O discurso de Assunção Cristas comentado nas entrelinhas

A ambição de ser a primeira da direita e a desvalorização de Rio. O "encosto das esquerdas" e a necessidade de um consultor em soundbytes. A leitura do discurso por Vítor Matos e Miguel Carrapatoso

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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O significado da homenagem a Adriano Moreira. A ambição sem impossíveis, que revela uma enorme desvalorização do PSD de Rui Rio. A democracia-cristã e as saudades de Paulo Portas no que se refere a frases feitas… mas mais bem feitas. Eis uma leitura de excertos do discurso de Assunção Cristas na tarde deste sábado no 27º Congresso do CDS.

O que Cristas disse está a itálico. A análise e os comentários estão a amarelo.

Permitam-me cumprimentar de forma particular o nosso antigo Presidente, o Professor Adriano Moreira, hoje homenageado e nele também os anteriores Presidentes que fazem agora parte do nosso Senado, Paulo Portas e José Ribeiro e Castro. Todos deram o seu melhor contributo para Portugal através do CDS, contributo que não se esgotou nesse tempo, antes permanece fecundo nas novas gerações do CDS e da Juventude Popular.

Assunção Cristas começou a sua intervenção no 27º Congresso do CDS por saudar Paulo Portas, o seu mentor. Mas também José Ribeiro e Castro, o rival de Portas -- que lhe intercalou as lideranças -- e que não veio ao congresso por achar que todos os ex-presidentes do partido deviam ter sido convidados, incluindo Manuel Monteiro e Freitas do Amaral. Adriano Moreira é um caso à parte. Apesar de ter liderado o partido com o pior resultado de sempre do CDS, a verdade é que Adriano Moreira apanhou Cavaco Silva e o PSD no auge. O antigo presidente do partido, rosto de um CDS conservador e democrata-cristão, chegou a criticar publicamente o Governo PSD/CDS, de que fazia parte Assunção Cristas e muitos dos atuais dirigentes do partido, pela falta de sensibilidade social. Mas serviu de caução à democracia-cristã de que precisava a líder do partido. Em grande medida, esvaziou os argumentos dos (poucos) opositores internos da direção que criticaram o pragmatismo de Cristas.

Nestes dois anos não estivemos parados um minuto: Grupo Parlamentar na apresentação de iniciativas, muitas agrupadas em “pacotes” legislativos; Gabinete de Estudos a preparar essas iniciativas, a organizar colóquios e reuniões fundamentais para termos boas propostas; estruturas locais na preparação dos dias do distrito que me levaram mais do que uma vez a vários pontos dos nossos distritos e regiões autónomas dos Açores e da Madeira, em contato direto com o tecido económico e social e os nossos militantes.

Há dois anos, Assunção Cristas foi eleita para suceder a Paulo Portas, ultrapassando outros candidatos naturais, como Nuno Melo, Pedro Mota Soares e João Almeida, por exemplo. As expectativas não eram as melhores: o CDS tinha acabado de ser afastado do poder e Paulo Portas, o homem que liderou o partido durante 16 anos, deixava a direção do partido. Cristas seria, em teoria, uma líder de transição. Mas o protagonismo que ganhou no Parlamento, alimentado em grande medida pela crise do PSD, capultou-a para outro plano: em muitos momentos, o CDS foi o partido que liderou a oposição ao Governo. E foi esse balanço que Cristas fez questão de fazer, lembrando as muitas propostas apresentadas e as batalhas travadas com a esquerda. Hoje, cumprido com distinção o teste de Lisboa, Cristas é uma líder incontestada. Se há dois anos foi o Congresso de eleição de Cristas, este é o Congresso da confirmação.

Fazemos oposição construtiva, fazemos política positiva. Nessa altura, como hoje, estivemos e estamos um passo à frente. Um passo à frente na apresentação concreta de soluções para as mais diversas áreas das políticas públicas, muitas vezes um passo à frente no próprio Governo, como na questão dos metadados ou da supervisão bancária. Liderámos a agenda em muitos domínios.

