Vem aí o Model 3 da Tesla, o automóvel eléctrico de que todos os amantes dos veículos amigos do ambiente falam e que é apontado como o melhor, mais refinado e mais veloz dos veículos familiares acessíveis movidos a electricidade. Ou, pelo menos, dos mais baratos, face às reais dimensões do mais pequeno dos modelos da marca americana, que na realidade não é tão pequeno como se poderia pensar.

Quem gosta do Model 3, está ansioso por encomendá-lo – ou já encomendou, fazendo um depósito de 1.000 dólares –, ainda que só o deva receber em 2018. Mas se os fãs da marca californiana abundam, não faltam os que criticam o modelo mais pequeno e barato do fabricante liderado por Elon Musk, acusando-o, por um lado, de não ter tanta autonomia como se pensava e, por outro, de o preço de 35.000 dólares ser enganador, uma vez que há demasiados extras que fazem disparar o valor final do carro.

Para que não restem dúvidas, vamos procurar responder aqui às perguntas mais pertinentes que se podem colocar, analisando as virtudes e os defeitos do Model 3, face à concorrência, a fim de determinar se é, ou não, uma escolha inteligente e racional. Isto para além de estimar quanto poderá vir a custar no mercado nacional, que equipamento inclui de série, qual o equipamento opcional que propõe e por que preço, e se o modelo mais em conta da Tesla vai, ou não, ter direito a uma versão desportiva. E não vamos fugir à questão que todos queremos ver respondida: quando chegará ao nosso mercado?

Como vai ser?

Aqui reside a primeira surpresa do modelo mais pequeno da Tesla que, afinal, não é tão pequeno como se pensava. É certo que o Model 3 desempenha na perfeição o papel de “irmão” mais pequeno do Model S, que anuncia um comprimento total de 4,98 metros de comprimento e possui 2,96 metros entre eixos, dimensões que permitem ao Model S rivalizar directamente com o BMW Série 5 ou o Mercedes Classe E. Excepto no peso, em que o carro americano, devido às baterias, pesa mais cerca de 500 kg.

A cerimónia de apresentação e entrega das primeiras unidades do Model 3, pela mão do CEO, Elon Musk

Mas o novo Model 3, com 4,69 metros de comprimento, na realidade não é um veículo da classe do Golf ou do Mégane, mas sim do segmento imediatamente superior, pois reivindica o mesmo comprimento dos Série 3 e Classe C, respectivamente da BMW e Mercedes. E, como se isso não bastasse, a sua distância entre eixos – e daqui depende o espaço no habitáculo, especialmente para as pernas – é de 2,87 metros, o que coloca o novo Model 3, neste capítulo, algures entre o Série 3 e o Série 5, permitindo antever um espaço generoso. Ainda em matéria de espaço, a traseira relativamente curta não impede este Tesla de oferecer uma mala com 425 litros, o que não sendo uma referência no segmento D, não deverá impedir uma utilização familiar.

A marca americana ainda não anunciou as características das baterias que vai utilizar nos dois Model 3 que já foram apresentados e que serão os primeiros a serem produzidos, respectivamente o Standard e o Long Range, mas sabe-se, isso sim, que o primeiro tem um peso de 1.610 kg e o segundo, com maior autonomia e potência, 1.730 kg. Bastante menos do que os 2.183 kg do Model S 75D, ou os 2.316 kg do mais potente e desportivo P100D.

Outro aspecto positivo do Model 3 é a sua perfeita distribuição de massas pelos dois eixos, com 47% a incidir sobre a frente e 53% sobre as rodas traseiras (48%-52% na versão Long Range), bem como o optimizado Cx, de apenas 0,23, o que lhe vai facultar a obtenção de uma velocidade máxima superior.

Por dentro, o Model 3 continua minimalista, solução estética que já nos habituámos a ver no S e no X, mas com bancos de dimensões generosas, painéis de portas esculpidos para dar conforto, mas fornecer a máxima largura útil interior. Mas o destaque vai para o tablier, de linhas muito clean e rectas (que tem a vantagem de reforçar a sensação de espaço a bordo), em que o tradicional painel de instrumentos em frente ao condutor desaparece, com todas as informações sobre o veículo, bem como o controlo das funções multimédia e dos sistemas de ajuda ao condutor – a começar pelo Autopilot 2, que vai estar disponível neste modelo – a ser realizado através do ecrã central táctil.

Quantas versões terá?

De momento, o Model 3 está a ser proposto com apenas duas versões, ambas com apenas tracção traseira, mas com níveis de potência distintos, bem como baterias com diferentes capacidades. Isto apesar de a marca ainda não ter divulgado os dados oficiais em relação a estes dois últimos aspectos.

Nos primeiros meses (até final de Novembro), a fábrica vai concentrar-se na versão que a marca acredita ser a mais procurada, isto para tentar satisfazer tão rapidamente quanto possível um maior número de clientes – e Musk deixou escapar durante a apresentação do novo modelo que, afinal, a fasquia das encomendas já ultrapassou as 500.000 de unidades, em vez das 400.000 de que se vinha a falar.

