“Prometo, por minha consciência e honra, cumprir fielmente as obrigações do cargo de presidente do Governo de Espanha com lealdade ao rei e guardar e fazer guardar a Constituição como norma fundamental do Estado, assim como manter em segredo as deliberações do Conselho de Ministros.” Foi este o juramento que Pedro Sánchez teve de fazer para que se tornasse presidente do Governo de Espanha. A tomada de posse durou menos de dois minutos e, entretanto, António Costa já combinou um encontro com o agora homólogo espanhol. Próximo passo do espanhol: formar a equipa para os próximos meses.

Durou menos de dois minutos. Filipe VI entrou na sala onde já o esperavam Mariano Rajoy, o governante destituído, e Pedro Sánchez, o novo presidente do Governo de Espanha. Pela primeira vez, o novo líder do Governo toma posse apenas com a Constituição junto a si — ao contrário da tradição, não houve Bíblia nem crucifixo a completar o quadro da “investidura”. Nunca tinha acontecido na democracia espanhola.

Pedro Sánchez tornou-se presidente do Governo espanhol depois de conseguir a aprovação (inédita) da moção de censura que o Partido Socialista que lidera apresentou para derrubar o Partido Popular de Mariano Rajoy no Congresso dos Deputados. Próximo passo: seguir para o Palácio de Moncloa para apresentar os nomes que vão compor o seu executivo. De acordo com o El País, não haverá figuras ligadas ao Podemos na equipa montada por Sánchez para conduzir os destinos de Espanha, mas o El Mundo avança que Sánchez pretende apresentar o seu executivo já na próxima semana.

Uma coisa é dada como certa: o socialista está a pensar num grupo pequeno e que governará o país a prazo. É que, pressionado pelos partidos que aprovaram a moção de censura ao PP a marcar eleições antecipadas, Pedro Sánchez estará a apontar aos primeiros meses de 2019 para chamar os eleitores às urnas, para que elejam um novo executivo.

Não há, pelo menos para já, nomes concretos para essa equipa. Mas o mesmo El Mundo cita fontes socialistas que apontam a um grupo formado pelo núcleo duro que acompanhou o líder do PSOE até à conquista do poder. Nesse grupo, o diário destaca os nomes de José Luis Ábalos, secretário para a Organização, Adriana Lastra, vice-secretária-geral, Carmen Calvo, secretária para a Igualdade, e Margarita Robles, porta-voz dos socialistas no Congresso. Uma das marcas da equipa será o respeito pelo princípio de paridade de género, com igualdade (ou o maior equilíbrio possível) entre o número de homens e de mulheres.

Costa já combinou encontro com Sánchez

O primeiro-ministro António Costa falou este sábado de manhã por telefone com o novo presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, e ambos combinaram um encontro para breve, disse à Lusa fonte do gabinete do governante português.

Segundo a mesma fonte, o encontro entre os dois líderes socialistas deverá acontecer depois da formação do Governo de Madrid e do regresso de António Costa da deslocação que tem este mês aos Açores e aos Estados Unidos.

Já na sexta-feira, António Costa felicitou Pedro Sánchez pela sua indigitação como presidente do Governo, após a aprovação de uma moção de censura ao executivo de Mariano Rajoy, dizendo esperar que com o novo Governo espanhol as relações entre Portugal e Espanha “continuem a melhorar”, no seguimento dos projetos que os dois países têm em curso.

Quero desejar ao novo presidente do Governo, Pedro Sánchez, as maiores felicidades e que, com o seu Governo, as relações entre Portugal e Espanha continuem a melhorar e na senda que temos vindo a desenvolver”, disse o primeiro-ministro português.

Em declarações aos jornalistas, em Loulé, António Costa sublinhou a importância da continuidade dos projetos que unem os dois países “quer do ponto vista bilateral, quer no âmbito da União Europeia, em particular, o projeto das interconexões energéticas que são absolutamente fundamentais”.

O primeiro-ministro aproveitou ainda a ocasião para “enviar um abraço de muita amizade” a Mariano Rajoy, referindo que “foi um gosto trabalhar com ele novamente”, depois de já o ter feito há uns anos, quando ambos eram ministros.

O primeiro Governo derrotado por uma moção de censura

Sánchez torna-se presidente do Governo por força do decreto real 354/2018, de um de junho. Os 180 votos do PSOE, Unidos Podemos (nome da coligação que junta a Izquierda Unida e o Podemos), En Comú Podem, Compromís, Esquerda Republicana da Catalunha, Convergência Democrática da Catalunha, En Marea, Partido Nacionalista Basco e Euskal Herria Bildu foram suficientes para superar o apoio do PP — ao lado de Rajoy votaram os deputados do PP e do Ciudadanos, num total de 170 votos.

A liderança do Governo de Espanha era um objetivo de longa data de um dirigente político que chegou à liderança do PSOE e 2014. Pelo meio, Sánchez ainda foi afastado depois de ter falhado um assalto ao Palácio de Moncloa. Chegou a ser indigitado para formar Governo mas o Podemos — o mesmo que agora deu luz verde à queda de Rajoy e ascensão do socialista — chumbou o acordo alcançado entre PSOE e Ciudadanos. Houve um convulsão interna no Partido Socialista, Sánchez perdeu a liderança e renunciou ao seu lugar no Congresso dos Deputados.

Mas seria apenas um interregno. O socialista reconquistaria o poder interno e, esta sexta-feira, daria o golpe final ao PP de Mariano Rajoy, lançando-se assim na liderança de um Governo (o processo de censura pressupõe a nomeação imediata de um novo chefe de executivo) de sustentabilidade frágil. Sánchez tem de somar muitos lugares (o dobro, na verdade) aos seus 84 deputados para conseguir fazer aprovar diplomas. Para onde se deverá virar? Provavelmente, para o mesmo mosaico partidário que lhe permitiu derrubar Mariano Rajoy, num albergue espanhol de sensibilidades políticas que, depois da geringonça portuguesa, já mereceram o epíteto de Governo Frankenstein.