Em junho de 2016, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia assinaram um acordo de cessar-fogo com o governo da Colômbia. Mas antes da paz, Vanessa fugiu.

As FARC foram criadas em 1964 e são responsáveis por 12% das mortes de civis durante o conflito armado colombiano. O El Mundo conta a história de Vanessa, uma de muitas crianças que foram integradas na organização militar. Agora com 23 anos, tinha apenas nove quando se tornou guerrilheira. Este mês decidiu começar a colaborar com a Corporación Rosa Blanca, uma associação que junta ex-guerrilheiras vítimas de abusos sexuais e abortos forçados e tem como objetivo denunciar um dos mais importantes comandantes das FARC.

Oscar Montero – ou “El Paisa”, como era conhecido dentro das milícias – foi o primeiro homem que violou Vanessa. “Quando tinha onze anos, tocou-me no rabo, eu chateei-me e pedi-lhe para me respeitar. Agarrou-me à força, beijou-me e foi aí que começou tudo”, conta Vanessa ao El Mundo. Violou-a repetidamente até aos quinze anos e foi dele que Vanessa engravidou pela primeira vez. Quando recusou abortar, envenenaram-na através da comida.

Se não queres a bem, queres a mal, mas tens de estar comigo antes de estar com outro homem”, disse “El Paisa”, recordado pela antiga guerrilheira.

Nas FARC, era comum “passar” as raparigas a outros homens de confiança quando os comandantes já não as queriam. “El Paisa” passou Vanessa a “Edwin”, outro comandante que abusou dela e de quem a antiga guerrilheira acabou por voltar a engravidar. O desfecho foi o mesmo: recusou abortar e foi envenenada.

Mas depois de dois abortos dolorosos – de homens de quem não gostava e cujos filhos eram frutos de violações – o terceiro foi ainda mais traumatizante. Vanessa apaixonou-se por um comandante. Com “Lulo”, fez planos de uma vida futura, de construir uma família, de sair das FARC e ter um dia-a-dia normal. Engravidou. E como já estava grávida de quatro meses, os quadros superiores chamaram um médico para fazer a intervenção.

Perguntou-me se estava preparada. Chorei e ele também chorou. Depois disse: ‘não estou para isto, que Deus me perdoe'”, recorda Vanessa, que nas FARC era conhecida como “Edna”.

Deixaram-na ver o feto. Vanessa colocou-o num frasco com álcool e guardou-o. Conversava com ele todas as noites e lamentava não ter nascido. “O meu sonho era tê-lo e não me deixaram. Assim morto queria tê-lo na mesma”, explica Vanessa.