Este Model 3 possui o VIN 0001 e foi o primeiro a ser produzido pela Tesla

Os primeiros Model 3 a sair da linha vão ser Long Range (os tais que custam 44.000 dólares, cerca de 37.000€), com tracção traseira, 500 km de autonomia, 225 km/h de velocidade máxima e a capacidade de atingir 96,5 km/h em 5,1 segundos (cerca de 5,8 segundos de 0 a 100 km/h). Como os primeiros clientes fizeram questão em que os seus Model 3 viessem recheados de equipamento, a Tesla vai equipar os primeiros três Long Range com o Premium Upgrades Package (5.000 dólares, cerca de 4.200€), com os clientes a poderem escolher ainda o diâmetro das jantes, a cor exterior e o Autopilot.

A partir do final de Novembro, a Tesla iniciará a fabricação dos Model 3 em versão Standard, a que é proposta por 35.000 dólares (29.500€), numa fase em que já será esperada uma produção de 4.000 unidades por semana, valor que crescerá até às 5.000 até final de Dezembro, para depois continuar a aumentar em 2018. A versão Standard anuncia 354 km de autonomia, 209 km/h de velocidade máxima e uns expectáveis 6,0 segundos de 0 a 100 km/h (5,6 s de 0 a 96,5 km por hora).

Equipamento: tem ou não tem?

Tem. A lista é de tal forma extensa que as críticas que foram inicialmente apontadas ao Model 3, por altura da sua apresentação ao público aquando da entrega das primeiras unidades, não fazem qualquer sentido. É claro que há extras, como aliás acontece nos modelos de todas as marcas que perseguem um certo nível de luxo. Mas o equipamento que o Model 3 disponibiliza de origem não só inclui o que a maioria dos condutores faz questão em ter à sua disposição no seu automóvel, como bate folgadamente muitos dos seus concorrentes do mercado. E se analisarmos a oferta exclusivamente entre os automóveis eléctricos, então a vantagem do carro americano é avassaladora.

Se considerarmos o Model 3 Standard, a Tesla oferece o ecrã de 15” central, ar condicionado com duas zonas, sistema de navegação, rádio e internet streaming, conectividade Wi-Fi e LTE, sistema de entrada sem chave, controlos activados por voz, sistema de telefone sem mãos por Bluetooth, câmara de marcha-atrás, vidros eléctricos nas quatro portas, retrovisores exteriores eléctricos e tomadas de 12V. Fazem ainda parte do equipamento de série o alarme, iluminação por LED, ESP e Controlo de Tracção, monitorização da pressão de pneus, bem como seis airbags para quem ocupa os lugares da frente, a que se juntam mais dois laterais de cortina para quem vai atrás.

Como o Model 3 já vem preparado para o Autopilot e para a condução autónoma (níveis 3 e 4), todas as versões possuem oito câmaras de vídeo, radar frontal, 12 sensores ultra-sónicos, sistema destinado a evitar colisões e travagem de emergência. Isto além de uma garantia de quatro anos ou 80.500 km, com a bateria a estar protegida por oito anos ou 160.000 km (193.000 km na versão Long Range).

É melhor do que a concorrência?

É claramente melhor do que qualquer concorrente, tanto mais que não há automóveis eléctricos com 4,69 metros de comprimento, espaço para a família e este nível de potência, autonomia ou equipamento. E o curioso é que o seu preço (29.450€ e 37.600€ nos EUA) não é muito mais elevado do que os eléctricos que são mais vendidos em Portugal, respectivamente o Zoe e o Leaf, que apesar de serem mais pequenos, menos potentes e menos luxuosos, são propostos acima de 30.000€.

O novo Model 3 é o mais pequeno dos Tesla, mas não é um automóvel pequeno, pois apresenta as mesmas dimensões de um BMW Série 3 ou de um Mercedes Classe C

Depois, como acontece em marcas como a Audi, BMW e Mercedes, a Tesla propõe uma série de extras para optimizar o Model 3, a começar pela bateria de maiores dimensões, a Long Range, que obriga a um investimento adicional de 9.000 dólares. Mas os clientes podem ainda optar pela cor, em que o preto é de série e as restantes cinco metalizadas custam 1.000 dólares cada, como é habitual, ou pelas jantes, com o carro a vir de série com 18”, com as 19” do kit sport a obrigarem a um investimento adicional de 1.500 dólares. O que não é um mau valor, tendo em conta o preço das jantes desta dimensão e, sobretudo, os pneus.

Ainda no capítulo dos extras, o Autopilot está disponível por 5.000 dólares, e a condução autónoma (agora nível 2.5, mas a ser continuamente actualizada gratuitamente até ao nível 3 e depois o 4) mais 3.000 dólares.

O opcional mais caro surge num pacote, o pack Premium, que é proposto por 5.000 dólares e inclui bancos aquecidos, revestimento interior com melhores materiais, aplicações de madeira no tablier, regulação eléctrica nos assentos e direcção, sistema áudio mais potente e com subwoofer e um maior número de tweeters, e uma consola central coberta e sistema de carga para dois telemóveis.

