Em 2009, Mark Beighley admitiu que Portugal haveria de enfrentar um ano de incêndios tão dramático que 500 hectares da sua área florestal desapareceriam. O número foi encarado com ceticismo. Pelo menos, até chegarmos a 2017 e essa marca ter sido atingida. Esse “ano dramático” obrigou o norte-americano, especialista em incêndios, a criar uma nova categoria: “Céus Negros”, o equivalente a um ano em que o país perca 750 mil hectares de floresta, área agrícola e arbusto — sem estimativas quanto à perda de vidas humanas. “Portugal entrou numa nova era de fogo” e, “sem uma intervenção séria e imediata, o país pode esperar pior do que aquilo que aconteceu” no ano passado, alerta Beighley.

No novo estudo do norte-americano (“A gestão dos fogos na nova era — avaliar os riscos de fogo, recursos e reformas”, apresentado esta sexta-feira em Lisboa), o antigo dirigente dos Serviços Florestais dos EUA, que em 2004 colaborou na criação do Plano Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndio, atribui a esse cenário para lá de “fogo extremo” (o mais grave até agora) uma probabilidade concretização de 5%. Mas esse cenário “não é assim tão pouco crível”, assinala o autor do relatório:

À medida que os impactos das alterações climáticas se acentuarem, a probabilidade de um cenário 5 deverá aumentar.”

Aliás, refere Beighley, bastaria que em 2017 as regiões do Alentejo ou do Algarve tivessem sido assoladas por fogos como os de 2003 e a área total ardida no último ano poderia facilmente ter chegado aos 650 mil hectares. “Uma estratégia de planeamento prudente obriga à criação de um ainda mais catastrófico cenário, com uma área alargada maior”, justifica o autor do estudo.

É por isso que o consultor norte-americano sublinha para a importância de, na próxima década, as autoridades portuguesas dedicarem “uma atenção séria” ao risco de um ano de incêndios que alcance os 750 mil hectares de terra queimada. Beighley lembra que o mais recente relatório do Centro de Investigação Conjunta da União Europeia já apontou para o “perigo de os incêndios florestais” virem a “aumentar relativamente ao momento atual, em particular em redor do Mediterrâneo”.

Em comparação com esta nova situação limite nascida da tragédia de 2017, o especialista em incêndios considera que há 45% de probabilidades de Portugal enfrentar um ano de fogos que consumam entre 100 a 200 mil hectares (que é, também, o que me mais vezes aconteceu nos últimos 17 anos, oito). Esse é o cenário três. O quarto cenário — entre 200 e 500 mil hectares ardidos, como aconteceu no ano passado — tem uma probabilidade estimada de 20% de voltar a ocorrer. Anos de incêndios que destruam até 50 mil hectares e até 100 mil hectares têm uma probabilidade de 12% e 18%.

Recomendações ignoradas durante uma década

Perante este contexto, Mark Beighley vira a sua atenção para os meios técnicos e humanos de que o país dispõe para enfrentar os piores cenários apresentados no seu estudo. E o panorama não é otimista.

Portugal não tem, claramente, experiência ou forças de combate aos incêndios para gerir um fogo de grandes dimensões”, refere o autor do relatório, assinalando que a resposta a um eventual recurso ao estrangeiro para dar pedir ajuda na resposta a um fogo destas dimensões “não seria possível sem que se adotasse um reconhecido sistema de comando”.

Não avançar já com medidas que permitam preparar um acontecimento destes “seria indesculpável”, aponta o norte-americano.

Essa ideia remete, de resto, para a análise que Beighley faz do relatório que apresentou em 2009 sobre a realidade portuguesa — o tal em que se previam anos de 500 mil hectares de área ardida. “Enquanto algumas recomendações do relatório foram marginalmente implementadas, a maioria das medidas que se relacionavam com a prevenção estrutural (a gestão de combustíveis) e redução de ignições foram deixadas de lado”, diz o documento.