Em duas frases, Cristas respondeu aos críticos e atingiu o PSD. A farpa espetada nos sociais-democratas tanto serve para a liderança de Passos Coelho como para a de Rui Rio. Uma semana depois de o novo líder do PSD ser entronizado -- que tem um discurso forte em relação à justiça -- o PSD apresentou um pacote para uma reforma da justiça. A líder do CDS é acusada de fazer uma oposição ao Governo socialista de caso em caso, de polémica em polémica, presa à espuma dos dias. A esses, a líder do CDS elencou as propostas mais mediáticas para provar que o partido nunca deixou de apresentar alternativas. Mesmo quando o PSD não apresentava propostas -- vide Orçamento do Estado para 2016.

Que não haja qualquer dúvida: o meu CDS é o CDS que tem a democracia-cristã como eixo da roda e se assume como a casa do centro e da direita das liberdades, juntando conservadores e liberais. Esse é o meu CDS.

Foi a primeira resposta direta de Cristas aos ataques de que foi alvo sobre o suposto esvaziamento ideológico do CDS em função de um pragmatismo que dê mais votos. Num momento em que é acusada por alguns críticos de estar a apagar a matriz democrata-cristã do partido, a líder do CDS fez questão de parafrasear Adriano Moreira, o líder que mais personificou essa inspiração doutrinária. Só se esqueceu de que, durante os anos da troika, o partido não foi assim tão democrata-cristão, como aliás o próprio Adriano Moreira chegou a sublinhar.

Somos o partido alternativo ao socialismo que nos governou anos demais, nos endividou anos demais, nos empurrou para a ajuda externa vezes demais. Queremos ser o primeiro partido no espaço do centro e da direita, sem hesitações, sem complexos, com 40 anos de história atrás de nós a inspirar os muitos anos temos pela frente.

Para o CDS ser “o primeiro partido no espaço do centro e da direita”, é preciso que o PSD passe a ser o segundo partido no espaço no centro e na direita. É uma ambição bonita. Mas olhemos para a realidade. O melhor resultado do CDS foi de 16% nos idos de 1976 -- com 876 mil votos. Em 2011, Paulo Portas obteve um excelente resultado com 11,7% e 654 mil votos. Só para comparar, o PSD de Pedro Passos Coelho teve 38,6% em 2011 e 2,1 milhões de votos. Uma enormidade ao pé dos scores centristas. Quando o PSD teve um péssimo resultado com Pedro Santana Lopes, em 2005 -- em que recebeu apenas 28,7% da escolha dos eleitores --, o sociais-democratas somaram 1,6 milhões de votos. Ou seja, um dos piores resultados do PSD é o dobro dos votos do melhor resultado do CDS. Por aqui se vê: ou Cristas é demasiado otimista, ou está a fazer análise política, ou está a dar um sinal. No fundo, está a fazer uma aposta numa sala de jogo tendo em conta as cartas que já pode ver na mesa: acha que Rui Rio é um líder fraco que vai deixar fugir muitos votos do PSD para a sua direita. O risco que corre é que pode estar a desvalorizá-lo e assim a dar o flanco.

Sou pragmática? Sou. Quero chegar a todos, quero que me entendam. Falo muito de propostas? Falo. É assim que as pessoas começam a perceber que concordam connosco. Quero falar numa linguagem que toda a gente entenda? Quero. Ou falamos uma linguagem para que todos percebam ou perderemos a ligação. Sou uma pessoa de ação, de concretização. Se temos um programa, é para o aplicar. Se temos valores, é para os concretizarmos.

Primeiro, trata-se de uma justificação para uma certa simplificação da linguagem e falta de sofisticação propositada da mensagem. Isto acontece porque Cristas quer chegar às classes menos letradas, sobretudo aos mais pobres que ainda votam PSD. Segundo, invocar o pragmatismo é uma resposta às críticas pela falta de ideologia: está a promover uma abertura para chegar a todos, mesmo que lhe apontem falta de densidade ideológica e de empenho na defesa de causas tradicionalmente defendidas pelo CDS -- a revogação da lei do aborto, do casamento homossexual ou da adoção por casais do mesmo género, por exemplo. Cristas entende que, para crescer, não pode acantonar o partido à direita tradicional e de que nada vale proclamar valores se não existir poder para os defender e colocar em prática. “Meus amigos, estamos na política por todos”, recordou a líder do CDS.

