Vinho

Deixem o álcool falar: 5 histórias engarrafadas

Uma caixa de vinho que se transforma num ninho e um ex-jogador de futebol brasileiro que batizou o vinho com o nome da sogra. Há histórias que merecem ser contadas à volta de uma mesa cheia.

Tyto Alba, Companhia das Lezírias

Na Companhia das Lezírias, tida como a maior exploração agropecuária e florestal do país, existem 130 hectares de vinhas que beneficiam da proteção da coruja das torres, cujo nome científico é Tyto alba. De porte elegante e voo silencioso, a coruja mantém o equilíbrio do ecossistema dos vinhedos ao alimentar-se de pequenos mamíferos capazes de destruírem as culturas. O papel de guardiã é, por isso, homenageado num vinho que lhe leva o nome técnico emprestado e que, no rótulo, se serve dos olhos intrigantes da ave de rapina. O vinho dá ainda nas vistas pela caixa de design onde é acomodada a garrafa: depois de aberto e bebido, o recipiente transforma-se num ninho (as instruções seguem no interior da caixa e há até uma ráfia para prendê-la à árvore). Ao todo, existem seis referências de Tyto Alba, dois brancos, um rosé e três tintos, sendo que a primeira colheita data de 2011.

À venda a partir de 7 euros

Vinho Madeira Fajã dos Padres

Não há carro que lá chegue. À Fajã dos Padres, na ilha da Madeira, só pode aceder-se por teleférico, elevador ou barco. O pequeno paraíso é, entre muitas outras coisas, um santuário vinícola. Foi nesse pedaço de terra, outrora pertença dos jesuítas, que Mário Jardim Fernandes encontrou uma parreira com uma uva desconhecida, que só mais tarde identificou: Malvasia Cândida, a casta responsável pela projeção inicial do Vinho da Madeira. A videira pré-filoxera resistiu ao tempo e às intempéries da ilha. Foi até clonada, mas as cepas que atualmente existem não chegam a formar um hectare de vinha. Além da produção escassa, o vinho envelhece 20 anos em barrica. Só depois de ganhar barbas pode ser comprado na Fajã dos Padres ou na empresa Barbeito que, através de uma parceria de longa data, trata do engarrafamento (também está à venda em lojas especializadas).

Colheitas de 1990 e de 1986 à venda por 150€ e 290€, respetivamente

Dona Fátima, Manzwine

André Manz veio para Portugal por causa do futebol, mas acabou a fazer vinho. Instalado em Cheleiros (Mafra), o brasileiro descobriu em duzentas cepas de vinha uma casta autóctone da região de Lisboa, tida como extinta. Da uva mistério nasceu, em 2008, o Dona Fátima, que a equipa diz ser o único monocasta Jampal certificado no mundo. O vinho foi batizado em homenagem à sogra de André, devido à sua “acidez” — um trocadilho interessante, se pensarmos que a acidez é essencial num vinho branco de qualidade. Sendo este o primeiro rótulo a ver a luz do dia, poucas condições se reuniam à data e, na falta de uma adega, o tal Dona Fátima foi produzido na casa de André e refrigerado com a água do poço. Ao início a brincadeira até caiu mal, mas entretanto o feitiço vira-se contra o feiticeiro, com a sogra a dizer recorrentemente, vaidosa dos seus feitos, que foi imortalizada: o vinho que sai para o mercado todos os anos é, afinal, o porta-estandarte da empresa Manzwine.

À venda por 16,50€

Ribeiro Santo ET, Carlos Lucas

O rótulo faz uma referência óbvia ao filme de 1982 de Steven Spielberg. E não há como enganar: o toque iminente de duas mãos desenhadas a negro, uma alienígena, remete de imediato para a personagem já muito acarinhada do ET, sigla que também dá nome ao vinho. Reza a história que, em tempos, vinhos mistos (de uvas tintas e brancas) chegavam às adegas cooperativas do Dão. A receita improvável dava origem a vinhos mais leves em cor e mais aromáticos no nariz, um produto que, feito nos tempos que correm, levaria logo o rótulo de “extraterrestre” — palavras do enólogo Carlos Lucas. Pois bem, o Ribeiro Santo ET, que pela composição parece vir de outro mundo, nasce da junção da casta branca encruzado e da tinta touriga nacional (variedades de uva que ajudam a justificar o nome de batismo). O resultado é um vinho muito delicado mas com uma estrutura interessante.

À venda por 50€

Casal Santa Maria

Disseram-lhe que ia morrer. Disseram-lhe mais do que uma vez. Tantas vezes que o barão Bodo Von Bruemmer se acostumou à ideia — e a morte que esperasse. Nos anos 60 diagnosticaram-lhe uma doença incurável e, a pensar na eventual viuvez da mulher, mudou-se para Portugal, onde viria a sobreviver a mais quatro doenças graves. Aos 96 anos, e ao acordar de uma operação, exclamou: “Tenho de ir plantar uma vinha!”. A idade não foi impedimento para a concretização de um sonho repentino e a história já faz parte do imaginário dos vinhos Casal Santa Maria. O barão, que nasceu em 1911 numa província do Báltico, viveu para contar 105 anos de idade (morreu em 2016). Para trás deixou um legado vínico sem precedentes, pois foi nos últimos 20 anos de vida que criou uma marca cuja quinta, em Colares, vale a pena ser visitada. É por lá que são produzidas mais de 10 referências de vinho, nascidas naquelas que são consideradas “as vinhas mais ocidentais da Europa”.

Vinhos a partir de 4,90€

Artigo originalmente publicado na revista Observador Lifestyle, lançada em novembro de 2017

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