Se não conseguir chegar a acordo com a esquerda para a aprovação do próximo Orçamento do Estado no Parlamento, o Governo terá de cair, afirmou o primeiro-ministro em entrevista ao Diário de Notícias. António Costa garante ainda que não houve uma estratégia do PS para condenar José Sócrates e Manuel Pinho, mas também que, a comprovarem-se as acusações, “são factos que desonram a democracia” portuguesa. Reconhecendo ainda que “não podemos ignorar coisas que ouvimos”.

Numa entrevista que publicada este sábado, o primeiro-ministro demonstrou confiança na aprovação do próximo orçamento, apesar do aumento da contestação da parte dos principais parceiros no Parlamento – o Bloco de Esquerda e o PCP – relativamente à gestão orçamental de Mário Centeno.

António Costa diz que a experiência dos últimos anos permite ao Governo estar confiante sobre a aprovação do último orçamento desta legislatura, mas que se não for o caso, então a consequência será inevitavelmente a demissão do Executivo.

“O chumbo do Orçamento tinha como consequência inevitável a queda do Governo”, diz.

Segundo o secretário-geral socialista, o Executivo e os partidos de esquerda aprenderam, nos últimos anos, a negociar o orçamento, “em que cada um afirma as suas posições”, numa “base muito leal, muito construtiva, com um esforço de todos para aproximar posições”. “[Mas] é evidente que no dia em que esta maioria não for capaz de produzir um Orçamento, esse é o dia em que este Governo se esgotou e, inevitavelmente, isso implica a queda do Governo”, disse.

O cenário de falhanço é algo em que diz não acreditar, recusando governar com duodécimos, e até cita, na entrevista, uma frase dita pelo líder do PCP, Jerónimo de Sousa: “Como costuma dizer o PCP, enquanto houver caminho para andar vamos caminhando, e é isso que vamos fazer.”

“Não há-de ser seguramente em 2019 que nós iremos frustrar a esmagadora maioria dos portugueses, que está satisfeita com o Governo, satisfeita com esta solução política, satisfeita com os resultados sociais e económicos desta governação”, concluiu.

Sobre as condenações públicas nas últimas semanas da parte de altos responsáveis do partidos, alguns antigos aliados de José Sócrates e que o defenderam mesmo depois de o ex-primeiro-ministro ter sido acusado, tanto a Sócrates como a Manuel Pinho, seu ministro da Economia, o primeiro-ministro garante que não houve uma coordenação do PS para que tal acontecesse e tentou retirar o elemento novidade, dizendo que eram posição já conhecidas.

Ainda assim, disse António Costa, as acusações são graves e caso se venham a dar como provados, estes são factos que “desonram a democracia”. Reconhecendo que todos tivemos acesso a partes do interrogatório ao “engenheiro Sócrates”, e que foram exibidas pela SIC e CMTV. “E não podemos ignorar coisas que ouvimos”.  Mas recusa divulgar o seu juízo sobre o caso, ao contrário de outros.

Questionado sobre a possibilidade de ter de negociar com o PSD no caso de o não conseguir assegurar a maioria absoluta nas próximas legislativas, António Costa considerou que “um Governo que junte o PS e o PSD não é uma solução saudável” para a “vida democrática porque priva os portugueses de poderem contar com alternativas, que naturalmente terão sempre como pivô um ou outro desses dois partidos”. Para o primeiro-ministro, “esse cenário não é desejável”, a não ser em “circunstâncias absolutamente extraordinárias”.

A menos de duas semanas do congresso nacional do PS, na Batalha, distrito de Leiria, Costa é ainda questionado sobre se pedirá ou não maioria absoluta nas eleições previstas para 2019, afirmando que não é por a pedir que “a tem ou que a deixa de ter”

“O cenário desejável é este”, afirmou Costa. “Não vejo nenhuma razão, neste momento, para alterar aquilo que é uma fórmula que tem provado bem, tem assegurado estabilidade, tem contribuído para o crescimento económico, para a consolidação das finanças públicas, para a recuperação da credibilidade do país, onde ainda temos muito a fazer e onde podemos continuar a caminhar e a avançar no mesmo sentido.”

Um PS fraco não permite uma solução política como aquela que temos atualmente, porque é este equilíbrio de forças que tem permitido que possamos equilibrar os diferentes objetivos que temos de prosseguir”, afirmou.

E deu os exemplos, como “eliminar a austeridade e consolidar as finanças públicas, assegurar o crescimento dos rendimentos e a produtividade da economia, atrair o investimento e desenvolver a proteção dos direitos dos trabalhadores, diminuir a dívida e investir nos serviços públicos”.

Se tivesse maioria absoluta, António Costa insiste que manteria o diálogo com PCP, BE e PEV, por se tratar de uma “fórmula de solução política” com virtualidades que “não são a mera aritmética parlamentar”. “Tem virtualidades na dinâmica social, na dinâmica da vida democrática, na forma como o conjunto do país hoje olha para a Europa”, afirmou.

A segunda parte da entrevista ao primeiro-ministro e líder do PS, feita pelo diretor, Ferreira Fernandes, e Paulo Tavares, diretor adjunto, será publicada no domingo.