“Sempre que falo com António Costa, aprendo“. A frase é de Pedro Sánchez, a 7 de janeiro de 2016, depois de uma conversa de mais de duas horas com o primeiro-ministro português na sede do PS, no Largo do Rato. Sánchez vendia, então, uma solução “à portuguesa”, em que todos os partidos se unissem para que Mariano Rajoy fosse arredado do poder. Simbolicamente, a sua primeira viagem ao estrangeiro depois das eleições de 20 de dezembro de 2015 foi a Lisboa, apenas 18 dias depois do escrutínio. Apesar de ter ficado em segundo lugar nas eleições, Sánchez acreditava que podia chefiar o Governo e ouvia um elogio de Costa: “Estiveste muito bem [nas eleições].”

O pacto “a la portuguesa” do professor Costa

Nas eleições de dezembro, o PSOE de Sánchez tinha-se ficado pelos 22% contra 28,71% do PP de Mariano Rajoy. O socialista espanhol bateu o pé, recusando-se a dar posse a um governo da direita. Resultado: novas eleições sete meses depois, para tentar resolver o impasse criado. Mas antes desse período, Sánchez procurou uma aliança com todos os “partidos progressistas” que quisessem “mudar de políticas“. Não era bem um acordo de esquerda (mesmo com os deputados do Podemos e da Unidade Popular não haveria maioria à esquerda), mas um acordo que teria de incluir independentistas. Os jornais espanhóis começaram a explicar aos eleitores o que era um “pacto a la portuguesa” – assim lhe chamaram o El Mundo, o ABC ou o noticiário do canal La Sexta.

A vinda de Sánchez a Lisboa deu força a essa ideia. O El País escrevia que Sánchéz viajava até Lisboa à procura de um “conselho” de António Costa sobre como formar uma solução de governo mesmo não sendo o partido mais votado.  Na altura, a equipa da assessoria do líder do PSOE terá vendido aos media espanhóis a ideia de que António Costa falaria ao lado dele numa conferência de imprensa no Largo do Rato. Não falou. O primeiro-ministro português conduziu Sánchez até à sala da conferência de imprensa, mas depois deixou-o a discursar sozinho durante quase 50 minutos.

O palanque de Sánchez dizia “PSOE”, o que sugere que haveria um segundo palanque que dizia “PS” para António Costa falar. Hábil, Costa não quis melindrar Mariano Rajoy e não compareceu, como tinha sido comunicado pelo PSOE, aos jornalistas espanhóis, na conferência de imprensa.

Sánchez já piscava o olho a uma solução do tipo “geringonça” há algum tempo. Durante um encontro com a imprensa internacional, a 27 novembro de 2015, o líder do PSOE defendeu a solução portuguesa: “Em Portugal há um sistema presidencialista diferente do espanhol, mas em termos futebolísticos, a reflexão que faço é: no final quem ganha o campeonato? A equipa que ganha mais jogos, ou a equipa que tem pontos? É a que tem mais pontos“. O Governo de Costa tinha tomado posse seis dias antes.

Sánchez alertava ainda que quem iria decidir o Governo seria o partido que tivesse “maior capacidade de acordo — porque os espanhóis não vão querer mudar uma maioria absoluta por outra maioria absoluta, mas sim por partidos capazes de dialogar e fazer acordos — aquele que tiver maior capacidade de conseguir esses acordos, será o eleito como próximo presidente do Governo.”

O exemplo português de pouco serviu a Sánchez nesta altura. Não conseguiu colocar a geringonça a funcionar, apesar das tentativas de seguir as pisadas de Costa. O Podemos fez uma jogada arriscada: anunciou que estava disponível para fazer parte de um governo com o PSOE, mas Pablo Iglesias teria de ser vice-primeiro-ministro e o partido teria de tutelar importantes pastas no Governo. Depois desta ação do Podemos, Rajoy acabou por recusar o convite do rei Felipe VI para formar Governo.

Atitude diferente teve Pedro Sánchez que, no mês seguinte, aceitou o pedido do rei para tentar formar Governo. A 24 de fevereiro, o PSOE chegou a acordo com o Ciudadanos, o que fez o Podemos e a Unidade Popular (coligação de esquerda) afastar-se do PSOE. Os partidos regionalistas/independentistas também anunciaram estar contra o acordo, que acabou chumbado.

Nessa altura, Rajoy — que tinha defendido a continuidade de Passos no Governo, dizendo que um executivo PS-BE-PCP “seria mau para todos” — ainda chegou enviar farpas a Sanchéz (e a Costa) sobre a ida a Lisboa. Durante o debate de investidura, a 3 de março, onde se discutia a viabilização de um Governo entre PSOE e o Ciudadanos, Rajoy atirou:

O senhor descobriu em Portugal a fórmula milagrosa de afastar o PP. Reconheça que ficou deslumbrado com aquela solução. Deve ter pensado: se outros conseguiram, porque não eu? E a 7 de janeiro foi a Lisboa para perceber como se distorcem resultados eleitorais”.

