Foi convidado no próprio dia da demissão de Feliciano Barreiras Duarte, no domingo, mas diz que nunca teria aceitado o convite se ainda houvesse um secretário-geral em funções. José Silvano, o  escolhido por Rui Rio para ser o próximo secretário-geral do PSD, convocou os jornalistas à sede do partido para dizer três coisas: que a sua prioridade é “unir o partido” para pôr o PSD no caminho das vitórias eleitorais “já em 2019 — isto que fique claro”; que o seu perfil é de alguém que percebe de “proximidade” com os eleitores, que “põe a mão na massa”, e que “fala pouco”; e para deixar claro que não tem “medo de nada nem ninguém”, ainda que não acredite em “campanhas orquestradas” contra a direção do partido.

“Irei fazer tudo o que sei para afirmar o PSD na sociedade civil, com trabalho, empenho e proximidade com as pessoas no terreno. É isso que eu sei fazer: concretizar, ajudar, resolver, e pouco falar, este é o meu perfil”, começou por dizer numa conferência de imprensa na sede do PSD, em Lisboa, acrescentando que foi com esse perfil que ganhou “cinco eleições”. “Ganhei cinco autárquicas em Mirandela, quatro das quais comigo à cabeça, ganhei legislativas e europeias. É esta mais valia que quero trazer ao PSD: proximidade aos eleitores, contacto com as estruturas, pôr o partido perto do terreno e das pessoas”, disse ainda.

Assumindo-se como “transmontano”, José Silvano terminou a sua breve intervenção inicial a dizer que não tinha “medo de nada nem de ninguém”. Nem da votação no Conselho Nacional, do próximo dia 28 de março, onde vai caber aos conselheiros eleger, por voto secreto, o nome escolhido pelo presidente do partido para substituir Feliciano Barreiras Duarte. “Não tenho receio da votação, e digo isto mas não no sentido de desafiar ninguém: o meu único objetivo é unir o PSD para ganhar as eleições e para o PSD alcançar o poder em 2019“, disse, sublinhando a data 2019, para que não restassem dúvidas, e destacando que esse é o objetivo comum a todos os militantes e dirigentes do partido, logo, não há por que ter receio de ver o seu nome ser chumbado pelos conselheiros.

Ao que o Observador apurou, a eleição no Conselho Nacional vai mesmo ser pacífica. A votação será por voto secreto, e Rui Rio não tem maioria naquele órgão máximo do partido: a lista de Rio elegeu apenas 34 dos 70 membros, e metade desaa lista é composta por santanistas. No entanto, não há o risco de a eleição de José Silvano ser um remake da eleição de Fernando Negrão para a bancada parlamentar. Ou seja, não vão ser os santanistas nem os restantes conselheiros de listas opostas que se vão opor à escolha de Rio.

Ao Observador, o conselheiro nacional Telmo Faria, que entrou na lista de Rio mas vindo da ala de Santana Lopes (foi o coordenador do seu programa nas diretas), diz que a eleição de José Silvano vai ser apenas uma “ratificação”, sendo que “não se trata do secretário-geral do Conselho Nacional, mas sim do braço direito do presidente do partido”. Ou seja, é uma escolha do presidente do partido, a quem o Conselho Nacional deve dar “o benefício da dúvida e um voto de confiança”. Mais do que uma questão “ad hominem“, Telmo Faria diz que o foco do Conselho Nacional deve ser outro: a situação política em geral e a estratégica que o PSD está a levar a cabo neste primeiro mês de Rui Rio à frente do partido.

No congresso de fevereiro, além da lista de Rio e Santana, que elegeu 34 dos 70 membros do Conselho Nacional, houve outras sete listas: a lista de Carlos Reis e Sérgio Azevedo conseguiu 13 eleitos e a lista de Bruno Vitorino, de Setúbal, conseguiu outros dez. Mas também daí não virá perigo para José Silvano, apurou o Observador. “Deve-se dar o benefício da dúvida”, ouve o Observador de uma fonte ligada a estas listas alternativas, que sublinha que o perfil de Silvano é o de “uma pessoa educada, sensata e sem anticorpos. A escolha surpreendeu, mas foi de certa forma um alívio, não oiço muito burburinho à volta desde nome”. Outra fonte destaca ainda que o deputado indicado para secretário-geral não é “pessoa de esquemas, de fações”, por isso colhe o apoio dos conselheiros que não são da ala do líder.

Os conselheiros da ala anti-Rio também não querem ficar “com o ónus” de causar problemas à direção. Que é o mesmo do que dizer: os problemas são causados pela direção sozinha.

Primeiro mês de Rio “não correu tão mal como as pessoas dizem”

A ideia de que Rui Rio não teve estado de graça e que o primeiro mês de mandato foi repleto de convulsões, que culminaram com a demissão de Feliciano Barreiras Duarte, procurou ser contrariada por José Silvano na curta conferência de imprensa na sede do PSD. Aos jornalistas, Silvano recusou-se a falar em “orquestrações” contra a direção e anteviu um “futuro radiante” para o PSD. Sobre o passado recente: “Não foi assim tão mau”.

“Interessa-me mais olhar para o futuro radiante para o PSD que espero ver, do que olhar para o que tenha corrido menos mal”, disse, em resposta a uma pergunta sobre como é que olhava para o primeiro mês atribulado do novo presidente do partido. E insistiria: “Não correu tão mal como as pessoas dizem, basta olhar para as sondagens. É mais o que se propaga sobre o PSD do que o que acontece no PSD”, disse.

Sublinhando que “não é de intrigas”, e que só com “trabalho e com sujar as mãos no terreno” é que se consegue pôr os militantes e os dirigentes no caminho “para ganhar as próximas legislativas”, o novo secretário-geral do PSD (que está a partir de hoje em funções de forma interina) admitiu que o convite lhe foi feito ainda no domingo — dia da demissão de Feliciano Barreiras Duarte.  “Fui convidado há dois dias, só hoje é que comecei a trabalhar”, disse, corrigindo depois que “nunca aceitaria o convite com outro secretário-geral ainda em funções”. Ou seja, o convite foi feito no próprio dia da demissão, mas já depois da demissão.