Se alguém se desse ao trabalho de traçar o perfil do típico cervejeiro nacional, é bem possível que o resultado final tivesse muito pouco a ver com os de António Carriço e Pedro Vieira, os responsáveis pela Lince. Não só lhes falta a barba viçosa e o habitual punhado de tatuagens, como podiam ser pais da maioria dos seus colegas de atividade: António tem 65 anos e o sócio Pedro não anda longe disso.

Mas a idade, neste caso, não é um posto. É um gosto, ajuda a enfrentar o cansaço. “Há momentos que são fisicamente exigentes, como quando temos de andar a carregar coisas de um lado para o outro”, exemplifica António, que fez a sua primeira cerveja há três anos. “Foi por gozo, eu gosto muito de cozinhar e este processo tem algumas semelhanças com a culinária. A diferença é que não se pode espreitar para dentro da panela”, conta a sorrir. Comprou um kit de produção caseira e transformou a sua garagem numa micro-cervejaria. O amigo Pedro Vieira, que fora seu colega na Vodafone, ainda que em áreas diferentes (António trabalhava no Marketing, Pedro era informático) juntou-se pouco depois. E do hobby fez-se uma marca.

António Carriço a provar que fazer cerveja pode ser fisicamente mais exigente do que se pensa. (foto: © Divulgação)

O armazém em Marvila — cada vez mais, o beer district lisboeta — onde hoje se produz a Lince foi alugado há dois anos e transformado em fábrica com ajuda dos colegas da Letra, cervejeira minhota de méritos reconhecidos. “Tivemos de mudar praticamente tudo — chão, paredes, etc, para termos boas condições de produção. Boa cerveja é 95% higiene”, explica António. A produção a sério começou há cerca de um ano, em junho de 2016, e a primeira cerveja da marca, do tipo Belgian Pale Ale — pouco amarga, com notas cítricas — saiu para o mercado em novembro. A ideia foi começar por uma “cerveja acessível, de que o apreciador comum possa gostar”, refere António.

A American IPA (Indian Pale Ale), lançada no mês passado, “já não é tão consensual”, reconhece o cervejeiro. Será uma boa cerveja para os adeptos de amargor intenso, com alguma fruta, cortesia dos lúpulos americanos. Ao mesmo tempo, a Lince lançou também uma Blonde Ale em versão 25cl, vulgo mini — um formato raro, porém não inédito no mundo da cerveja artesanal portuguesa. Que também vai de encontro à filosofia inicial da marca, como explica o responsável: “Esta sim, também é mais próxima do que a maioria dos consumidores de cerveja estão habituados. Apesar de ser uma Ale [n.r – cervejas de alta fermentação] é uma resposta mais direta às Lagers [n.r – cervejas de baixa fermentação].”

O plantel de cervejas da Lince, com a ‘mini’ Blonde Ale em destaque.
(foto: © Divulgação)

A marca conta, atualmente, com a colaboração de um mestre-cervejeiro, Kelenson Silva. O brasileiro Kelly, como é conhecido, é designer industrial de formação, profissão que o levou a trabalhar para diversas cervejeiras. E não só: “Comecei a fazer a minha cerveja em casa e desenhei o meu próprio equipamento, como as panelas.” No Brasil, o panorama da cerveja artesanal está muito mais desenvolvido, muito pelo contágio dos vizinhos norte-americanos. “Havia grandes eventos à volta da cerveja: num deles fazíamos cerveja na praça pública, ao vivo. Foi muito útil para aprender com os melhores”, conta.

Em 2012, Kelenson veio para Lisboa fazer um doutoramento. A sua ideia inicial era manter-se afastado deste mundo. Mas não conseguiu. “O Gonçalo Sant’Ana (Sant’Ana LX) convidou-me para fazer cerveja e comecei a envolver-me neste meio: mas nunca trabalhei, fui sempre um voluntário, chegava a meio do processo e fazia o que fosse preciso.” Numa festa na Letraria (o brewpub da Letra), acabou por ser recomendado aos responsáveis da Lince, com quem trabalha numa espécie de parceria — faz controlo de qualidade, afinação das receitas, ajuda na produção e na montagem dos fermentadores e em troca pode usar o espaço para desenvolver a sua própria marca de cerveja, a Enkarnada, que deverá lançar em breve.

Pedro Vieira juntou-se ao amigo e ex-colega António Carriço nesta aventura.
(foto: © Divulgação)

Até ao fim do ano deverá sair nova cerveja da Lince. “Falta-nos uma preta para juntar ao lote”, justifica António Carriço. Mas uma coisa de cada vez. “Gostamos de fazer as coisas com calma, levamos muito tempo a fazer cada cerveja”, admite. Antes disso, porém, ainda vão ter de aumentar a capacidade de produção da fábrica, que atualmente está nos 3000 litros por mês, mas deverá chegar aos 5000 a partir de agosto. Outro dos planos, este a mais médio-prazo, é abrir um brewpub, ou seja, um local onde se possa unir a produção ao consumo da cerveja, à semelhança do que fizeram, por exemplo, Duque ou Dois Corvos e do que fará também, muito em breve, a Musa. “Estamos a fazer um esforço para concretizar essa ideia, é muito importante para nós em três aspetos: escoar a cerveja, promover a marca e ter um contato direto com o público”, confirma António.

Atualmente, é possível provar Lince um pouco por todo o país. Ou quase. “Neste momento, estamos a tentar chegar à Madeira, que pode ser um mercado interessante”, aponta o fundador. Onde também querem chegar é ao ponto de contribuir para a preservação do lince-ibérico, o mesmo que dá o nome à marca, e que a torna, desta forma, socialmente responsável. Segundo António, “a ideia é doar parte das nossas receitas para esse objetivo”. Uma causa nobre, que merece um brinde. Ou vários.

Nome: Lince
Data: 2016
Site: cervejalince.pt
Pontos de venda: Diversas lojas, restaurantes e bares de Norte a Sul
Preço: O preço das cervejas é fixado pelos retalhistas mas a Lince sugere que a Blonde custe cerca de 2€ e a Belgian Pale Ale e a American IPA custem cerca de 3€.

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