Não esqueço nem o nosso programa nem a nossa história, mas não me peçam, por um segundo que seja, que me perca em discussões e esqueça de quem precisa de ajuda, de orientação, de apoio, para subir na vida, para darem melhor futuro aos nossos filhos. Porque no dia que nos esquecermos disso, deixaremos de ser um partido, trairemos a memória de Adelino Amaro da Costa e não honraremos a presença de Adriano Moreira.

Assunção Cristas não podia ser mais clara: não vai perder tempo com discussões sobre ideologia. E o seu mandato será avaliado pelos resultados nas urnas -- é nisso que a líder do CDS aposta todas as fichas. Mais uma vez, investe no pragmatismo e no centro político.

Continuaremos a ser essa oposição firme, que exige que todos assumam as suas responsabilidades. É por isso que, digo-vos em primeira mão, iremos mais uma vez levar a votos o Programa de Estabilidade, o Programa de Estabilidade que enforma o próximo Orçamento de Estado, o Orçamento do ano eleitoral de 2019. Para que fique absolutamente claro que as esquerdas estão bem unidas.

Foi a primeira notícia avançada por Cristas ao longo da sua intervenção: o CDS vai apresentar uma resolução no Parlamento para forçar Bloco de Esquerda e PCP a clarificarem o sentido de voto em relação ao Programa de Estabilidade, o documento estratégico que o Governo envia para Bruxelas com as principais orientações políticas. Não é a primeira vez que o faz, com o objetivo de criar um embaraço à esquerda. Mas o grande alvo aqui por revelar não é tanto a esquerda. Rui Rio que se prepare. É o primeiro teste ao PSD. Cristas vai ver se o novo líder social-democrata vota ou não ao lado dos socialistas. É uma jogada de antecipação com requintes portistas-maquiavelistas.

Mas não basta fazer oposição construtiva. Não tenhamos ilusões e todos nesta sala o sabemos muito bem. Em política o trabalho avalia-se em resultados eleitorais, o sucesso mede-se em votos.

Cuidado. A líder do CDS está a elevar a fasquia e a entrar no vermelho (credo, não é vermelho, é encarnado!). Se o sucesso se mede em votos, se Cristas quer ser a primeira, fica aqui este registo para futuro: é muito bonito mostrar ambição, mas quando se aumentam as expetativas torna-se mais fácil identificar derrotas ou classificar resultados como “poucochinhos”. Nas europeias e nas legislativas, alguém avaliará ou beneficiará do “sucesso” do CDS. Outro ponto de análise: é certo que Assunção Cristas nunca refere Rui Rio, mas a posição assumida pelo CDS contrasta com a dos sociais-democratas. “Não basta fazer oposição construtiva. Não tenhamos ilusões”, avisou Cristas -- e oposição construtiva é tudo o que Rio tem prometido. E ao que parece, não está muito preocupado com as eleições e com o "sucesso" até porque já deu de barato que as pode perder.

Provámos que não há impossíveis! Mostrámos que é possível chegar a outro patamar. É possível chegar a outro patamar! Sim, é possível disputar a primeira liga! E o que vos proponho a todos nesta moção é claro. Estar um passo à frente na preparação das eleições, com trabalho de terreno, de proximidade, porque nada substitui o contato olhos nos olhos, com trabalho de estudo e preparação de ideias, com abertura do partido a tantas e tantas pessoas que hoje se dispõem a ajudar-nos.

