Exploração Espacial

À procura de vida em Marte, o cemitério de sondas

As primeiras missões a Marte foram nos anos 60. Apostou-se tudo em encontrar vida, mas sem sucesso. Depois, os cientistas focaram-se em pequenos sinais e foram sendo mais bem sucedidos.

O robô Curiosity percorre o planeta Marte desde 2012 a tirar fotografias e a analisar o solo

NASA

A descoberta de vida em Marte é a notícia mais aguardada do planeta vermelho. Mas ainda não foi desta. Os sinais estão lá, falta saber o que significam exatamente. Sem desistirem de procurar por respostas, os cientistas continuam a preparar e enviar missões espaciais para Marte. Pode ser que nos próximos anos cheguem dados mais conclusivos, mas para isso é preciso conseguir ali fazer pousar os robôs.

As primeiras missões para Marte foram lançadas nos anos 1960. Entre 1964 e 1971, os satélites Mariner conseguiram aproximar-se o suficiente para analisar a atmosfera, estudar os ventos solares e para fotografar a superfície de Marte, mostrando crateras e leitos semelhantes aos dos nossos rios. A possível existência de água — presente ou passada — sempre foi um dos temas de fascínio.

Mas o desejo de encontrar vida era mais forte. E, em 1975, foi lançada a primeira missão com o objetivo específico de procurar vida em Marte. Primeira e única, porque o robô que aterrou no planeta não conseguiu encontrar nada. Mais tarde percebeu-se que mesmo que o solo estivesse cheio de microorganismos, a tecnologia a bordo não permitiria detetá-los.

Depois de um passo maior do que a perna, as missões começaram a ser pensadas para dar passos bem mais pequenos, mas muito mais seguros. É que cada missão demora muito anos a ser preparada e tem custos, literalmente, astronómicos. Assim, as missões seguintes focaram-se nas condições de habitabilidade do planeta (se podia ou não albergar vida): a presença de água — que na Terra é essencial para que exista vida — e solo ou condições geológicas que permitissem proteger a vida que existisse da radiação. E é neste ponto que estamos.

Os passos mais importantes dados na exploração de Marte pela NASA — Mars Exploration Program/NASA

Será que já existiu vida em Marte?

Esta quinta-feira, a NASA (agência espacial norte-americana) conseguiu deixar a comunicação social em alvoroço. Outra vez. Mas Zita Martins, investigadora e professora no Instituto Superior Técnico (Lisboa), diz que “porque é da NASA está a ser mais empolado”. Na verdade, a presença de metano e de moléculas orgânicas no planeta vermelho não são novidade, era algo que já se conhecia. A primeira vez que o robô Curiosity encontrou moléculas orgânicas em Marte remonta já a 2014.

Ainda assim, a astrobióloga reconhece que os resultados trazem alguma informação importante. Como as moléculas orgânicas que foram identificadas na perfuração feita a cinco centímetros de profundidade. Isto não quer dizer que exista vida em Marte, reforça Zita Martins várias vezes durante a conversa com o Observador. No máximo, pode indicar que já existiu vida. Como assim? “Os sinais que deixamos enquanto estamos vivos, são diferentes daqueles que deixamos depois de morrermos”, explica a investigadora. As moléculas agora identificadas pelo robô Curiosity são típicas de organismos que já não estão vivos.

Mas estas moléculas também podem ter outra origem que não a existência de seres vivos em Marte. Há duas origens possíveis para estas moléculas orgânicas, mais uma origem improvável. Primeiro, podem ser de origem biológica, se tiver existido vida. Segundo, podem ter origem não-biológica, se tiverem chegado a Marte transportadas por meteoritos. Por último, e muito menos provável — mas ainda assim possível —, pode resultar de contaminação dos equipamentos e reagentes que o homem manda para Marte há mais de 40 anos.

Para Zita Martins há uma parte desta descoberta que se destaca: o facto de estas moléculas orgânicas terem sido encontradas a uma profundidade de cinco centímetros, quando se pensava que a radiação destruiria tudo o que existisse à superfície. Ainda assim, são um leque reduzido de moléculas. A missão ExoMars, da Agência Espacial Europeia, conta lançar daqui a dois anos um robô que vai fazer perfurações a dois metros de profundidade. Neste caso, e se tiver existido vida em Marte, os investigadores esperam recolher muito mais moléculas orgânicas.

Será que existe vida em Marte?

Para Zita Martins, os resultados agora apresentados não trazem novidades surpreendentes, mas abrem portas a novas possibilidades, indicam que se está no caminho certo para se confirmar se existiu (ou existe) ou não vida em Marte. Para o metano, tal como para as moléculas orgânicas, já se sabia que existia. Os telescópios colocados na Terra ou na órbita do planeta já tinham detetado metano na atmosfera do planeta vermelho.

