Por ano são formados perto de 1.500 nadadores-salvadores, mas nem todos procuram trabalho na área e, normalmente, só 20% regressa no ano seguinte às praias, números que, segundo a federação, podem ser alterados através de uma política de incentivos.

O presidente da Federação Portuguesa de Nadadores-Salvadores (Fepons), Alexandre Tadeia, traçou o perfil do nadador-salvador à agência Lusa em Abrantes, durante um dos muitos cursos de formação que são ministrados no país.

Trabalho há, porque, infelizmente, só em média 20% dos nadadores-salvadores é que trabalham um segundo ano”, explicou Alexandre Tadeia, desmistificando a ideia de que há muitos nadadores disponíveis, tendo em conta o número de formandos.

Normalmente, são sobretudo os estudantes universitários quem procura os cursos, mas o presidente da federação reconheceu que, para estes voltarem no ano seguinte, deveria ser mudado o paradigma de contratações, deixando de ser os concessionários de praias os responsáveis e assumindo os municípios esse papel por proporcionarem melhores vínculos laborais.

A contratação através dos concessionários hoje em dia não tem razão de ser. Agora é fundamental que passe a ser pelas autarquias, para ter melhores condições de trabalho para os nadadores-salvadores e termos mais disponíveis para trabalhar. Além de que, sendo a maioria estudantes, devia haver incentivos fiscais e sociais”, sublinhou o dirigente, referindo a isenção de propinas como uma das medidas.

Um nadador-salvador fica apto a ser contratado para trabalhar depois de passar por uma formação de 150 horas — dada normalmente num período de 30 dias, com aulas teóricas e práticas — e por um exame final a cargo do Instituto de Socorros a Náufragos.

No curso, que é válido por três anos e custa cerca de 200 euros, os formandos têm num dia três horas de aulas teóricas e duas na piscina. Depois, há dias em que vão treinar no mar e em praias fluviais.

Os nadadores-salvadores ficam aptos para exercer em qualquer cenário, daí a exigência do curso, referiu Alexandre Tadeia.

“Se passarem [no exame específico] ficam disponíveis para trabalhar em qualquer praia marítima, fluvial ou piscina do país. O curso tem de ser muito vasto para cobrir todas as matérias de vários tipos, incluindo trauma, suporte básico de vida, primeiros-socorros, além do normal salvamento aquático e enquadramento legal”, explicou.

Alexandre Tadeia tem a garantia de que os oito participantes no curso de Abrantes (inscreveram-se 11, dois chumbaram na admissão e um desistiu) querem trabalhar este verão.

A oportunidade de emprego é, em geral, garantida no arranque da época balnear para quem faz os primeiros cursos, já que há muitos nadadores-salvadores estudantes que estão com exames até julho.

“O que é bom para nós, porque estes tiram o curso e querem exercer”, disse o responsável, admitindo que na cidade de Abrantes o número de interessados seja menor do que, por exemplo, numa localidade com universidade por perto.

Carolina, de 19 anos, está a fazer melhoria de nota para entrar na faculdade e seguir uma carreira ligada às artes. Decidiu tirar o curso de nadador-salvador já que desde pequena tem “o bichinho de nadar”, conjugando-o com o facto de “gostar de poder ajudar as pessoas”.

O mais difícil é ter muita informação e temos a noção de que podemos ter de salvar alguém. É uma responsabilidade elevada”, reconheceu a jovem, que quer arranjar trabalho de preferência numa praia marítima.

Já o percurso de Afonso, de 18 anos, é diferente. Entrou para este curso depois de ter recebido uma proposta de trabalho para uma praia fluvial como nadador-salvador: “Como já tinha praticado natação foi juntar o útil ao agradável”.

Afonso qualifica o curso como “um pouco exigente”, já que “são muitas informações ao mesmo tempo”, mas reconhece também que “dentro de água é tudo muito rápido” e tem de ser “executado tudo na perfeição”.

“Temos a noção de que estamos ali para ajudar alguém, isso é o que nos deixa um bocado desconfortáveis, é muita informação, mas está uma pessoa à nossa espera, que a gente consiga resgatá-la”, disse, pretendendo conciliar a atividade com os estudos durante as férias.

João Carlos foge a qualquer estereótipo de nadador-salvador. Tem 50 anos, não possui um corpo atlético, mas “o espírito de jovem” pertence-lhe, daí ter corrido atrás de um desafio.

Tenho dado aulas de natação. Arrisquei, o chumbar está garantido. A nível teórico capto a nível das aulas e depois o pouco tempo que tenho é para estudar. Em relação à parte física, na prova dos 400 metros talvez me consiga aguentar, nos 100 metros os tempos são mais exigentes”, disse.

De qualquer das formas, quer passe ou não no exame, João Carlos, que já teve a experiência de ajudar em duas ocasiões a salvar pessoas de morrerem afogadas, saiu do curso com a sensação de já ter compensado o esforço feito até ao momento e com a aquisição de mais conhecimentos que poderá pôr em prática caso seja necessário.