A primeira frase parece tirada do maio de 68. Percebe-se o entusiasmo de Cristas quando invoca os 21% nas autárquicas de Lisboa. Era impossível e aconteceu. A líder do CDS está com o espírito daqueles clubes que na época seguinte sobem para a I Liga. O problema dessas equipas depois é de dimensão para lutar com os grandes. Mas, em política, como se tem visto pelo mundo, tem havido muitas surpresas contra a corrente. Este compromisso aspiracioinal foi um dos momentos mais aplaudidos da intervenção da líder do CDS. Assunção Cristas quer concorrer diretamente com o PS e CDS, acabando com o bipartidarismo e com a ideia de voto útil. Lisboa serviu para provar que é possível, vai repetindo a democrata-cristã, com insistência. O CDS acredita que pode subir de divisão, mas, para isso, Cristas sabe que o partido tem de esvaziar a agenda do PSD. É isso que está a tentar a fazer: a líder do CDS anda há meses na estrada, enquanto Rio ainda tenta arrumar uma casa minada pelos passistas.

É com este sentido de urgência, urgência de fazer as coisas bem feitas, que vos proponho um método para prepararmos o caminho para as próximas eleições legislativas. Pedi ao Adolfo Mesquita Nunes que coordene um grupo de seis militantes e dois independentes, com o objetivo de reunir, selecionar e dar um corpo sistemático aos elementos que são trabalhados nos vários pilares de ação do partido. É um grupo sub 45, que saberá integrar os contributos dos nossos senadores! São mulheres e homens com várias experiências profissionais e políticas, de várias regiões do país, do Porto ao Barreiro, passando por Viseu, Covilhã, Leiria ou Lisboa.

Foi uma das grandes novidades do discurso de Assunção Cristas: a líder do CDS escolheu Adolfo Mesquita Nunes, vice-presidente do partido, para coordenar um grupo de trabalho que vai recolher e reunir propostas para o próximo programa eleitoral. A grande destaque vai para o convite a dois independentes: Pedro Mexia, poeta, escritor e ensaísta, e Nadia Piazza, rosto da associação dos familiares das vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande. Cristas consegue assim dois objetivos: mostrar arejamento, abrir o partido a independentes e preparar o programa eleitoral com tempo. Todos os membros do grupo de trabalho têm menos de 45 anos, o que neste jogo de espelhos, marca também a diferença para Rui Rio: se o líder social-democrata se rodeou de senadores acima dos 50 anos, Cristas fez precisamente o contrário.

Há que trabalhar para construir o futuro de uma sociedade que respeita todos, dos mais novos aos mais idosos, que protege as situações de maior fragilidade e não descarta os doentes e em fim de vida, antes acarinha e elimina o sofrimento e se afasta definitivamente da eutanásia; uma sociedade onde o Estado garante a prestação de serviços públicos muitas vezes em rede com os outros setores num verdadeiro Estado Social de Parceria; um país onde há coesão territorial e a valorização de todo o nosso território, incluindo o mar; uma sociedade onde a iniciativa privada é valorizada e o Estado é um facilitador e promotor da criação de valor e de emprego; uma sociedade onde a mudança é preparada e não travada.

Aqui, a líder do CDS não usa a denominação ideológica certificada, mas está a falar de políticas da democracia-cristã que não invocou na moção, dos valores conservadores do partido e de um certo liberalismo económico moderado.

Uma alternativa ao Governo das esquerdas encostadas que continua a aumentar a dívida pública em valores absolutos, e volta aos vícios do passado na acumulação de dívida a fornecedores, nomeadamente na área da saúde. Uma alternativa ao Governo das esquerdas encostadas que tem uma conjuntura externa excecionalmente favorável e desperdiça a oportunidade de trabalhar mais em prol do crescimento sustentado e da competitividade de Portugal.

“Esquerdas encostadas?” Vamos ver se conseguimos perceber: três ou quatro partidos de esquerda encostados uns aos outros porque o chefe se chama Costa. Foi uma piada. Um trocadilho. Pronto, tinha de chegar o momento em que finalmente sentíamos a falta de Paulo Portas. A frase feita com piadinha no meio está a perder qualidade por estas bandas. O ex-líder -- agora consultor --, podia dar umas consultas no Caldas em “soundbites, fases feitas infalíveis de efeito mediático e rimas ritmadas de teor político. E a parte deste parágrafo com as críticas ao Governo também é muito importante.

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