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Chegados à casa-museu Passos Canavarro, em Santarém, prometem-nos Fernão Pires de todas formas e feitios. O sol brilha lá no alto e anuncia a chegada da Primavera quando Luís de Castro e João Silvestre, presidente e diretor geral da Comissão Vitivinícola Regional do Tejo (CVRT), respetivamente, nos apresentam no terraço a casta branca mais plantada no país e que se encontra em maior expressão no Tejo, região com 12.500 hectares de vinha que deve o nome ao rio que influencia a produção de vinho.

A prova didática de Fernão Pires, que acontece já no interior da casa-museu aberta ao público, é o momento alto do dia e tem como objetivo dar conhecer o tipo de uva a fundo. Uma imersão feita com a ajuda de dois enólogos —  Martta Reis Simões, directora de enologia da Quinta da Alorna, e Diogo Campilho, director de enologia da Quinta da Lagoalva, ambas no Tejo –, que fizeram uma prova cega prévia para determinar que amostras de cubas, vinhos engarrafados e colheitas tardias seriam sujeitas ao crivo de uma mão cheia de jornalistas.

Martta Reis Simões, directora de enologia da Quinta da Alorna. © Gonçalo Villaverde

Mas como é, então, a uva Fernão Pires e de que forma se manifesta nos vinhos? A casta branca em destaque na prova — dominada por monovarietais — tem uma componente aromática muito expressiva. “Diria que só a casta Moscatel consegue combater a sua intensidade aromática”, diz-nos Martta Reis Simões. É ela quem nos explica como é possível encontrar nos vinhos produzidos maioritariamente com esta uva aromas muito citrinos, como lima, limão e laranja, mas também uma componente vegetal que traz à memória o nariz expressivo de um Sauvignon Blanc. Notas tropicais como ananás, ainda que mais raras, também são uma possibilidade. A variação de aromas, explica, está relacionada não só com o grau alcoólico, mas também com o estado de maturação aquando da vindima.

Se vindimarmos mais cedo vamos ter aromas mais verdes, podemos ir buscar os tais espargos de um Sauvignon Blanc. Se a uva ficar mais tempo na vinha há um álcool provável maior, mais açúcar e, daí, aromas mais maduros”, continua a enóloga da Quinta da Alorna.

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Fernão Pires no Tejo, Maria Gomes na Bairrada

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A origem da casta é desconhecida, mas é no Tejo e na Bairrada, onde lhe chamam de Maria Gomes, que a encontramos em maior expressão. A uva branca apresenta uma boa capacidade de produção e é precoce: quer isto dizer que é referência para todas as outras castas brancas no que à vindima diz respeito.

A casta Fernão Pires representa 7% da área nacional, estendendo-se ao longo de 13.700 hectares, não obstante, é no Tejo que é mais expressiva.

A casta é de uma versatilidade imensa, prometem-nos: a partir dela podem ser produzidos vinhos tranquilos, leves, espumantes (ainda que não tenha existido nenhum em prova por falta de consenso), colheitas tardias e topo de gama — sobretudo quando o Fernão Pires vai à madeira; o topo de gama não é, por enquanto, uma expressão significativa no mercado, embora exista a intenção de o fazer crescer. O enólogo Diogo Campilho também gaba a capacidade da casta em adaptar-se não só aos diferentes terroirs, como às diferentes temperaturas que se fazem sentir na região. “É uma casta que se adapta bem à ausência de água e à existência de água. É portuguesa, tem um peso importante na região e origina um vinho que vai bem com todos os estilos”, diz-nos.

Diogo Campilho, enólogo na Quinta da Lagoalva. @ Gonçalo Villaverde

Quem fala em topo de gama, também fala em potencial de guarda: em prova estiveram vinhos bastante velhos, que remontavam ao ano 1983 (ao almoço foi-nos dado a provar um abafado Fernão Pires da Quinta da Lagoalva de 1964 que estava surpreendentemente bem conservado). Ao contrário do que se possa pensar — até porque em causa está um branco –, estes vinhos podem durar muitos anos em garrafa. Culpa essencialmente da acidez.

Vinho não é só tinto. Há brancos cada vez melhores

Neste região nasce muito Fernão Pires

“O Tejo é uma das regiões mais antigas ao nível da produção de vinho, produz muito e bem. É uma região que é mais reconhecida e conhecida lá fora do que cá dentro”, conta Diogo Campilho a meio do almoço, no restaurante Taberna Ó Balcão, do chef Rodrigo Castelo, em que diferentes propostas gastronómicas foram naturalmente harmonizadas com Fernão Pires.

O almoço após a prova didática aconteceu na Taberna Ó Balcão, no centro de Santarém. © Gonçalo Villaverde

A região em causa é caracterizada pela existência de três terroirs: Campo, que dá origem a vinhos mais frescos, com maior acidez e mais aromáticos; Charneca, com vinhos mais concentrados, contidos e, talvez por isso, mais elegantes, e ainda Bairro, cujos vinhos em causa apresentam-se em menor expressividade. A casta Fernão Pires está mais concentrada na zona do Campo e só depois na Charneca — que, por sua vez, é dominada por solos arenosos e apresenta menor produtividade.

A uva que gosta de calor e que não vira as costas à agua é amiga do viticultor e do enólogo, uma vez que se adapta a produções elevadas. “Tem boa capacidade produtiva sem beliscar a qualidade”, perdemos a conta a quem o diz. A casta tem maior expressão no Tejo e na Bairrada, onde leva o nome de Maria Gomes, e é a uva branca mais plantada no país. Não é tímida nem espampanante, nas palavras de Martta Reis, e corresponde a 7% da área total de vinha em Portugal (ao todo, existem mais de 13.000 hectares de Fernão Pires). Só no Tejo, ocupa-se de 30% da produção.