Há algumas explicações para que isso tenha acontecido, reconhece o especialista, que lembra o contexto económico e financeiro europeu depois desse ano — em particular, a crise financeira em que se afundaram algumas economias da zona euro, entre as quais, de forma muito particular, a portuguesa. Esse era o panorama geral. No particular, as causas apontadas para explicar a tragédia que no ano passado provocou 114 mortes passam pela “elevada percentagem de terras sem gestão” humana, o “aumento de cargas combustíveis, quer em quantidade quer em extensão”, o “elevado número de ignições não controladas durante os períodos de risco de incêndio moderado a severo” e as “alterações climáticas e períodos de tempo quente e seco que aumentaram em duração e severidade”. Novidade? Nem por isso. “As respostas são, hoje, essencialmente as mesmas que já eram evidentes há uma década”, diz Mark Beighley.

Em 2017, a “seca severa, as ondas de calor, os vastos oceanos de florestais inflamáveis e áreas de arbusto e um fenómeno meteorológico — o furacão Ophelia, a meio de outubro — juntaram-se numa ‘tempestade perfeita’”. Faltava o fósforo. “E Portugal tem milhares de fósforos fora de controlo”, diz o especialista.

População incendiária e falhas no combate

Há ainda, um outro problema que, não sendo exclusivo, é particularmente relevante no contexto nacional. “Dizer que ‘a população portuguesa é o problema’ não é exagero”, considera o autor do relatório.

“Quando comparado com outros países do sul com as mesmas condições meteorológicas e de combustíveis, Portugal apresenta um desproporcional número de ignições de origem humana face à sua população.” De todos os fogos registados, 98% apontam para este causa. Espanha, com quatro vezes mais população e uma área de território cinco vezes maior tem menos incêndios provocados por mão humana.

No lado do combate, o norte-americano recorda que “o ponto forte do combate aos incêndios não são os  aviões ou os camiões, mas os bombeiros”. E destaca o facto de o número de bombeiros profissionais e voluntários ter caído 33% em 11 anos. “As duas principais causas” para que isso tenha acontecido, “aumento da idade de o desinteresse generalizado da população mais jovem, têm de ser resolvidos”, defende. A atratividade para essa função passa, em grande medida, pelo “aumento dos salários”, mas a oportunidade de fazer uma carreira na área também é importante para “reter os mais velhos e mais experientes bombeiros em posições-chave de liderança e treino”.

Outra questão levantada por Beighley é a forma como o próprio combate ao fogo é feito, sem acautelar (por falta de condições, admite-se) os reacendimentos, que podem ser responsáveis por até 30% dos incêndios. Isso acontece porque, por um lado, “existe uma cultura de o bombeiro voluntário usar apenas mangueiras e água, ficar na estrada e não usar ferramentas manuais” para combater as chamas e evitar a sua propagação. Por outro lado, há “demasiados incêndios por dia, obrigando as brigadas a avançar prematuramente para o ponto seguinte” do terreno e impossibilitando a confirmação de que as chamas foram totalmente extintas. Um problema que tende a acentuar-se quando os incêndios se prolongam por semanas e os bombeiros estão cada vez mais esgotados. Solução: outros meios, como as Forças Armadas, para uma dupla verificação ao terreno depois do combate mais musculado.

Do ponto de vista da organização da estrutura responsável por gerir a resposta de combate aos incêndios, atualmente a cargo da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC), o autor do relatório recupera as recomendações da Comissão Técnica Independente nomeada pela Assembleia da República. A par da ANPC — que deveria ficar mais dedicada aos fogos urbanos –, a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) deveria ficar com a responsabilidade dos restantes incêndios. “Não há razão para que uma multiplicidade de autoridades portuguesas para os incêndios não possa ter o mesmo sucesso” que as autoridades de países como os EUA, Canadá ou Austrália, onde este modelo foi posto em prática.