No início da semana, escrevemos aqui no Observador que a dupla maravilha do curling, que representou os Atletas Olímpicos da Rússia, podia ficar sem a medalha de bronze pelo controlo anti-doping positivo de Alexander Krushelnitskiy. E vai mesmo ficar. Mas o que poderia ser uma notícia que ficaria por ali (apesar de tratar-se de um atleta russo, o que traz outro “peso”) está a tornar-se numa verdadeira bola de neve de escândalos que envolvem de forma indireta outros países e até de um boicote que foi anunciado este fim de semana.

A meio da semana, após a confirmação do uso de meldonium por parte do jogador russo de curling (a mesma substância que motivou o longo castigo à tenista Maria Sharapova, por exemplo), a Time tinha um artigo que parecia adivinhar o que estaria para vir: “Um escândalo olímpico no curling — sim, curling — que pode ter grandes consequências para a Rússia”. Aí, entre outros argumentos, explicava como era estranho haver um caso destes numa modalidade onde não é necessária uma força extra nem existe o problema da resistência.

“O uso de uma única dose de meldonium é estúpido. As coisas não funcionam assim, as substâncias precisam do seu tempo para chegarem ao coração do músculo. Vivemos na Aldeia Olímpica, todos os dias há gente a entrar nos nossos quartos, umas limparem, outras a trocarem as toalhas. Trocar uma garrafa de água boa por uma contaminada com uma substância é fácil”, defendeu o treinador russo de curling, Sergey Belanov, citado pelo The Guardian, antes de entrar numa inusitada comparação entre este caso e… os ataques químicos na Síria.

Krushelnitskiy e a mulher, Anastasia Bryzgalova, ficaram sem o bronze oficialmente esta sexta-feira; 24 horas depois, outro caso de doping num dos 168 russos autorizados a competir pelos Atletas Olímpicos da Rússia — Nadezhda Sergeeva, que fazia dupla com Anastasia Kocherzhova no bobsled (terminaram na 12.ª posição, que entretanto foi anulada), acusou positivo num controlo feito no passado domingo, depois de um teste limpo realizado cinco dias antes também em PyeongChang. Como explica a Reuters, a atleta de 30 anos terá acusado uma substância proibida que está normalmente associada a pessoas com problemas de coração (trimetazidina).

Sergeeva já teve antes complicações cardíacas mas, de acordo com a Federação Russa de Bobsled, aceitou sem contestar a suspensão preventiva após o teste positivo. E agora tem uma outra imagem contra si: como recorda o Mundo Deportivo, há uns meses, no pico da polémica a propósito da participação ou não de atletas do país nos Jogos Olímpicos de Inverno (grande parte acabou por ter autorização para participar pela equipa dos Atletas Olímpicos da Rússia), a atleta surgiu com uma camisola que dizia “Eu não tomo doping“.

Tudo acontece numa altura em que a BBC conseguiu a primeira entrevista de transmissão mundial com Grigory Rodchenkov, um químico com fama de louco de 59 anos que se encontra agora num programa de proteção de testemunhas dos Estados Unidos, depois de ter sido o “Garganta Funda” que denunciou um enorme esquema de doping no desporto da Rússia quando liderava o Centro Anti-Doping de Moscovo (e com a alegada chancela do próprio governo do país). Uma entrevista de cara tapada e óculos escuros que levanta outros problemas e suspeitas, nomeadamente a possibilidade de haver substâncias proibidas também na Grã-Bretanha.

“Onde estaria hoje se não tivesse fugido da Rússia? No túmulo, claro. Estaria morto, é fácil. Mas tenho provas de que ainda estou em perigo e não quero subestimar essa ameaça. Processo contra mim das atletas de biatlo russas? Ainda há muita coisa por dizer e que continua a ser feita, acho que se vão arrepender de me processarem…”, destacou num dos excertos da conversa já conhecidos. “O Comité Olímpico Internacional (COI) tem um dos momentos mais importantes da história ao tomar uma decisão em relação à Rússia. Permitir que desfilassem na cerimónia de encerramento com a bandeira seria a pior escolha de todas”, acrescentou, ainda a propósito dos Jogos Olímpicos de Inverno e da possibilidade de poder haver uma bandeira russa no desfile final da competição.

“O COI deveria mostrar como são consistentes em relação à luta contra o doping. As autoridades russas não fizeram nenhuma mudança. Dizem que sou um mentiroso, humilham todas as pessoas que fazem denúncias, dão informações falsas no tribunal… As pessoas percebem o que o COI está a fazer: falsificar a luta contra o doping. Os Jogos estão a atravessar uma enorme crise e são necessárias reformas. Há pessoas incorrigíveis que vão continuar, em qualquer circunstância, a fazer contrabando, a vender e a usar doping. Esses casos deveriam ser todos criminalizados. E muitas federações internacionais escondem testes positivos”, acrescentou.

“A minha mensagem para todos os atletas é que peço desculpa pela carreira e biografia deles ter sido quebrada por este esquema de mentira sistemático e generalizado. E peço especialmente desculpa por ter contribuído para isso com a utilização errada dos meus conhecimentos. É por isso que estou aqui agora sentado a dizer a verdade e o que aconteceu naquela altura. Desporto britânico? Honestamente? Sim… Não digo que seja agora durante os Jogos Olímpicos de Inverno, mas tenho extremas suspeitas de casos no desporto britânico…”, admitiu.

Entretanto, para complicar ainda mais esta intriga, a Federação de Biatlo dos Estados Unidos anunciou também este sábado que, no seguimentos dos dois testes anti-doping na equipa dos Atletas Unidos da Rússia, a formação americana vai boicotar a final da Taça do Mundo da modalidade que passou para Tiumen, daqui a um mês, afirmando mesmo que os seus atletas costumam ser ameaçados quando se deslocam ao país.

“Essa decisão é completamente inaceitável. Em nome do desporto limpo e da nossa própria segurança física, não podemos participar de boa consciência na prova. A mensagem dos nossos atletas foi clara: com a Rússia ainda fora da conformidade em relação ao Código da Agência Mundial Anti-Doping (WADA), com as ameaças físicas aos atletas quando viajam para a Rússia, com seis atletas sancionados pela Federação Internacional de Biatlo e pelo Comité Olímpico Internacional desde os Jogos de 2014 e mais um caso à espera de decisão, organizar a final da Taça do Mundo é uma chocante mensagem de indiferença contra o doping para o mundo”, destacou o comunicado assinado pelo presidente da Federação de Biatlo dos Estados Unidos, divulgado no USA Today.

“Apoiamos totalmente o direito dos atletas russos limpos a competir e partilhamos a opinião que a Rússia deve ser eleita para organizar Taças do Mundo no futuro, mas apenas quando mostrarem um compromisso significativo para retificar a cultura de doping que existe por lá e foi demonstrado”, acrescentou.