“Seria importante que diminuísse” o peso dos salários da Função Pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), defende o chefe de missão do Fundo Monetário Internacional (FMI), Alfredo Cuevas, em entrevista que o Negócios publica na edição desta segunda-feira. Defendendo que, com as 35 horas e o descongelamento das carreiras, os funcionários públicos já tiveram, “claramente, uma descompressão”, Cuevas sublinha que “temos de pensar nos gastos salariais como um conjunto dentro do orçamento, que usa recursos que podem servir outros propósitos. Fazer essa escolha é a responsabilidade do Governo e do Parlamento”.

“Gostaríamos de encorajar a manutenção de um nível de investimento público, de ver um pouco mais de antecipação do esforço orçamental”, assinala o responsável, na entrevista ao diário financeiro. Ainda assim, olhando para as metas que constam do Programa de Estabilidade, Alfredo Cuevas garante que não é visível, na sua opinião, uma opção declarada pelo “expansionismo”, isto é, o aumento da despesa pública causando maior endividamento. “O Programa de Estabilidade  não mostra uma expansão significativa da política orçamental”, afirma Alfredo Cuevas.

Quando viemos para a monitorização pós-programa, deixamos uma nota de preocupação sobre o descongelamento das progressões por causa dos custos que implica. Desde então foram decididas muitas questões que diminuíram a incerteza, e por isso o grau de preocupação é menor, ainda que não tenha desaparecido. Mas onde se pode procurar poupanças é nos custos com salários. Portugal é um país onde a força de trabalho vai diminuir no médio prazo, não queremos pensar num país em que a pegada do emprego público seja maior”.

De resto, Alfredo Cuevas reconhece que “a economia continuou a crescer mesmo com o Governo a consolidar as contas públicas”, algo que é visível “nos dados”. “Desse ponto de vista, [os resultados orçamentais] são sustentáveis”.

Nunca podemos antecipar o futuro, podem surgir alterações. Mas quando olho para os saldos primários, para o histórico, é muito difícil imaginar um choque suficientemente grande para tornar esta política insustentável. É muito, muito difícil”.

O responsável do FMI defende que “Portugal está muito mais forte do que há uns anos” e que o país está em boa posição para “tirar partido de uma boa conjuntura”. Quanto ao abrandamento da economia no primeiro trimestre, o resultado “surpreendeu pela negativa” mas houve “fatores extraordinários que explicam a maior parte da desaceleração”.