Religião

Sete momentos da vida do Aga Khan, o príncipe sem reino

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O Aga Khan, de 81 anos, está em Lisboa para encerrar as celebrações do seu jubileu de diamante como líder espiritual da comunidade ismaelita. O título hereditário foi-lhe passado pelo avô aos 20 anos.

Retrato do Aga Khan em 1966, menos de dez anos depois de ter substituído o seu avô

Não fuma, não bebe — considera o álcool o pior de todos os pecados, pior até do que matar um fiel ou adorar falsos ídolos — e é dono de uma considerável fortuna. Não está ao nível de Bill Gates, como disse um dia o próprio, mas a Forbes avalia a fortuna do Aga Khan IV em 800 milhões de euros.

Aos 81 anos, celebra 60 como líder espiritual dos ismaelitas, uma comunidade de cerca de 15 milhões de fiéis espalhada por todo o mundo, e é em Portugal que vai encerrar as comemorações. Quem é então o Aga Khan atual, o quarto a deter o título?

Os primeiros anos de vida

“Foi um choque, mas acho que ninguém na minha situação estaria preparado.”
Aga Khan

Nasceu príncipe, mas não Aga Khan. A 13 de dezembro de 1936, nascia o primogénito do príncipe Ali Khan, um bebé prematuro mas considerado desde logo saudável. O nome? Shah Karim Al Hussaini. Dali para a frente, seria tratado por príncipe Karim. O título Aga Khan IV demoraria 20 anos a juntar-se ao seu nome — a uma velocidade muito mais rápida do que a expectável naquele final de outono, em Genebra, quando a princesa Tajuddawlah olhou o seu filho pela primeira vez.

O príncipe Karim, que tem cidadania britânica, passou a infância em Nairobi, Quénia, onde foi educado por um tutor escolhido pelo avô. Tinha 13 anos quando os seus pais se divorciaram. A separação de Ali e de Joan Yarde-Buller aconteceu porque o príncipe — que deveria usar o título de Aga Khan IV quando o seu pai morresse — conheceu a estrela de Hollywood Rita Hayworth. Pela altura do divórcio, em 1949, Karim tinha dois irmãos. Do primeiro casamento da mãe, com um membro do parlamento britânico, nasceu um rapaz, Patrick Benjamin Guinness. Da união dos seus pais, havia um segundo filho, o príncipe Amyn, nascido com menos de um ano de diferença de Karim.

O príncipe Ali não ficaria sozinho durante muito tempo e no mesmo ano do divórcio, em maio, casava-se com Rita Hayworth, tornando-se o terceiro dos seus cinco maridos. Desta união nasceu (sete meses depois, em dezembro de 1949) a terceira herdeira do príncipe Ali e a sua única filha, a princesa Yasmin.

Apesar de prometer fazê-lo, a atriz norte-americana nunca se converteu ao islamismo. E em 1953 era decretado o divórcio. O príncipe Karim tinha então 17 anos e estava a 36 meses de ver a sua vida mudar para sempre. Nessa altura, já não era um tutor que ensinava em casa o jovem príncipe lado a lado com o irmão. Frequentava o Instituto suíço Le Rosey, o colégio interno mais caro da Europa. Dali, seguiria para a Universidade de Harvard.

Casamento do príncipe Ali com a atriz Rita Hayworth, que em 1949 se tornaria madrasta do futuro Agan Khan IV

De universitário a líder espiritual de 15 milhões

“Para mim, a noção de férias não existe. Tenho de cumprir a minha missão sem cessar até morrer. Um ministro pode ir de férias: alguém assegura o seu trabalho enquanto ele se ausenta. Não é o meu caso. A função de imã está agarrada à minha pessoa: tenho de me entregar completamente à atividade que ela simboliza, tentar apreender tudo o que o intelecto humano consegue lembrar.”
Aga Khan IV

11 de julho de 1957. A família do líder espiritual dos ismaelitas, o Sultão Mohamed Shah, estava de férias em Versoix quando o Aga Khan III, que usava o título desde os 7 anos, morreu. Três meses antes, o príncipe Karim tinha sido chamado abruptamente pelo avô, um homem de 79 anos. “Ele disse apenas ‘vem ver-me’”, contou o Aga Khan numa entrevista à Vanity Fair, em 2013. Karim largou o seu quarto em Harvard e foi a Cannes ter com o avô, “um homem com um intelecto poderoso”.