Primeiro: porque é tão importante a presença deste gás? É que o metano pode ser um produto da atividade dos microorganismos — por exemplo, é produzido pelas bactérias que vivem no nosso intestino. No entanto, o metano pode também resultar de um processo geológico. Pode estar acumulado no interior do planeta há muito tempo e ser agora a ser libertado.

Segundo: qual a importância do que foi agora anunciado? Uma resposta em dois pontos. Por um lado, o metano está sempre presente na atmosfera de Marte. O que não era esperado, porque, com as condições de Marte, a radiação acabaria por destruí-lo, explica a astrobióloga. Se isso não acontece é porque há uma fonte constante de metano para a atmosfera. Por outro lado, os dados foram recolhidos por um longo período de tempo e mostraram que a quantidade de metano na atmosfera vai variando sazonalmente. Isso podia dever-se à radiação, mas as concentrações encontradas indicam que a razão terá de ser outra.

Descobrir a origem do metano (e de outros compostos orgânicos) na atmosfera faz parte da missão ExoMars. O equipamento ExoMars Trace Gas Orbiter que já está na órbita do planeta a recolher informação, deve deverá divulgar os resultados dentro de poucos meses. Se se descobrir que a origem do metano é biológica, então a probabilidade de existir vida em Marte aumenta significativamente. Depois só faltará encontrá-la.

Já existiu água no estado líquido em Marte?

Tal como no caso do metano e no caso das moléculas orgânicas, houve várias missões que foram confirmando a presença de água no passado do planeta. Desde minerais que só se podem formar na presença de água até canais que só se podem ter formado pela escorrência de líquido. E, claro, Marte tem gelo — mas o que interessa mesmo para a vida é água no estado líquido.

A sonda Mars Reconnaissance Orbiter (da NASA) foi enviada com a missão de encontrar água, ou vestígios, no planeta vermelho. Água mesmo ainda não encontrou, mas permitiu que em setembro de 2015 se anunciasse um dos sinais mais próximos da existência de água: os sais hidratados (ou seja, com moléculas de água na sua composição). Estes sais foram encontrados em quatro localizações onde havia sinais de escorrência e reforçaram a ideia de que sazonalmente haja água no estado líquido a escorrer naqueles locais.

Em janeiro deste ano, foi revelado que existem pelo menos oito locais, com profundidades que variam entre um ou dois metros e cem ou mais, que têm gelo. Segundo os autores do trabalho publicado na Science, o gelo será relativamente recente, porque há poucas crateras à superfície nos locais onde foi detetado, e estará a desaparecer pouco a pouco durante os verões marcianos.

Estamos mais perto de enviar o homem para Marte?

Levar humanos para Marte é mais uma estratégia de marketing do que algo que se espere alcançar num futuro próximo, diz Zita Martins. Claro que é melhor ter cientistas no terreno, neste caso no planeta vermelho, do que ter robôs comandados à distância, mas até que isso aconteça ainda vai levar muito tempo. Por enquanto, temos de continuar a esperar que os robôs mandem os dados para a Terra para depois enviarmos os novos comandos para Marte — e isto leva muito tempo.

O homem vai chegar a Marte daqui a 30 anos”, diz Zita Martins, enquanto explica que é uma piada entre quem trabalha na área da exploração espacial. “Independentemente de quanto tempo passe é sempre daqui a 30 anos.”

A astrobióloga explica que antes de pensarmos em enviar humanos para Marte temos de conseguir fazer aterrar os robôs com sucesso. “É que Marte é um cemitério de sondas. Como a atmosfera é muito rarefeita não há mecanismos de desaceleração. É um desafio de engenharia.” Foi o que aconteceu com o Schiaparelli, um robô da ESA que se esborrachou contra a superfície do planeta. Este era apenas um teste, para afinar a tecnologia para quando se quiser fazer pousar uma sonda com sucesso. Umas vez pousados, é preciso que estes robôs sejam capazes de recolher amostras e que sejam capazes de enviá-las de volta à Terra, sem contaminação, para serem analisadas.

No momento em que se pensar em enviar pessoas para Marte, há que garantir que a tecnologia pode enviá-las e trazê-las de volta. Tecnologia essa que ainda não existe, lembra a investigadora. E, ainda mais importante, é preciso garantir que os cientistas que sejam enviados para Marte se mantêm saudáveis. E basta olhar para os astronautas que passam seis meses ou um ano na Estação Espacial Internacional para perceber que ainda há muito trabalho a fazer antes de podermos garantir que têm condições para viverem naquele planeta.

O astronauta norte-americano Scott Kelly, que ficou um ano inteiro na Estação Espacial Internacional, é prova do que pode acontecer: os ossos podem perder até 10% da sua massa original; os músculos ficam reduzidos por não fazerem grandes esforços e não estarem sujeitos à força da gravidade; os líquidos corporais têm dificuldade em ser drenados. E, isto, só para enumerar algumas das coisas que podem acontecer ao corpo. “E não vamos levar humanos para Marte só por diversão”, remata Zita Martins.

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