É uma combinação de energia solar com energia hídrica. São 840 painéis fotovoltaicos, semelhantes aos que se usam para produzir energia solar em casa. Têm a singularidade de estarem instalados numa plataforma flutuante que ocupa 2.500 metros quadrados numa barragem para produção hidroelétrica.

Para já, ainda é apenas um projeto piloto, inédito na Europa, mas, se os resultados no primeiro ano de operação confirmarem as expetativas, a combinação das duas formas de produção de energia poderá ser reproduzida em outras albufeiras, admite o presidente da EDP Produção, Rui Teixeira.

A título de exemplo, se 5% da área das albufeiras exploradas pela EDP em Portugal fosse ocupado por painéis fotovoltaicos o país teria uma potência instalada de 1.000 megawatts. Uma das maiores centrais fotovoltaicas do país, na Amareleja, arrancou com 46 megawatts de capacidade. No entanto, Rui Teixeira assinala que os 1.000 megawatts servem apenas de indicador de referência para comparação e não um objetivo para o desenvolvimento futuro.

A central solar fotovoltaica flutuante do Alto Rabagão arrancou em novembro de 2016 e, até ao final de junho, ultrapassou as metas de produção em 6%, ainda que este sucesso possa ser até certo ponto ser explicado por um “ano atípico”, muito sol, vento e pouca chuva.

Mas qual é a vantagem de construir uma central fotovoltaica em cima de uma barragem? Para os engenheiros da especialidade, a combinação entre duas formas de energia renovável é “óbvia”. Por um lado, tira-se um maior partido do ciclo climatérico, as condições para produzir energia solar acontecem quando há menos produção hídrica. Por outro lado, a junção das duas tecnologias permite usar a mesma infraestrutura de ligação à rede de transporte que já está instalada para a barragem. Não tem de ser construída para o efeito, um processo que demora tempo e tem custos. Há ainda poupanças ao nível do terreno necessário para construir e, quando instalados na água, os painéis solares ocupam menos espaço porque exigem menos inclinação.

No entanto, aquele que pode ser o maior trunfo deste projeto inovador é o facto de o espelho de água onde está assente a plataforma permitir baixar a temperatura dos painéis fotovoltaicos. Esse arrefecimento aumenta o rendimento do equipamento que baixa quando a temperatura ambiente atinge valores elevados, quando a instalação está em terra.

A unidade que se encontra na albufeira do Alto Rabagão, uma barragem situada no concelho de Montalegre (norte de Portugal) no rio Rabagão (afluente do Cávado), conta com 0,2 megawatts de capacidade instalada e pode alcançar uma produção anual de 300 MW/hora (megawatts por hora), o suficiente para abastecer 100 famílias num ano. As tecnologias usadas não são inovadoras, mas a sua junção no mesmo projeto representa uma inovação a vários níveis, sublinhou Rui Teixeira, na medida em que permite:

  • Avaliar a possibilidade de combinação física entre a produção hídrica e a fotovoltaica num único ponto de entrega à rede elétrica;
  • Saber se é possível garantir as condições de produção com uma variação de 30 metros no nível da água ao longo do mesmo ano (as experiências internacionais feitas usaram reservatórios de água onde o plano é mais estável) e em zonas expostas a vento e a ondulação. Condições especialmente adversas que fazem do Alto Rabagão o cenário mais desafiador para testar o projeto;
  • Testar uma solução de fixação da amarração da plataforma ao leito da albufeira, 60 metros de profundidade, usando cabos para embarcações de recreio.

O projeto agora em teste representou um investimento de meio milhão de euros e os custos são, para já, mais elevados do que aqueles que estão associados a uma central fotovoltaica localizada em terra. Será necessário escala, uma capacidade instalada de 20 megawatts (MW) — qualquer coisa como 100 vezes a dimensão desta unidade — para tornar o investimento neste tipo de projeto interessante do ponto de vista comercial. Essa avaliação da viabilidade técnica e comercial será feita ao fim do primeiro do ano de produção desta unidade. A solução poderá, posteriormente, ser usada noutras barragens exploradas pela EDP em Portugal e há a possibilidade de o projeto ser levado para o Brasil onde a elétrica tem centrais hídricas.

Mas, para dar este salto, seria também necessárias mudanças a nível de regulamentação para a entrada no mesmo ponto da rede de duas formas de produção de energia, a hídrica e a solar. O projeto do Alto Rabagão está enquadrado na legislação que define as regras para pequenas unidades de produção cujas vendas à rede estão limitadas à quantidade do próprio consumo.

Apesar de estar a funcionar desde novembro, esta central só foi inaugurada oficialmente esta quarta-feira com a presença dos responsáveis da EDP pelo projeto, autoridades locais e o secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins. Numa altura em que a elétrica tem sido notícia por outras questões que não a aposta nas energias renováveis — investigação judicial aos contratos das centrais elétricas e o alegado interesse da espanhola Gas Natural — o presidente executivo da EDP, António Mexia, não esteve presente “por motivos de agenda”.

A jornalista viajou para o Alto Rabagão a convite da EDP