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Incêndios

São famosos e têm uma mensagem: “Portugal Sem Fogos Depende de Todos”

Tony Carreira, Fernanda Serrano, Patrícia Mamona e Diana Chaves são algumas das caras da nova campanha "Portugal Sem Fogos Depende de Todos". Acompanhámos as gravações.

As gravações decorreram esta quinta-feira em Lisboa. Patrícia Mamona foi uma das celebridades a dar a cara pela campanha

LUÍS RIBEIRO/OBSERVADOR

“Voltei nem há dois dias, mas tinha que vir fazer esta campanha… É o mínimo que posso fazer.”

As palavras são da atleta Patrícia Mamona, uma das celebridades que participa na campanha “Portugal Sem Fogos Depende de Todos” pela primeira vez. Já passaram 11 anos desde que ouvimos as palavras de ordem pela primeira vez, mas o que muda agora?

Mudam principalmente as caras que se juntam a este movimento. Não só Patrícia Mamona mas também Tony Carreira, Fernanda Serrano, Diana Chaves e Rui Unas, todos chamados a gravar a campanha, cujo making of foi acompanhado pelo Observador na passada quinta-feira.

Num pequeno armazém em Santos, em Lisboa, não faltaram gritos de “ação” e “corta”. Um a um, os convidados foram repetindo as mesmas palavras que até agora só conhecíamos em voz off: “Não atire cigarros para o chão, não lance foguetes, não faça fogueiras”, e um a um falaram com o Observador.

Todos se lembram de onde estavam no momento em que tiveram conhecimento da tragédia de Pedrógão Grande e todos falam de imagens que não esquecem e de momentos de medo por que já passaram. Mas o que os une verdadeiramente é a vontade de prevenir que algo do género volte a acontecer.

Patrícia Mamona: “Fiquei sem palavras”

Patrícia Mamona estava no estrangeiro em competição quando foi sabendo do incêndio em Pedrógão Grande. “A minha primeira reação foi apelar nas redes sociais [a donativos]”, conta. “Esta campanha é importante. É o mínimo que posso fazer: usar o meu mediatismo para chegar às pessoas.”

LUÍS RIBEIRO/OBSERVADOR

A atleta recordista garante que as imagens de Pedrógão Grande “não se esquecem e têm que servir de alerta”, mas não esconde que ela própria já viu as chamas de perto.

“Tive um incêndio em casa. Foi grave. A nossa cozinha foi completamente destruída. Vi tudo de fora, tudo queimado”, vai contando a um ritmo vagaroso. Puxa pela memória mas não se lembra de ter sentido algo na altura em que tinha quase 13 anos. Já vivia com a mãe na zona de Agualva e lembra-se “bem mais do pânico da mãe, do sofrimento por que ela passou. Perdeu tudo, e o facto de também não termos muitas posses… Já se tem pouco e ainda se perde o pouco que se tem.”

Reconhece que teve o que chama de “sorte”. Ninguém se magoou e não se perdeu nada para além de bens materiais. A cabeça foge-lhe novamente para o fogo de Pedrógão Grande e não tem dúvidas de que “não há consolo” para a perda de vidas humanas.

Não há nada que possamos fazer para tornar a situação menos dolorosa. Eu nem sei o que dizer, fiquei sem palavras só a sentir aquilo que sinto: um sentimento de grande tristeza mas já não há nada a fazer. Temos que pensar no agora: prevenir, prevenir, prevenir.”

Diana Chaves: “Nesse momento tive medo”

Diana Chaves tinha acabado de aterrar em Lisboa no sábado em que deflagraram as primeiras chamas em Pedrógão Grande. “Fui desde Ponte de Sor até Braga e aí apanhei um avião para Lisboa. Vinha a ouvir as notícias no rádio do táxi e perguntei ao taxista onde era”, conta ao Observador. A expressão muda e recorda o “medo” que já sentiu no Gerês, há um ano, quando a zona onde passava férias foi consumida pelas chamas.

LUÍS RIBEIRO/OBSERVADOR

“Fomos passar uma semana ao Gerês, e na altura [o parque] esteve a arder durante vários dias”, conta. “A casa onde estávamos era lá no alto e eu via o fogo nos vales e aquilo subia as encostas com uma rapidez”, recorda, acrescentando que o vento, que soprava pelas traseiras da casa e trazia as cinzas consigo, lhes dava a certeza de “que estava a arder atrás de nós também”.

Um rio e uma barragem separavam os dois focos de incêndio, com a casa “ali no meio”. “O César [Peixoto] saiu de carro [para ver o que se passava] e foi-nos garantido que estava tudo controlado”, lembra-se vivamente. “Tinha a minha filha Pilar comigo e nesse momento tive medo” confessa. “Senti mesmo muito medo, mal consegui dormir.”

Quando o dia chegou, a paisagem tinha mudado: “De manhã quando acordámos estava tudo queimado”, recorda Diana Chaves. Por isso nem consegue imaginar o que se sentiu em Pedrógão Grande. “Aquelas imagens são…”, e faltam-lhe as palavras.