Quanto à autonomia, fundamental num veículo movido a electricidade, o Model 3 anuncia 220 milhas/h e 310 milhas/h, respectivamente para as versões Standard e Long Range, o que equivale a cerca de 354 e 500 km. Não parece muito? Mas olhe que é. O problema é que estes valores são anunciados segundo o sistema de medição americano EPA, que é muito mais correcto e próximo da realidade do que o NEDC utilizado na Europa. Basta ver que, segundo a EPA, o Model S 75D anuncia 417 km de autonomia, valor que sobe para 490 km segundo o NEDC, o mesmo que permite ao Zoe com bateria de 40 kWh anunciar 400 km e 250 km ao Leaf com acumulador de 30 kWh. Até o Model S P100D, o mais possante, anuncia segundo a EPA 507 km de autonomia, contra 613 km no NEDC. Em média, e para este nível de potências, a diferença entre as medições segundo a EPA e NEDC têm diferenças entre 18 a 21%, o que introduzindo um valor médio permite esperar uma autonomia para o Model 3 de 420 km para a versão Standard e 600 km para a versão Long Range.

Vai ter direito a uma versão desportiva?

Segundo Elon Musk, também o Model 3 vai ter direito a exibir uma versão desportiva, que se denominará, muito provavelmente, Model 3 P90D, uma vez que, segundo o próprio CEO do construtor, a bateria de 100 kWh não cabe na plataforma do Model 3.

Mas seja como for, um veículo substancialmente mais leve do que o Model S, ainda que com um pouco menos de potência – não necessita dos 612 cv do S, distribuídos pelos dois motores, à frente e atrás –, e um pouco menos de capacidade de bateria – os tais 90 em vez de 100 kWh – seria sempre capaz de passar pelos 100 km/h ao fim de uns míseros 2,7 a 3,0 segundos (ou seja, melhor do que um Ferrari 488 GTB de 669 cv) e ficar-se pelos 250 km/h porque a isso está limitado electronicamente.

Ainda segundo o patrão da Tesla, o Model 3 desportivo, idealmente com o modo de condução Ludicrous, nunca entrará em produção antes de meados de 2018, numa fase em que já estará a ser produzido em velocidade de cruzeiro e a marca estará já a preparar o lançamento do futuro Model Y, o SUV mais pequeno e mais acessível do que o actual Model X.

Quando chega a Portugal e por quanto?

Nos últimos dias de Julho, a Tesla produziu apenas cerca de 50 Model 3, 20 para homologações – este é, sem dúvida o motivo pelo qual a marca ainda não se comprometeu com potências nem com capacidade de baterias, pois elas deverão ser as suficientes para garantir as promessas do fabricante – , e 30 para os primeiros clientes, que também eram funcionários, ou pessoas próximas da Tesla. A produção irá aumentar progressivamente até final do ano, até atingir as 5.00 unidades por semana em Dezembro, ainda muito pouco para satisfazer os 500.000 clientes que já pagaram 1.000 dólares e estão à espera do seu Model 3.

O interior é minimalista, mas está cheio de equipamento, mesmo nas versões mais acessíveis. Tem depois à disposição uma série de extras

Se não foi dos primeiros a colocar a encomenda, ou se a vai concretizar agora, não espere andar no seu novo Model 3 antes de meados de 2018. É claro que pode sempre arrepender-se e desistir da encomenda, requerendo a devolução da quantia avançada, mas segundo a Tesla, têm recebido mais encomendas do que desistências, pelo que o tempo de espera tenderá a aumentar e não diminuir.

Quando a preços, já todos sabemos que o Model 3 custa 35.000 e 44.000 dólares nos EUA. Para obtermos os valores na Europa, basta somar custos de transporte e alfândega, sendo que, como estamos perante pouca quantidade – comparadas com as deslocadas pela Audi, BMW ou Mercedes, por exemplo – os valores por unidade são mais elevados do que o habitual.

Se tivermos em conta que o Model S 75D é proposto nos EUA por 74.500 dólares (62.842€) e que depois é comercializado em Espanha por 86.000€ e em Portugal 87.850€ – essencialmente pela diferença no IVA, uma vez que o mesmo modelo cá paga 16.500€ só por este imposto, contra 15.000€ aqui ao lado – temos que o preço dá um salto próximo dos 25 mil euros. É de esperar uma diferença proporcional para o Model 3, limitada sempre pelo posicionamento que a marca para os mercados ibéricos, o que deverá atirar o preço do Model 3, em Portugal, para algures entre os 40.000€ e os 45.000€. A isto é forçoso retirar as ajudas do Estado que, até ver, se cifram nos 2.250€.

É certo que este raciocínio está longe de ser científico e só pode ser aplicado a automóveis eléctricos, pois sobre eles não pesam impostos não proporcionais, como os que dependem da cilindrada ou das emissões. E também porque nos EUA os automóveis pagam poucos ou nenhuns impostos, além do correspondente ao IVA local.

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