Escrevo-vos esta semana da Cidade do Cabo, onde estou a trabalho há mais de duas semanas, e começo por uma banalidade que aqui não é banal nenhuma. São dez da noite e a luz está acesa. Escrevo isto sem ironia, porque há três anos esta frase seria, neste país, uma declaração de sorte.

Em 2023, a África do Sul teve cortes programados de eletricidade em 332 dos 365 dias do ano. Não é gralha. Trezentos e trinta e dois. Chamavam-lhe load shedding, um eufemismo administrativo para dizer que se apagava o país por turnos, bairro a bairro, para a rede não colapsar de vez. Hospitais operavam a gerador. Restaurantes fechavam a meio do serviço. Uma produtora de vinho de Stellenbosch, a uma hora de onde escrevo, contava o gerador entre os seus ativos mais valiosos. Em fevereiro de 2023, o presidente Ramaphosa declarou estado de calamidade nacional e classificou a crise elétrica como ameaça existencial à economia e ao tecido social do país.

O último corte programado aconteceu a 16 de maio de 2025. Quando lerem estas linhas, a África do Sul terá completado perto de quinhentos dias consecutivos sem um único apagão. A disponibilidade das centrais subiu de 54,6% para 65,2%. As avarias não programadas caíram de 32,3% para 22,9%. Pouparam-se cerca de 27 mil milhões de rands em gasóleo de emergência em três anos, qualquer coisa como 1,3 mil milhões de euros queimados em geradores que deixaram de ser precisos. E a S&P subiu a notação financeira da Eskom, a elétrica estatal, pela primeira vez em uma década.

A pergunta que me trouxe a este texto é simples. Como é que um país que a Europa gosta de tratar com condescendência consegue, em três anos, o que continentes inteiros discutem há vinte?

A resposta é decepcionante, e é por isso que é boa. Não houve revolução tecnológica nenhuma. Houve manutenção.

Houve, em primeiro lugar, a coisa mais aborrecida do mundo, parar as centrais a horas para as arranjar, em vez de as empurrar até à avaria. Houve, depois, uma decisão pragmática sobre o nuclear, a extensão por vinte anos da vida dos dois reatores de Koeberg, aqui perto, que produzem energia barata e constante e que uma leitura mais militante teria mandado encerrar. E houve, sobretudo, uma terceira decisão, a mais difícil de todas, e que merece ser contada com cuidado porque é o coração deste artigo. A África do Sul adiou deliberadamente a sua transição energética.

Convém perceber porquê, e a história tem nome próprio, chama-se Komati.

A central de Komati funcionava desde 1961 e foi escolhida, em 2022, para ser a joia da coroa da transição justa sul-africana, o caso exemplar que o mundo inteiro visitaria. Encerraram-na e prometeram convertê-la num polo de renováveis, com apoio internacional e financiamento do Banco Mundial. Passaram-se quatro anos. A central está fechada, a conversão arrastou-se, a comunidade à volta empobreceu e antigos trabalhadores continuam sem emprego. O projeto que ia ser a referência global tornou-se o aviso global.

A frase que o presidente executivo da Eskom, Dan Marokane, usou para explicar a mudança de rumo devia ser pregada à porta de todos os ministérios europeus da energia. Estamos todos de acordo, disse ele, em que não devemos repetir Komati. E a partir daí a empresa fez o contrário do planeado, manteve em funcionamento dezassete unidades a carvão em cinco centrais que estavam marcadas para fechar, autorizadas agora a operar até 2030, e empurrou o encerramento de outras para algures entre 2035 e 2040.

E aqui entra uma peça que vejo daqui, literalmente. Quem sai da Cidade do Cabo para norte cruza-se com fileiras de turbinas eólicas a girar num vento que nesta ponta de África não dá tréguas. As províncias do Cabo são as mais ventosas do país, e a África do Sul tem já 34 parques eólicos em funcionamento, cerca de 3400 megawatts, quase todos de produtores privados. Ora, aqui está o pormenor que confirma tudo o que venho dizendo. Em 2022, no pior da crise, não se ligou à rede um único megawatt novo de eólica. Não por falta de vento, nem de investidores, nem de parques prontos. Faltava a rede. As linhas de transporte nas províncias do Cabo estavam saturadas e não tinham por onde escoar a energia. O vento estava lá, os moinhos estavam lá, faltava o cabo. A Eskom estima em cerca de 210 mil milhões de rands, uns 10 mil milhões de euros, o investimento em linhas de transporte de que precisa para ligar as renováveis já aprovadas. E foi só depois de estabilizar a base, com o carvão a funcionar e o nuclear prolongado, que começou a desbloquear ligações e a aprovar, para 2029, o maior parque eólico privado da história do país, 720 megawatts no Karoo. O vento é o futuro deste país. Mas não se pendura o futuro numa rede que não aguenta o presente.

