Paulo Rangel ou Luís Montenegro: dos dois só um deverá avançar com uma candidatura à liderança do PSD. Na terça-feira, dia de Conselho Nacional, tudo se parecia desenhar para que o eurodeputado fosse o candidato da frente passista contra Rui Rio, mas o ex-líder da bancada parlamentar decidiu posicionar-se esta quarta-feira, como todos têm feito: admitindo a “ponderação”. Duas coisas parecem, para já, altamente prováveis: avançar só um e resolver a questão até domingo. A ideia é não dividir a militância do passismo e, dessa forma, garantir que Rui Rio não chega a líder.

Luís Montenegro e Paulo Rangel vão aproveitar o feriado desta quinta-feira para refletir e até ao fim-de-semana e devem conversar para decidirem qual dos dois se lança na corrida. Não é que estejam alinhados na estratégia, mas ambos sabem que têm mais hipóteses de vencer o partido se só um deles for até ao fim. Montenegro foi aluno de Paulo Rangel em Direito, mas os dois não têm propriamente uma relação próxima. Um foi uma figura do partido durante quatro anos e meio no Parlamento nacional, outro já tinha sido líder parlamentar, candidato à liderança e ganhou uma eleição para o Parlamento Europeu (em 2009).

Na segunda-feira, enquanto Rio juntava as tropas em Azeitão, tanto Montenegro como Rangel foram recebendo diversos telefonemas de incentivo a avançar. A perceção geral, incluindo a de Passos Coelho, era de que Luís Montenegro não quereria, para já, avançar. A mesma perceção — entre conselheiros, dirigentes e aparelhistas do partido — manteve-se no dia (na noite e, até na madrugada) do Conselho Nacional. É por isso que, na terça-feira, Passos faz um elogio claro a Paulo Rangel, enaltecendo o seu trabalho em Bruxelas, sem que a isso fosse obrigado nesse discurso de saída.

Na mesma intervenção, Passos lembrou que o PSD é “um grande partido”, tanto “aqui”, onde conta com Hugo Soares na liderança da bancada parlamentar, como “na Europa”, onde o partido conta com Paulo Rangel. Ao potencial candidato à sua sucessão, o líder referiu-se da seguinte forma: “Temos o Paulo Rangel aqui esta noite, que é o líder do nosso grupo parlamentar em Estrasburgo e é em simultâneo vice presidente do PPE, é um rosto importante da afirmação externa do nosso partido”.

As indicações na noite de terça-feira seriam todas no sentido de que Luís Montenegro estaria fora da corrida. Neste particular, até começou a circular, com graça entre os conselheiros, a intervenção da histórica militante Virgínia Estorninho que se dirigiu a Montenegro e disse: “Avança Luís, que eu estou contigo”. De Passos, nem uma palavra sobre Montenegro. Não que o líder cessante desgoste da solução Montenegro (assim como parece gostar da solução Rangel), mas porque estava convencido de que o antigo líder da bancada não estaria disposto a concorrer.

Rangel foi enchendo o balão ao longo da noite. Já teria até algumas distritais posicionadas para lhe darem o apoio. Mais: depois do líder o ter mencionado, também o vice-presidente do PSD Marco António Costa — que tem uma forte influência na maior distrital do partido, o Porto — elogiou-o. Havia dúvidas se o apoio do homem forte do aparelho cairia para o lado de Rio ou de Rangel, mas a dúvida acabou desfeita, com Marco António a enaltecer perante os conselheiros a “importância que Paulo Rangel teve para o partido quando, em 2014, aceitou ser cabeça de lista às Europeias”, num “combate importantíssimo” que enfraqueceu o PS, “provocou a saída do seu líder” e ajudou o PSD a ganhar força para vencer as legislativas.

Na manhã de quarta-feira, porém, o PSD acordou diferente. É certo que, em declarações à TSF, o ex-líder da distrital de Lisboa do PSD, Miguel Pinto Luz, classificou Paulo Rangel como “um homem que já deu a cara pelo partido em diversas frentes”. Se até o homem que Relvas apontou para líder (da linha Carreiras em Lisboa) elogiava Rangel parecia tudo encaminhar-se para um apoio a Rangel. Mas, na mesma rádio, Hugo Soares não abria o jogo e, à hora de almoço, Montenegro revelava que estava a ponderar se seria candidato.

O ex-líder da bancada disse à TSF que é um dos militantes que “tem a responsabilidade de fazer a ponderação, a avaliação do momento”, não excluindo a hipótese de uma candidatura à liderança do PSD. No espaço de comentário “Almoços Grátis” — que partilha com Carlos César na TSF –, Luís Montenegro garantiu que a sua decisão de avançar “não depende de ninguém“, mas apenas da “avaliação que fizer”. Luís Montenegro disse ainda que estava num “momento, de ouvir muitas pessoas, de ter todos os indicadores, para tomar uma boa opção. Para ter uma liderança forte. Para reerguer este partido“. O ex-líder parlamentar diz estar “muito tranquilo a fazer esse exercício”, até porque “passaram ainda poucas horas” da decisão do atual líder de se recandidatar. Logo, “qualquer militante deve encarar com toda a serenidade” este momento.

Ora, para que as televisões (e as outras rádios) não ficassem limitadas ao som da TSF, Luís Montenegro prestou declarações à entrada para o debate quinzenal duas horas depois a reiterar o que já tinha dito: que estava a ponderar com “liberdade total“, embora tivesse garantido que não estava a “contar apoios nem espingardas”.

Terá Luís Montenegro mudado de opinião durante a noite ou sempre foi sua intenção ponderar a candidatura a líder? O antigo líder da bancada terá mais apoio da parte do aparelho afeta a Miguel Relvas. A referência de Marco António Costa a Paulo Rangel também não agradou às tropas de Luís Montenegro, que não morrem de amores pelo vice-presidente de Passos Coelho. Há, no entanto, um objetivo que une as duas fações: que Rui Rio seja vencido nas próximas eleições diretas do partido.