No período de apenas uma semana, a Índia voltou a ser agitada por três novos chocantes casos de violação. A repetição destas situações e a quase impunidade dos suspeitos trouxe de volta a agitação social e os protestos que já tinham sido desencadeados no final de abril.

Na passada quinta-feira, uma rapariga de 16 anos foi raptada da própria casa, na zona rural de Jharkhand, enquanto a família estava num casamento. Dali foi levada para uma floresta nas redondezas, onde foi violada por um grupo de homens. Mas a história estava longe de acabar: depois de saber o que se tinha passado, a família da adolescente tentou encontrar alguma forma de justiça e levou o caso ao conselho da aldeia. O conselho condenou os homens a 100 abdominais e uma multa de 50 mil rupias, algo como 750 dólares.

Revoltados com a condenação, os homens pegaram fogo à casa da família – onde estava a rapariga, que acabou por morrer. As autoridades aguardam agora pela autópsia ao corpo da adolescente antes de avançar com a investigação. Foram já detidos 15 suspeitos, 14 homens e uma mulher. Nas zonas rurais da Índia, os conselhos das aldeias têm sido uma ferramenta do Governo importante para ajudar a resolver justamente disputas e conflitos locais. Mas nas áreas mais remotas e analfabetizadas – onde os polícias ou as agências governamentais são escassos – estes conselhos também intervêm em casos de violação, casamentos e homicídios por questões de honra. Formados pelos líderes mais velhos, estes conselhos são frequentemente criticados por perpetuarem os valores patriarcais.

No dia seguinte, sexta-feira, surgiu um caso semelhante. Um rapaz de 19 anos violou uma rapariga de apenas 16, para depois a regar com petróleo e pegar fogo. O crime aconteceu no Estado de Bengala Ocidental e a CNN diz que o suspeito também já terá sido detido, enquanto que a vítima continua internada no hospital com queimaduras graves. Já esta segunda-feira, surgiram notícias de um caso em tudo parecido: no mesmo Estado, uma rapariga de 17 anos foi violada, regada com petróleo e imolada. A adolescente conseguiu sobreviver e está a receber cuidados médicos, já que tem 70% do corpo queimado.

Cerca de 100 crimes de agressão sexual são denunciados diariamente na Índia, segundo dados do Gabinete Nacional de Registos Criminais. Em 2016, registaram-se 39 mil alegadas violações, um aumento de 12% face ao ano anterior. Em abril, milhares de pessoas saíram à rua em reação a outros dois casos de violação, num país onde o estatuto da mulher e dos grupos minoritários ainda é visto como uma grande violação dos direitos humanos. Rahul Gandhi, o líder do principal partido da oposição, liderou uma vigília silenciosa em Nova Deli e dezenas de outros protestos tiveram lugar noutras grandes cidades, como Bombaim, Goa ou Bangalore.

Índia. Dois casos de violação levam milhares de pessoas para a rua em protesto

Como consequência da grande vaga de violações e assassinatos de adolescentes, o Governo indiano tem aprovado várias reformas legislativas nos últimos meses para agravar as sentenças por violência sexual, incluindo a extensão das penas de prisão e a introdução da pena de morte em violações a vítimas com menos de 12 anos.