Nos meses seguintes, o pragmático António Costa estreitou relações com o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, com um objetivo muito claro: impedir sanções da União Europeia contra Portugal e Espanha. Entretanto, Pedro Sánchez, apesar de tentativas frustradas de formar Governo, apresentava-se novamente a votos como candidato do PSOE às eleições gerais de 26 de junho de 2016.

O PSOE teve um derrota estrondosa: o resultado mais baixo de sempre com apenas 84 deputados (já tinha tido apenas 90 eleitos uns meses antes). O PP não conseguiu recuperar a maioria absoluta, embora tenha passado de 123 deputados para 137.

O PP não consegue logo formar Governo, mas continua no poder. Apesar de um acordo com o Ciudadanos em agosto, Rajoy não consegue ser investido. Mas Sánchez vai perdendo força. A 25 de setembro há eleições regionais na Galiza e no País Basco e o PP consegue voltar a ganhar com maioria absoluta as eleições galegas. O PSOE tem resultados desastrosos nas duas regiões. Depois destes maus resultados, vários dirigentes do partido demitiram-se em bloco para provocar a demissão de Pedro Sánchez, o que vem a conretizar-se a 1 de outubro de 2016. Javier Fernández, presidente do Principado das Astúrias, ficou como líder interino e vários deputados do PSOE (68 dos 83 presentes)  abstiveram-se  na investidura de Rajoy, permitindo que o líder do PP tomasse posse. Sánchez afasta-se temporariamente da liderança do partido.

Ganhar as primárias com receita de António Soares. É Costa, cariño

O PSOE acabaria por marcar primárias para maio de 2017 e Sánchez voltou a ser candidato à liderança do partido. Num debate com os outros dois candidatos (Susana Díaz e Patxi López) Pedro Sánchez voltou a defender a “via portuguesa”: “O que estamos a fazer nas Baleares, o que estamos a fazer em Valência e Castilla-La Mancha é o mesmo que António Soares [sic] está a fazer em Portugal e o que defendo para a Espanha“. Apesar das boas relações com Costa, trocou-lhe o apelido.

Sánchez não deu conta do erro e, por isso, não retificou. Os seus adversários também não o corrigiram.  A imprensa acredita que o socialista misturou os nomes do líder socialista português António Costa com o do histórico Mário Soares. Durante o debate, os seus adversários lembraram que já tinha tido essa oportunidade, a de tentar uma solução à portuguesa, entre dezembro de 2015 e junho de 2016, mas que tinha falhado clamorosamente. A presidente da Andaluzia até lhe chamou “perdedor”, lembrando que ficou, por duas vezes, atrás do PP de Rajoy.

O lapso de Sánchez levou a que fosse alvo de várias críticas nas redes sociais, mas o sound bite do debate acabou por ser outro. Enquanto fazia acusações à líder do governo andaluz, Susana Díaz atirou: “No mientas, cariño.”

Sánchez venceu as eleições primárias com 50,21% dos votos, contra Susana Diáz (39,94) e Patxi López (9,85), numa eleição em que participaram 80% dos militantes. A derrota de Díaz foi também a derrota do “aparelho”, que aparentemente controlava e da influência de figuras históricas que defendiam o “velho socialismo” e que tinham à cabeça Felipe González, mas que também Alfonso Guerra e José Luis Zapatero, que tinham estado ao lado de Díaz. Foi o fim da “era González”. Sánchez estava de volta e disse logo qual era o seu principal objetivo: “A demissão de Rajoy”.

Por essa altura, a relação Costa-Rajoy seguia de vento em popa. Os dois chefes de governo faziam questão de sinalizar publicamente o ambiente “excelente” e “amigável” de cada vez que se encontravam. Famílias políticas à parte, Portugal e Espanha cultivavam a boa relação entre os dois países, desde logo porque assim reforçavam o poder negocial em Bruxelas.

Mas esta aproximação estratégica não comprometeu as afinidades naturais entre o PS português e o PSOE. Quando Costa precisou de apoio espanhol, Sanchéz também não lhe falhou. Em Lisboa, o governo tinha acabado de anunciar formalmente a candidatura de Mário Centeno a presidente do Eurogrupo. O executivo espanhol estava ao lado das pretensões portuguesas até porque havia uma moeda para trocar: com a saída de Vítor Constâncio da vice-presidência do BCE, Rajoy apostava no seu ministro da Economia, Luis de Guindos, para o lugar no Conselho do Banco Central Europeu.