O príncipe Karim tinha 20 anos, estava no seu primeiro ano de estudos universitários, e todos esperavam que o seu pai se tornasse no 49.º imã dos ismaelitas. O testamento do Aga Khan III foi transportado num cofre de Londres para a Suíça, para ser revelado a toda a família. A vontade do imã era outra:

Desde os tempos do meu antepassado Ali, o primeiro imã, ou seja, durante um período de 1300 anos, foi sempre tradição da nossa família que cada imã escolhesse o seu sucessor sem restrições, entre qualquer um dos seus descendentes, sejam eles seus filhos ou não. Nestas circunstâncias, e tendo em conta as alterações no mundo nos anos recentes, incluindo as descobertas da ciência atómica, estou convencido que é do melhor interesse para a comunidade muçulmana xiita ismaelita que eu seja sucedido por um jovem, criado e educado na nova era, e que, por isso, traz consigo uma nova perspetiva de vida para o seu ofício de imã. Por estas razões, nomeio o meu neto Karim, filho de meu próprio filho, Ali Salomone Khan para me suceder no título de Aga Khan e como imã de todos os seguidores xiitas ismaelitas.”

O Aga Khan III tomou uma decisão inédita: pela primeira vez em 1300 anos de história, o título de imã saltou uma geração. O seu sucessor seria o neto e não o seu filho mais velho, como todos esperavam

A decisão era inédita. Nunca, em 1300 anos de história, o título tinha saltado uma geração. Dali para a frente, o nome a que Karim se habitou a responder durante duas décadas caía para segundo plano. Aga Khan passava a ser o seu título oficial, o quarto da sua linhagem, e a forma como passaria a ser tratado pelos 15 milhões de seguidores, espalhados por 25 países. “O meu avô tinha sido imã por 72 anos, eu tinha apenas 20”, recordou à Vanity Fair.

Quando voltou a Harvard, 18 meses depois, Karim já era Sua Alteza — título concedido pela rainha Isabel II — e não ia sozinho. “Voltei com dois secretários e um assistente pessoaI”, relembra na mesma entrevista, dizendo que toda a situação era vista como uma “grande anedota” no campus.

O regresso à universidade parecia-lhe importante na altura, já que achava que tinha ainda muito para aprender e os seus estudos em História Islâmica eram fundamentais. Apesar disso, sabia que era diferente. “Eu era um caloiro que sabia exatamente qual seria o meu trabalho para o resto da vida.”

E era um caloiro que, nos meses anteriores à sua ascensão ao cargo de imã, tinha uma vida simples. Na sua biografia “The Aga Khans”, Willi Frischauer conta como um colega do príncipe Karim descrevia o jovem que não tinha carro e andava de transportes públicos: “K. Khan era um rapaz encantador com muita sagacidade” e que ficou conhecido como “o tipo que só tinha um par de sapatos”.

“Durante o tempo que o conheci, ele só tinha dois fatos e nunca vi nenhum deles engomado. E tinha duas dúzias de gravatas, mas eram todas da mesma cor.”

Sua Alteza, príncipe e Aga Khan

“Do dia para a noite, a minha vida mudou completamente. Acordei com sérias responsabilidades perante milhões de seres humanos.”
Aga Khan IV

Ao suceder ao seu avô, o Aga Khan IV tornou-se o líder espiritual dos ismaelitas, um ramo dos muçulmanos xiitas. As estimativas dizem que existem 15 milhões espalhados por 25 nações. A maioria vive em países asiáticos e africanos, como Paquistão, Afeganistão, Tajiquistão, Irão, Índia, Síria, Iémen, Omã ou Bahrein. Nos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido há também grandes comunidades ismaelitas. Em Portugal, serão cerca de oito mil.

Esta comunidade reconhece em quem usa o título hereditário de Aga Khan a autoridade espiritual do profeta Maomé, já que se acredita que é descendente direto do último profeta do Islão. No caso do príncipe Karim, a sua linhagem descende de Hazrat ‘Ali ibn Abi Talib, primo e genro de Maomé, cujo califado durou de 656 a 661. Isto faz dele uma espécie de semideus na terra, embora o Aga Khan sempre tenha recusado ser considerado como uma divindade.

