem a comunicação via satélite, não eram sequer opção.

De acordo com o mesmo relatório, as dificuldades técnicas não ficaram sanadas com a chegada da unidade da PSP — entretanto mobilizada — a Pedrógão Grande, na segunda-feira. Nas horas seguintes, sucederam-se as falhas numa série de estações (como o artigo da Exame Informática já tinha avançado). “Neste contexto, poder-se-á inferir que, desde as 19h45 do dia 17 de junho até ao dia 20 de junho, verificaram-se falhas na rede SIRESP”, sumariza o documento.

“O impacto da interrupção da rede SIRESP”, conclui a ANPC, “fez-se sentir, sobretudo, ao nível de comando e controlo de operações, por não permitir, em tempo, o fluxo de informação entre os operacionais e o posto de comando”.