Mas com outros socialistas na corrida ao Eurogrupo, era importante um apoio de peso do lado da mesma família política. E o PSOE não podia falhar. Não falhou. No mesmo dia do anúncio da candidatura de Centeno, Sánchez fala aos correspondentes da imprensa portuguesa em Madrid para tirar todas as dúvidas: “Penso que precisamos de um ibérico à frente do Eurogrupo”. Uma declaração a poucas horas da reunião do Partido Socialista Europeu em Lisboa, que viria a confirmar Centeno como o candidato oficial do partido.

Não é “Jeringonza”, é “Frankenstein”

Um dia antes de chegar a Lisboa para o encontro do PSOE, a 30 de Novembro de 2017, Pedro Sánchez falava aos media portugueses e, entre novos elogios ao governo de António Costa (“Está a ser muito positivo e esperançoso, não só para os portugueses, mas também para o conjunto da Península Ibérica e da Europa”), fazia uma previsão relativamente ao seu próprio futuro: “faltam-me dois anos para governar Espanha”. Errou no calendário, mas 6 meses depois aí está ele, finalmente, pronto a assumir as rédeas do governo espanhol – finalmente, porque não se pode dizer que não tenha tentado chegar lá antes. Perdeu duas vezes as eleições, falhou na constituição de uma geringonça “à espanhola”, mas acabou por fazer cair Rajoy na moção de censura apresentada pelo PSOE, a quarta desde o fim da ditadura, a primeira a ser aprovada.

A janela de oportunidade abriu-se no dia 24 de maio, com a sentença do “caso Gürtel”, um complexo esquema de corrupção que fazia chegar dinheiro às mãos de autarcas, membros dos governos regionais e ao próprio Partido Popular. Os dois principais acusados eram o empresário Francisco Correa, que organizava eventos para o PP e candidatava-se a concursos públicos com orçamentos inflacionados que serviam para pagar subornos e, sobretudo, Luís Bárcenas , ex-tesoureiro do PP, escolhido por Rajoy. O caso “Bárcenas”, foi uma das 10 investigações que compunham este processo e a mais perigosa para Mariano Rajoy, pelas ligações diretas ao homem que agora foi sentenciado a 33 anos de prisão por ter gerido um “saco azul” que fez rolar muito dinheiro para o partido.

“Demita-se agora e tudo terminará. O seu tempo já acabou.” As palavras de Pedro Sánchez selavam o destino de Mariano Rajoy, que mesmo assim recusou demitir-se e só saiu com a aprovação da moção de censura. Aos 84 deputados (em 350), o PSOE juntou o apoio da extrema-esquerda, de partidos separatistas e de partidos nacionalistas para superar os 176 votos necessários para fazer cair Rajoy.

No momento em que tudo isto se precipitava, Pedro Sánchez era esperado em Portugal, novamente ao lado de António Costa. Era um dos convidados especiais do 22º congresso do PS, na Batalha. Desta vez, o homem que aproveitava todas as oportunidades para ser visto ao lado do primeiro-ministro português (e que chegaria a Portugal como última paragem de uma mini-tourné europeia que o levou à Alemanha e a Inglaterra), cancelou a visita. Já não precisava de aprender nada, já podia dispensar as manobras de marketing político. Tinha chegado lá.

Sánchez será agora presidente do governo espanhol com um futuro incerto no curto prazo porque, para já, só tem o apoio dos deputados socialistas. Virá aí uma jeringonza? Dificilmente. Desde logo porque em castelhano esta palavra nada tem a ver com o que significa em português – jeringonza significa linguagem de mau-gosto, codificada ou difícil de entender. A imprensa espanhola, que saudou friamente a vitória de Sánchez, preferiu colar-lhe outro cognome: o governo “Frankenstein”.

Apoio certo tem um, o do amigo português António Costa, com quem, de resto, tem já papel assinado a traçar os próximos passos da relação entre Portugal e Espanha. Em meados de Junho de 2015 Sánchez estava em Lisboa e, juntamente com Costa, assinou um documento com propostas de reformas e de compromissos políticos comuns.

Entre as medidas anunciadas no acordo PS/PSOE estava realização de cimeiras ibéricas a cada 6 meses, para discutir a agenda comum, e até a utilização das embaixadas de cada um dos países nos locais onde Portugal e Espanha não estivessem simultaneamente representados.

Na altura, nenhum dos dois, nem Costa nem Sánchez, estavam no poder. Agora hão-se voltar a cruzar-se, desta vez como chefes de governo. Virá aí uma frente ibérica?