Não estou a defender o carvão, e quero ser claro nisto porque é matéria onde a má-fé se instala depressa. O que aqui se decidiu não foi que o carvão é bom, foi que a ordem dos fatores altera profundamente o produto. Primeiro garante-se que há luz e que há rede. Depois faz-se a transição, ao ritmo a que a substituição estiver efetivamente construída, e não ao ritmo a que a conferência internacional aplaude. A África do Sul tentou a sequência inversa uma vez, em Komati, e pagou-a com uma comunidade inteira.

Agora olhem para a Europa, e digam-me qual das duas sequências reconhecem.

A Alemanha desligou os seus últimos reatores nucleares em abril de 2023, em plena crise energética, e passou a importar eletricidade, incluindo a nuclear francesa que tinha decidido não produzir. Um continente que encerrou capacidade instalada em nome de metas e depois descobriu que precisava de comprar a quem não fechou nada. Que hoje paga a eletricidade industrial duas a três vezes mais cara do que os Estados Unidos e a China, como já aqui escrevi, e que vê a sua indústria mudar de morada por causa disso. A Europa não fez o percurso de Komati numa central, fez o percurso de Komati num continente, e continua a chamar-lhe liderança climática.

E há um remate que fecha o círculo com uma coisa que escrevi há umas semanas. Com a rede estabilizada e, pela primeira vez em muitos anos, com capacidade excedentária, a Eskom anda agora a fazer uma coisa impensável em 2023, a namorar centros de dados. A Amazon, a Microsoft, a Google, a Equinix e a Teraco olham para a África do Sul como destino para a infraestrutura que vai treinar a inteligência artificial. É exatamente a mesma corrida que descrevi a propósito do Paraguai e de Itaipu. Muda a geografia, não muda o critério. Quem tem energia fiável e barata recebe o futuro. Quem tem discurso recebe visitas de estudo.

Falta a parte que qualquer texto honesto tem de incluir, e é o preço desta recuperação, que existe e não é pequeno.

Quem a paga é o consumidor sul-africano. As tarifas subiram 8,76% em abril, sobem 9,01% para os clientes municipais desde julho, e já está aprovada nova subida de 8,83% para o exercício seguinte, o que dá mais de 18% acumulados em dois anos. Há economistas locais a dizer, com razão, que esta trajetória é insustentável, que corrói o rendimento das famílias e encarece os custos da indústria. A frota a carvão é velha e cada adiamento torna o encerramento seguinte mais difícil de executar. E há quem chame a isto, sem contemplações, uma transição avariada, um país fechado no carvão. São críticas sérias e não as escondo, até porque confirmam a regra de que não existem almoços grátis, existem almoços com fatura diferida.

Mas reparem no que continua a ser verdade depois de descontado tudo isso. Este país pagou caro para voltar a ter luz. A Europa está a pagar caro para ter cada vez menos. A diferença entre as duas faturas não está no valor, está no que se comprou com ela.

Termino com a impressão pessoal, que é a razão de vos escrever daqui. Cheguei a este país a 4 de setembro preparado para o apagão, com a lanterna do telemóvel carregada e a expectativa de quem leu as notícias de 2023. Em mais de duas semanas, não foi precisa uma única vez. E enquanto trabalho, à noite, com a luz acesa e sem sobressalto, dou por mim a pensar numa ironia que me parece o resumo da década. Um país que muita gente na Europa não hesitaria em classificar como emergente, com todos os problemas que tem, e são muitos e graves, conseguiu resolver a pergunta mais elementar que um Estado deve responder aos seus cidadãos, se haverá luz amanhã. E fê-lo porque teve a humildade de admitir que se tinha enganado na ordem das coisas, e a coragem de voltar atrás.

É uma humildade que, olhando para o outro lado do mundo, faria muita falta a continentes bastante mais orgulhosos.