Para além de ser o atual Aga Khan, Shah Karim Al Hussaini é também príncipe, título que recebeu no dia do seu nascimento, já que todos os imãs ismaelitas se intitulam, a eles próprios e à sua família, de príncipes e princesas. Embora não faltem à família numerosas propriedades em diferentes países, possuindo até uma ilha privada, a verdade é que o Aga Khan não é chefe de nenhum Estado. O título nobiliárquico foi herdado de um antepassado distante que reinou durante o século XVIII: Fath Ali Shah, o segundo xá do Império Qajar, que governou de 1797 até à sua morte, em 1834.

Foi este xá da Pérsia quem entregou o título ao primeiro Aga Khan, Hasan Ali Shah (1800-1881), pelos serviços prestados, ao mesmo tempo que lhe dava a mão da sua filha. É dessa linhagem que vem o direito dos imãs de usar o título de príncipe da casa real da Pérsia. Já o de Sua Alteza foi concedido ao atual Aga Khan pela rainha de Inglaterra, Isabel II, logo após a morte do seu avô, em 1957. Ao contrário dos restantes, este título não é hereditário.

O Aga Khan com a rainha Isabel II no Castelo de Windsor em março de 2018, de quem é um velho amigo. Foi a monarca britânica quem lhe concedeu o título de Sua Alteza, duas semanas depois de se ter tornado o 49.º imã dos ismaelitas

Dois casamentos, dois divórcios

“Nunca casaria com uma mulher que acreditasse não me poder ajudar. Espero reorganizar a minha vida de forma a ter mais algum tempo para a minha mulher e os meus filhos, mas nunca às custas da comunidade.”
Aga Khan IV

Dois casamentos, quatro filhos, 79 milhões de euros para os divórcios. Em 1969, doze anos depois de ter recebido o título de Aga Khan, o líder espiritual dos ismaelitas casou-se pela primeira vez com uma jovem de 29 anos, praticamente da sua idade. Sarah Frances Croker-Poole, uma modela britânica nascida em Nova Deli, converteu-se ao islamismo e passou a adotar o título de Sua Alteza Begum Aga Khan — begum é um título aristocrático reservado a mulheres. Durante os 25 anos que esteve casado com a princesa Salimah, o Aga Khan e Sally — como era tratada em privado — tiveram três filhos, uma rapariga e dois rapazes.

Deste primeiro divórcio, discreto, pouco se sabe. O montante que o Aga Khan terá pago à mulher também não é público, mas a imprensa internacional colocou a fasquia nos 22 milhões de euros. A este valor, juntam-se mais 30 milhões em jóias.

A separação deixou o líder espiritual sozinho durante três anos. Em 1998, o Aga Khan, com 62, conheceu uma alemã, de 35 anos, que tinha tido uma breve carreira como cantora pop, e que já trazia para o casamento o título de princesa. Anos antes, Gabriele Renate Homey casara com o seu primeiro príncipe, o alemão Karl Emich de Leiningen, que pretendia ter direito ao trono do Império Russo, embora a monarquia russa tenha sido abolida em 1917. Gabriele converteu-se ao islamismo e, com a ajuda do então noivo, escolheu o seu futuro nome: Inaara. Depois do casamento, passou a ser tratada por Begum Inaara Aga Khan.

O segundo casamento ficou longe de rivalizar em tempo com o primeiro. Em 2004, o casal, que entretanto tivera um filho, o quarto do Aga Khan, anunciou o divórcio. O motivo? O príncipe, muitas vezes retratado pela imprensa ocidental como um playboy, terá tido um caso extraconjugal. Gabriele chegou a contratar um detetive privado para seguir o marido nas suas frequentes viagens ao redor do globo e perceber que tipo de relação mantinha com uma hospedeira de bordo.

O que se seguiu foram 10 anos de uma batalha legal nos tribunais londrinos e depois nos franceses, onde os advogados do marido esperavam conseguir pagar um valor menor do que aquele que Gabriele reivindicava. A fatura final foi de 57 milhões de euros e muita tinta na imprensa tablóide.

A falta de tempo que o Aga Khan sempre assumiu ter para a família também não terá ajudado a manter os dois casamentos. Numa entrevista dada em 1979, ainda durante o seu casamento com Sally, o príncipe assumia que as suas responsabilidades para com a comunidade o afastavam durante muito tempo de casa. “O fardo do trabalho e das viagens é muito pesado. Por isso, embora seja muito afortunado por ter uma mulher e filhos maravilhosos, não posso passar tanto tempo com eles como desejaria”, disse ao Sunday Telegraph Magazine.

