A Colômbia vive dias de instabilidade e violência. O ressurgimento das tensões entre dissidentes das extintas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e guerrilheiros do Exército de Libertação Nacional (ELN) originou uma onde de violência que já provocou pelo menos 100 mortos e milhares de deslocados, em seis dias de confrontos.
O principal foco de violência é a região de Catatumbo, no nordeste do país, junto à fronteira com a Venezuela. Em declarações a uma rádio local, o governador afirmou que “desde quinta-feira, os rebeldes do ELN e os dissidentes das FARC lutam em Catatumbo”. Os confrontos resultam de “uma disputa territorial” entre o ELN e fações dissidentes das ex-FARC pelo controlo da produção de cocaína na região. William Villamizar adianta que Catatumbo “alberga mais de 52 mil hectares de coca [planta a partir da qual se produz cocaína] plantada”.
Mas a violência alastra-se a outras regiões do país. Aos 80 mortos confirmados até segunda-feira, somam-se mais 20, de acordo com o ministro da Defesa colombiano, citado num comunicado do seu ministério. Em causa estão novos confrontos em Guaviare, uma localidade situada no interior da Amazónia, no sul da Colômbia.
Pelo menos 80 pessoas morrem na Colômbia após suspensão das negociações de paz
Segundo a Associated Press, o ELN, que tem cerca de 6.000 combatentes, realizou ataques indiscriminados contra elementos de grupos rivais, visando também civis acusados de serem colaboradores dos dissidentes das FARC e líderes comunitários. Há relatos de pessoas expulsas das próprias habitações, tiroteios e bebés raptados. Citado pela AP, o líder do ELN, Antonio García, garantiu que a sua organização não pretende atacar civis, mas persegue ex-combatentes rebeldes que, alega, atualmente colaboram com as ex-FARC.
Para fazer face à situação, o Presidente colombiano, Gustavo Petro, anunciou que vai decretar o estado de emergência no país, numa mensagem na rede social X. Para entrar em vigor, a medida precisa ainda de ser aprovada pelos membros do governo e pelo Tribunal Constitucional. Por isso, na mensagem, Petro pediu o “apoio” do poder judicial.
Habla de los otros pero se refiere a sí mismo. Han perdido la inteligencia. La revolución solo se puede hacer con el pueblo y sin violencia. Es la paz la bandera revolucionaria porque es la bandera de la vida.
Se declara el estado de conmoción interior y el estado se emergencia…
— Gustavo Petro (@petrogustavo) January 20, 2025
Ainda assim, a decisão não é unânime. O porta-voz do partido da oposição Cambio Radical defendeu que o estado de emergência “não resolve o que está a acontecer em Catatumbo e noutros territórios do país”. Carlos Fernando Motoa, citado pelo jornal colombiano El País, pediu a “perseguição dos criminosos do ELN e de outras organizações à margem da lei”.
Segundo o El País, Gustavo Petro, desde o início do seu mandato presidencial em 2022, tinha vindo a promover negociações de paz entre os grupos armados. Agora, o aumento da tensão e violência provocou uma mudança na atitude do chefe de Estado. Numa outra publicação no X, Petro, que em jovem pertenceu a um grupo guerrilheiro, apelidou o ELN de “máfia” e afirmou que “o ELN escolheu o caminho da guerra e vai ter guerra”.
O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários na Colômbia, citado pela Associated Press, revela que há registo de 18.300 pessoas deslocadas na sequência dos combates, que ou têm sido encaminhadas para abrigos e hotéis em zonas seguras, como Tibu, Ocaña e Cúcuta, ou abandonam o país rumo à vizinha Venezuela. As autoridades alertam para uma iminente crise humanitária na sequência destes confrontos, que já são considerados os mais violentos da história recente do país.
Recorde-se que o acordo de paz assinado em 2016 entre o governo colombiano e as ex-Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia colocou ponto final numa guerra civil que se estendeu por mais de 50 anos e, de acordo com a AP, levou à desmobilização de 11.000 combatentes, reduzindo a violência no país. No entanto, deu origem a um “vazio de poder” em algumas zonas rurais que outros grupos de guerrilheiros tentaram ocupar, promovendo conflitos pelo controlo do território e da produção de cocaína.
Governo colombiano e FARC chegam a acordo de paz após quatro anos de negociações
A Colômbia é o maior produtor de cocaína do mundo e cerca de 15% da produção está situada ao longo da fronteira com a Venezuela.