Obrigado por ser nosso assinante. Usufrua de leitura ilimitada deste e de todos os artigos do Observador.

O dia põe-se bonito à medida que chegamos ao Casal Santa Maria, em Colares. Faz mais de um ano que não viajamos até à propriedade plantada à beira-mar, conhecida sobretudo pelo barão que nos últimos dez anos de vida construiu uma marca de vinhos de referência. Em novembro de 2016, aos 105 anos, Bodo Von Bruemmer foi-se embora, não sem antes deixar um legado. A quinta e o vinho de que tanto se orgulhava passou para as mãos do neto, Nicholas, que parece sonhar ainda mais alto do que o avô. “Quero que o Casal Santa Maria produza, pelo menos, dois ou três dos melhores vinhos em Portugal.”

A história do barão que quis fazer vinho aos 96 anos

Já a manhã vai a meio quando Nicholas Von Bruemmer, de 52 anos e uma estatura física que nos faz erguer o pescoço, nos recebe na casa que durante décadas pertenceu ao avô — Bodo Von Bruemmer nasceu em 1911 numa província russa de nome Curlândia que, após a Primeira Guerra Mundial, passou a fazer parte da Letónia; de todas as voltas que a sua vida deu, foi em Colares que encontrou a derradeira casa, onde assentou com a mulher e mandou construir um roseiral em sua homenagem.

Ao Observador, Nicholas conta que a escolha de deixar a Suíça, onde ganhou experiência na banca privada e enquanto gestor de fortunas, por Portugal foi praticamente imediata. Logo após a morte do avô, mudou-se para a quinta. A mulher e os dois filhos, de 10 e 12 anos, seguiram-no seis meses depois. No dia em que os meninos loiros aterraram em Lisboa, um pug e um labrador esperavam-nos — o primeiro interrompeu a entrevista para pedir atenção, o segundo está a recuperar de uma cirurgia depois de uma queda aparatosa.

Todos gostamos de Portugal. Mudar da Suíça para cá foi passar de mau para bom. A minha vida mudou completamente. Costumava passar 10-11 horas no escritório e agora passo uma hora no escritório e 10 lá fora — por causa do vinho, da casa e da quinta.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

“Tentámos manter o visual da casa, mas, ao mesmo tempo, fui obrigado a começar uma grande renovação. Tecnicamente, a casa estava em ruínas. Sem água e sem eletricidade. Trabalhou tudo até ao dia em que ele morreu, literalmente. Depois, deixou tudo de funcionar. Como se a casa estivesse a dizer-nos que não queria cá mais ninguém”, brinca Nicholas, sentado na sala de estar. Atrás dele, ao fundo e do lado de lá da janela, está o mar e algumas das vinhas que os proprietários gostam de vender como “as mais ocidentais da Europa continental”.

Avô e neto, lado a lado.

Nicholas conhece melhor do que ninguém a história do avô, o homem que aos 96 de idade acordou de uma cirurgia com a ambição de plantar uma vinha — ele que enganou a morte tida como certa mais do que uma vez. Curiosamente, ainda se recorda do dia em que o avô lhe ligou para contar a novidade. “Ao início não disse nada, fiquei em silêncio. Depois perguntei ‘Está a falar a sério? Sabe o que está a fazer?’. A resposta foi ‘nem por isso’. A partir do momento em que ele tomava uma decisão… ele era muito focado. Passados três meses havia pessoas de França, e não só, a fazer testes. Doze meses depois, a maior parte das vinhas estavam plantadas.” Se, ao início, o terroir do Casal Santa Maria recebeu cerca de 20 castas, atualmente esse número foi reduzido para metade.

Sonhou em fazer vinho depois da cirurgia. Contou-me, furioso, que vivia ali há 60 anos e só agora se lembrara de fazer vinho. Ele conhecia a história do Casal Santa Maria, que esteve 100 anos sem produzir vinho. Durante muito tempo discutimos o que produzir aqui. Acho que durante os primeiros anos ninguém achou que isto fosse funcionar, nem mesmo os amigos enólogos do meu avô. Acharam que ele era doido, que ia gastar dinheiro e pronto. Hoje estou muito orgulhoso. Isto dá-nos esperança para de cada vez que pensarmos que estamos velhos. Ainda podemos mudar o mundo e aprender tudo o que queremos.

A primeira vez que provou um vinho feito no Casal Santa Maria Nicholas ficou “surpreendido pela negativa”. Tinha expetativas altas que não se cumpriram, mesmo perante o entusiasmo do avô, que insistiu que o neto levasse os vinhos para serem vendidos na Suíça. “Disse-lhe para esperarmos uns anos — quando melhor fossem os vinhos, mais facilmente seriam vendidos –, mas ele pediu que tratasse disso o quanto antes. Então, pedi a um grande amigo meu, um dos maiores distribuidores no país, para encomendar 300 garrafas ao meu avô. ‘Se não gostares deles, compro os vinhos de volta.’ Só queria fazer o meu avô feliz. Ainda me lembro de ele contar-me que lhe tinham pedido 300 garrafas. Umas semanas depois recebi um telefonema desse meu amigo que me disse ‘Desculpa, nem consigo beber o vinho.’ Comprei-lhe as garrafas e nunca contei nada ao meu avô.”

Nicholas nunca foi produtor de vinho, antes um ávido consumidor — agora que está envolvido na criação de rótulos, diz ter deixado de fumar para melhor provar os próprios vinhos. Na Suíça, onde viveu muitos anos, colecionava vinhos e foi nas conversas com diferentes pessoas da área que foi aprendendo um pouco mais. Atualmente, Jorge Rosa Santos e António Figueiredo são os enólogos que tomam conta dos 7,5 hectares de vinha inseridos na propriedade e que criam as muitas referências de vinhos — desde o herbáceo e fresco Sauvignon Blanc, um grande sucesso da casa, ao Pinot Noir que numa prova cega já chegou a ser confundido com um vinho da Borgonha, sem esquecer o colheita tardia cheio de acidez e frescura. Durante este ano vão ser anunciadas diversas novidades: alguns vinhos vão ser descontinuados, outros vão ver a luz do dia pela primeira vez, como o muito aguardado rosé que Nicholas garante ser uma resposta ao rosé do sul de França.

Deixem o álcool falar: 5 histórias engarrafadas

“Em Portugal, as pessoas têm tendência para beber vinhos demasiado jovens. O futuro é trabalhar a qualidade do vinho. Prefiro ter menos vinho e ter super-vinho do que o contrário”, diz o neto do homem que passou a vida a tomar decisões com um pêndulo. “Eu brincava com ele. Dizia-lhe que o pêndulo ia na direção que ele queria. A verdade é que ele chegou aos 105 anos com um pêndulo como ajuda. Algo funcionou.” Agora é a vez de Nicholas fazer o projeto funcionar, ele que olha para o Casal Santa Maria enquanto negócio e ambição: “O meu maior desafio é provar ao resto da Europa que também se pode fazer vinho fantástico em Portugal”.

O Casal Santa Maria está aberto a visitas guiadas, com prova de vinhos incluída, a partir de 15 euros por pessoa.