O Aga Khan IV com a mulher Salimah e o segundo filho do casal, o príncipe Rahim, em 1971

Dos quatro filhos do Aga Khan, é expectável que saia o herdeiro do título. O seu filho mais novo, o príncipe Ali, tem 18 anos, mas os três mais velhos têm todos mais de 40 anos e trabalham na fundação do pai. Apesar de a mais velha ser a princesa Zahra (nascida em 1970), acredita-se que o escolhido será o príncipe Rahim, já que sendo mulher Zahra não pode ser a líder espiritual. Resta ainda o príncipe Hussain. Sobre as especulações sobre quem será o Aga Khan V, o atual detentor do título diz apenas que esse nome só será conhecido depois da sua morte.

Em 2008, depois de um acidente de esqui que deixou o príncipe de 71 anos em mau estado físico, e o obrigou a um internamento hospitalar, muito se especulou sobre se seria ou não Rahim a sucedê-lo. Mas tudo o que a imprensa encontrou do lado do Aga Khan foi uma parede de silêncio.

Nesse mesmo ano, numa entrevista ao Público, o líder espiritual era questionado sobre a hipótese de um dia uma mulher ser imã dos ismaelitas. A resposta não deixa margem para dúvidas: “Absolutamente não. Mas as mulheres na nossa sociedade são capazes de ter um papel de liderança. Zahra estudou em Harvard, tem trabalhado no sentido de ajudar a criar capacidades em várias partes do mundo. É a primeira mulher na minha família com educação universitária e eu esperaria que as gerações futuras se referissem tanto aos homens como às mulheres. Não quero que se entenda que as mulheres não são valorizadas. As mulheres são muito, muito valorizadas. Se olhar para a história do Islão, Khadija, a primeira mulher do profeta, teve um papel extremamente importante, tanto na vida da sua fé como na vida do seu mundo.”

O Aga Khan acompanhado da segunda mulher, Inaara, em 2000. Na imagem vê-se também o jockey Johnny Murtagh com Sinndar, um puro-sangue do príncipe Karim, depois de vencer uma prova em Paris

Um líder espiritual que também trata do bem-estar físico

“Eu, como imã dos ismaelitas, tenho responsabilidade e suprema autoridade sobre a comunidade. Isto significa dar o exemplo na prática da religião, mas também envolver-me em atividades que melhorem a qualidade de vida dos ismaelitas e ajudar qualquer ismaelita do mundo em dificuldades.”
Aga Khan

O papel do Aga Khan é muito diferente do de um líder espiritual cristão. As suas obrigações não são apenas as de guiar espiritualmente os ismaelitas. É esperado que tudo faça para melhorar as condições de vida da sua comunidade e daqueles que vivem à sua volta, já que a divisão entre vida espiritual e física não existe no Islão. Promover a imagem dos muçulmanos, desfazer mal-entendidos sobre o Islão ou ensinar o lado esotérico do Corão estão no seu rol de tarefas.

Em 1967 criou a Fundação Aga Khan com objetivos que têm tanto de claros como de ambiciosos: acabar com a fome, a pobreza, a iliteracia e a falta de saúde nas regiões mais pobres do mundo. Esse foi só o primeiro passo, num longo caminho de edificação de infraestruturas para o ajudarem a criar um mundo melhor. Desde então, nasceram as Academias e a Universidade Aga Khan, e a Universidade da Ásia Central, abertas a qualquer pessoa que queira estudar nestas escolas de excelência. Outra organização fundamental, e onde trabalham os seus três filhos mais velhos, é a Rede Aga Khan para o Desenvolvimento. Todos os anos, ajuda 2 milhões de alunos nos seus estudos, desde o pré-escolar até à universidade, leva cuidados de saúde a 5 milhões de pessoas e ajuda a fornecer eletricidade a 10 milhões.

Não admira que o avô do Aga Khan tenha dito um dia:

Os meus deveres são bem mais vastos do que os do Papa. Ele só tem de se preocupar com o bem-estar espiritual do seu rebanho.”