É horrível. Aquelas imagens, aquela estrada, aquelas famílias. Foi literalmente um inferno.”

Diana Chaves associa-se a esta campanha para “alertar” mas não deixa de fazer um comentário: “Depois de uma tragédia destas parece aquele ditado — casa roubada, trancas na porta.”

Tony Carreira: “É um drama, sem dúvida”

Tony Carreira regressava de um concerto em França quando soube da situação no centro do país e, já em Portugal, foi estando a par da situação. “Ligava duas e três vezes por dia ao presidente da câmara de Pampilhosa da Serra, que é meu amigo pessoal, para ele me explicar como estavam as coisas.”

LUÍS RIBEIRO/OBSERVADOR

Sendo natural da região, “infelizmente toda a vida vi aquela zona a arder”, diz, acrescentando: “nada mudou”. “Claro que aquilo é um drama. Não há palavras… O que dizer? Ninguém merece aquilo. Ninguém.”

É de lamentar… Há debates na televisão em que falamos sobre o que se poderia fazer ou ter feito e, infelizmente, a conclusão a que eu chego ao fim de 50 e alguns anos é de que nada mudou e espero sinceramente que esta tragédia sirva para que as coisas mudem. É o mínimo que aquelas pessoas merecem.”

Com uma voz mais pesada, Tony Carreira confessa que não consegue arranjar palavras para descrever o que viu: “É um drama, sem dúvida”. Já deu dezenas, se não centenas de concertos no centro do país e pode estar prestes a marcar um concerto solidário. “Neste momento estamos a pensar em organizar um concerto para tentar ajudar também alguns casos”, revela ao Observador.

Fernanda Serrano: “Faz parte da minha responsabilidade civil, social e enquanto mãe”

Para Fernanda Serrano, as primeiras horas de incêndio em Pedrógão Grande já deixavam adivinhar “consequências trágicas mas não tão trágicas como as que depois viemos a conhecer”. A atriz e modelo considera muito importante “averiguar obviamente a gestão danosa que foi feita” mas diz que a prioridade deve ser “ajudar a população, pessoas que muitas delas não resgatam entes queridos”.

LUÍS RIBEIRO/OBSERVADOR

Espera que a situação sirva de alerta e é nesse sentido que se associou, pela primeira vez, à campanha “Portugal Sem Fogos Depende de Todos”. Também quer incutir aos filhos a preocupação com a preservação da floresta e do meio ambiente: “Claro que sim. Faz parte da minha responsabilidade civil, social e enquanto mãe estar aqui”.

Rui Unas: “Podia ter sido eu e a minha família”

Rui Unas diz ter ficado “aterrado” quando o número de vítimas mortais em Pedrógão Grande começou a subir. “Eu não sei se este exercício foi comum a outros portugueses, e pode ser um bocado egoísta, mas o que me fez ficar mesmo mal disposto e angustiado foi pensar que aquelas pessoas… Podia ter sido eu e a minha família a passear numa qualquer estrada nacional e a estar naquela situação.”

LUÍS RIBEIRO/OBSERVADOR

O que é que eu faria? Qual é o desespero de uma família que está num carro e não consegue fugir e se vê de repente numa armadilha mortal? Acho que foi isso que mexeu com as pessoas e fez com que se sensibilizassem. Podíamos ser todos nós.”

Apesar de, e “felizmente”, nunca se ter deparado com uma situação grave num incêndio, o humorista não esquece que “é importante atribuir responsabilidades sobre o que aconteceu” mas também fazer alguma auto-crítica: “Temos de parar e pensar que nós, enquanto cidadãos, temos a responsabilidade de avaliar o que é que estamos a fazer”.

Acredita que a campanha “vai ajudar” e que o facto de se concentrar, pela primeira vez, em figuras públicas — ao invés de se basear em imagens de incêndios passados — é uma questão de empatia.

É importante dar uma cara e se forem pessoas com quem os portugueses têm algum tipo de empatia, ajuda. Se eu puder contribuir um bocadinho para que esta campanha chegue mais longe, melhor.”

O dia está quase no fim e está filmada a campanha que praticamente todos os portugueses vão ver e ouvir durante o verão.

A campanha lançada pelo Movimento Eco em 2006 arrancou em abril mas a segunda parte agora filmada chega aos ecrãs já no início de julho e “concentra-se inteiramente no apelo à prevenção”, garante Miguel Lemos, vice-presidente da Associação Movimento Eco. Aos spots televisivos, a cargo do realizador Alexandre Montenegro, somam-se todas as outras plataformas, durante o verão. Sendo esta uma iniciativa apoiada pelo Ministério da Administração Interna (MAI), o secretário de Estado Jorge Gomes tinha confirmado presença nas filmagens que decorreram esta quinta-feira. Contudo, o debate parlamentar em curso impediu-o de comparecer.

editado por Ana Dias Ferreira

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fotografia de Luís Ribeiro.
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