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Temos de confessar: esta Taça das Confederações até pode ser vista por alguns como uma espécie de Liga Europa das seleções, mas teve o mérito de ir buscar todas as boas memórias daqueles fins de tarde/noite no ano passado em que nos juntávamos para ver Portugal em França, passávamos 90 ou 120 minutos a dizer que devia ser assim ou assado, mas no final estávamos todos em festa com mais uma vitória. Quando demos por ela, éramos campeões no cenário menos provável em que isso acontecesse. Mas a “sorte” nunca bate duas vezes.

O tempo foi dando razão a Fernando Santos: a equipa não joga bem nem mal, a equipa não joga bonito nem feio, a equipa ganha. Ou ganhava. Com jogos mais feios ou mais bonitos, com jogos piores ou melhores, mas como equipa. Portugal sabe dançar e tem o melhor bailarino do Mundo, mas a prestação depende sempre do parceiro. Com o Chile, dançou-se o que foi possível até o bailarico chegar aos penáltis. E depois do Santo António e do São João, houve um outro santo qualquer a abençoar a baliza de Portugal quando a bola bateu no poste e na trave no mesmo lance. Faltava mais um São, o Patrício, mas até os milagres têm limite e foi Cláudio Bravo a defender três penáltis!

Como diriam aqueles treinadores míticos dos anos 90, foi um jogo “rasgadinho”. Não teve entradas gratuitas nem lances com maldade (vá, Jara podia ter evitado aquele pisão no relvado a André Silva, mas continuemos), muito menos mordidelas tipo Suárez-Chiellini (tínhamos de fazer esta alusão porque faz hoje 20 anos que Mike Tyson teve a mordidela mais famosa do desporto mundial, a Evander Holyfield) mas sempre que havia oportunidade para os pitons da bota dizerem olá à caneleira do adversário, era certinho. E ninguém se queixava.

Por trás dessa intensidade contínua esteve muito de tática, sempre a apostar no calcanhar de Aquiles do adversário: o Chile apostava na criação da vantagem pelos corredores laterais com a subida de Isla e Beausejour a aproveitar o posicionamento demasiado interior de Bernardo Silva e André Gomes a defender; Portugal colocava-se a jeito para sair em transições rápidas que pudessem dar o espaço que escasseava a Cristiano Ronaldo, fosse para o capitão rematar, fosse para arrastar defesas consigo, fosse para assistir André Silva. Com uma curiosidade – sempre que uma formação conseguia criar perigo, a outra fazia o mesmo logo nos minuto seguintes.

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O Chile começou esse pingue-pongue: passe pelo corredor central para Vargas, remate rasteiro isolado do avançado e mancha perfeita de Rui Patrício, a deslizar pelo chão (6′). A seguir, numa transição rápida para o ataque, Cristiano Ronaldo cruzou a fugir do guarda-redes para o segundo poste mas o toque de André Silva acabou por ficar nas pernas de Cláudio Bravo (7′). Mais tarde, Aranguíz teve uma chance flagrante mas atacou tão cedo a bola que fez uma rosca para a bancada (31′); depois, e mais uma vez, foi André Gomes que chegou tarde ao cruzamento de Cédric (33′). Andávamos nisto, sem golos e com o domínio a pertencer a quem dominasse o meio-campo. Até nesse ponto, uma vez mandava um, outra vez mandava o outro. E assim chegámos ao intervalo.

Começou uma nova parte, continuou a velha história. Meio acidentada, com muitas queixas nas divididas e choques de cabeças pelo ar, entretida q.b. mas com raras oportunidades. Mais uma vez, Vargas colocou Rui Patrício à prova num pontapé de ressaca onde o guarda-redes teve uma parada impossível quase encostado ao poste (57′). E mais uma vez, Ronaldo colocou a defesa do Chile em sentido, desta vez fletindo para dentro e rematando para uma defesa por instinto de Cláudio Bravo para o ar (59′). Depois entrou em cena a meia-distância: Vidal não ficou longe da trave da baliza de Patrício (63′); Ronaldo, com um desvio de trajetória, passou mesmo perto do poste (72′).

Logo aos cinco minutos da primeira parte do prolongamento, o Chile mostrou ao que vinha: da pressão na zona defensiva sobre o portador da bola português nasceu uma transição que criou (mais uma vez) superioridade na direita para Isla cruzar e Alexis Sánchez cabecear a rasar o poste. Ui, afinal era só uma mera ilusão de ótica. Porque a cabeça queria, mas pernas não respondiam e o coração já estava demasiado ao pé da boca. Uns e outros já estavam mais a pensar nas grandes penalidades do que outra coisa. Até jogadores a caírem sozinhos já havia…

A gestão de Santos nem sempre foi a melhor (a nível de substituições), mas os santos foram conseguindo fazer a melhor gestão do jogo até ao final do prolongamento. Tanto que, a dois minutos do final, Arturo Vidal acertou no poste e, na recarga, Martin Rodríguez acertou na trave. Os jogadores chilenos ficaram em desespero, uns até se atiravam para o chão, mas Rui Patrício, com a bola nas mãos, sorria e soltava palavras de alívio. Final dos 120 minutos, sem um único golo.

Vidal apontou o primeiro penálti: bola para um lado, guarda-redes para o outro, 1-0. Seguiu-se Quaresma e os saltitos de Bravo tiveram efeito, com o guarda-redes do City a conseguir travar a tentativa do extremo. Aranguíz, meio atabalhoado, chutou quase direito em frente e marcou mesmo, 2-0. E seguiu-se Moutinho, que repetiu exatamente o mesmo filme de Quaresma, para o mesmo lado e outra vez travado. Alexis Sánchez voltou a bater para a direita de Patrício, o guarda-redes voltou a cair para a esquerda e… 3-0. E seguiu-se Nani, que tentou variar o lado, até com uma paradinha pelo meio, mas mais uma vez Cláudio foi mais Bravo. E arrumou a questão.

No Europeu, Portugal ganhou à Croácia e à França no prolongamento e à Polónia nas grandes penalidades. Nesse desempate, as cinco tentativas foram transformadas e bastou Rui Patrício travar uma. Agora, em três remates, nem um golo. Um, dois, três, afinal não houve uma outra vez. E o Chile apurou-se para a final da Taça das Confederações.