Apesar deste trabalho em prol do desenvolvimento, recusa o carimbo de filantropo. Para o Aga Khan, a responsabilidade pelo bem-estar da sua comunidade está acima de tudo, até da família. “O Islão tem um conjunto de orientações muito forte sobre como ajudar as pessoas, diferente (não melhores ou menos boas) das do mundo cristão. Por exemplo, no Islão não usamos a expressão filantropia ou caridade”, explicou numa entrevista de 2008 ao Público.

A riqueza, os cavalos e o iate

“Não fico afetado pelas insinuações de que vivo uma vida ocidental luxuriosa enquanto a maioria dos ismaelitas vive em países em desenvolvimento. São apenas insultos de tablóides. A imprensa séria conhece o meu trabalho e aquilo que já conseguimos fazer em muitos países.”
Aga Khan

Em 1960, o príncipe Ali morreu num acidente de viação nos arredores de Paris. A morte do seu pai trouxe um novo desafio ao Aga Khan. “Quando o meu pai morreu, eu e os meus três irmãos ficamos a braços com uma tradição de família da qual nenhum de nós sabia nada.” O príncipe Karim referia-se à Aga Khan Stud, o negócio de criação de cavalos de corrida, que está na família há mais de um século, e de onde saem alguns dos mais famosos puros-sangue do mundo. “Nunca vi nenhum interesse naquilo”, disse à Vanity Fair em 2013. Em Harvard, conta, não lhe ensinaram nada sobre criação de puros-sangue, e o negócio era uma total surpresa para si.

“Foi uma decisão muito difícil a de continuar. Há três gerações que o negócio era bem-sucedido. Se a quarta geração fizesse asneira… era um risco que tinha de correr”, explicou então. Este negócio nada tinha a ver com as suas responsabilidades no imamato, mas o Aga Khan decidiu comprar a parte dos irmãos e arriscar-se na gestão do negócio. A aposta correu bem e é hoje a principal fonte da sua riqueza — não é a única, também detém uma importante cadeia de hotéis e outros negócios — e a sua fortuna foi avaliada pela Forbes em 800 milhões de euros em 2008.

Hoje é habitual ver o Aga Khan nas corridas de cavalos e não falha o Prix de Diane, em França, onde se disputa um dos mais importantes títulos da modalidade. “Acabei por aprender a adorar o desporto. É muito excitante, um desafio constante. De cada vez que me sento para criar um cavalo, é como um jogo de xadrez com a natureza.”

Em 1982, na companhia da primeira mulher, o Aga Khan assiste a uma corrida de cavalos em Paris

A demonstrar esse amor, está a escolha do nome do seu superluxuoso iate que demorou 13 anos a estar pronto e custou 50 milhões de euros. Foi batizado de Alamshar, um puro sangue que ganhou 7 das 9 corridas em que entrou durante a sua carreira nas pistas de cavalos entre setembro de 2002 e setembro de 2003.

Mas esta é a sua riqueza pessoal e de onde várias vezes saiu dinheiro para ser injetado na fundação do imamato. Este é financiado através de dízimos: cada um dos fiéis tem a obrigação de entregar ao imã entre 10 e 12% dos seus rendimentos.

“A receita do imamato é entregue pela comunidade ao imã. Ele tem a responsabilidade de gerir essa receita. Eu diria que 98% desses fundos — na verdade, muito mais do que 98%, provavelmente 150% — volta para a comunidade. Ou seja, o imamato gasta muitas vezes mais do que realmente tem”, disse numa entrevista em 1979 à rádio BBC.

Aga Khan chega às corridas de cavalos de Ascot, em 2006. A criação de puros-sangue é o negócio de família há mais de um século. Apesar de pouco saber sobre o assunto, depois da morte do seu pai, o príncipe Karim pegou nas rédeas do negócio, que continuou a prosperar, e que é hoje a principal fonte da sua riqueza pessoal

Um workaholic que foge da imprensa

“Não temos o conceito de que acumular riqueza seja mau. O que conta é a forma como ela é usada. A ética islâmica diz-nos que se Deus te deu a capacidade ou a boa sorte de seres um privilegiado, então tens uma responsabilidade moral perante a sociedade.”
Aga Khan

Por esta altura da sua vida, o Aga Khan é quase um recluso. Um amigo próximo, citado pela Vanity Fair, usa a expressão para descrevê-lo e acrescenta: “Ele está a tornar-se uma espécie de Howard Hughes. Vê muito poucas pessoas.”

Esta decisão do Aga Khan não acontece por acaso. Se por um lado é visto como um workaholic, também é retratado pela imprensa tablóide como alguém com gostos caros, e que adora estar na companhia de mulheres bonitas, como o seu pai. “O Karim é maníaco com o trabalho. Nunca bebe ou fuma, é extremamente preciso, sério e trabalhador”, conta um outro amigo à mesma revista, também sob anonimato.

As precauções já vêm de trás. Em 1964, o Aga Khan explicava à Sports Illustrated os cuidados que tinha no seu dia-a-dia para manter a privacidade. “Tomo todo o tipo de precauções quando saio com os meus amigos. Aprendi a não mostrar qualquer tipo de emoções em lugares públicos. Nunca me sento ao lado de uma mulher com quem a imprensa esteja a tentar ligar-me. Aqui em Gstaad, às vezes vou a um bistrô porque o proprietário não permite que ninguém tire fotos dentro do estabelecimento. Deixei de ir a alguns sítios em Paris porque descobri que avisavam a imprensa da minha presença. Sei que posso parecer radical neste assunto, mas o meu correio já foi roubado, os meus empregados subornados. Até amigos próximos me tiraram fotografias em minha casa e depois venderam-nas à imprensa. Já fui chantageado pelo telefone. Tudo o que desejo é que a minha vida privada seja respeitada. É pedir de mais?”

De facto, Willi Frischauer, o seu biógrafo, conta no livro “The Aga Khans” um episódio passado em Paris que mostra a avidez que as colunas de mexericos têm sobre a vida do príncipe. Numa das raras noites em que o Aga Khan decidiu visitar uma discoteca parisiense, foi visto a dançar com uma rapariga atraente. Os paparazzi não pouparam os flashes e a notícia do dia seguinte era de que tinha sido descoberta a sua nova namorada. Na verdade, a jovem era a sua irmã Yasmin, filha de Rita Hayworth.

Em 1998, o Aga Khan discursa perante uma multidão de ismaelitas da comunidade do vale de Bartang Valley, no Tajiquistão

Como é então o dia do líder espiritual dos ismaelitas? Muito menos glamouroso do que os tablóides querem fazer crer. Por duas vezes, a primeira em 1965, a segunda em 1994, o Aga Khan descreveu o início do seu dia da mesma maneira: acorda às 6h da manhã, toma um pequeno-almoço rápido, e imediatamente começa a trabalhar.

Tento trabalhar das 7h da manhã até às 10h. Depois, chega a minha secretária e trabalhamos até às 11h30, meio-dia. A seguir tenho encontros para resolver uma série de problemas. Depois almoço, normalmente em casa, porque não saio muito. Não gosto muito de sair. À tarde tenho mais reuniões e, em seguida, continuo a trabalhar com a minha secretária. À noite, depende… ou continuo a trabalhar ou saio com amigos. Mas nos últimos dois ou três anos raramente saio. Se começo a trabalhar cedo não posso estar acordado até às 4h da manhã”, disse à Paris Match em 1994.

A esta rotina junta-se uma outra. A necessidade de dar várias voltas ao globo durante o ano no jato privado que comprou para visitar a comunidade espalhada pelo mundo. Para além disso, tem de estar disponível para reuniões de trabalho até mesmo ao fim de semana.

“Os nossos escritórios estão abertos os sete dias da semana, porque para nós muçulmanos o domingo corresponde à sexta-feira. Tenho de estar disponível ao fim de semana para receber visitas institucionais. E há as visitas oficiais aos mais de 20 países onde vive a minha comunidade, o que me mantém em movimento de um ano para o outro. Faço cerca de 600 horas de voo por ano”, explicou na mesma entrevista.

A resposta dada a um entrevistador do The Sunday Times em 1965, que perguntou ao Aga Khan se costumava sair à noite, mantém-se, por todos estes motivos, atual: “Não seja ridículo. Não posso. Estou muito cansado. O ano passado, por exemplo, não vi nenhuma peça de teatro e só fui uma vez ao cinema.”

Com o quadro que Aga Khan pinta em diversas entrevistas, tudo leva a crer que a sua vida acaba por ser solitária. Numa entrevista à revista Elle, diz que não tem tempo para pensar em si:

“Qualquer pessoa que enfrente uma situação difícil sente uma certa solidão. Mas os meus dias são ocupados. Não tenho tempo para pensar em mim mesmo. Tenho momentos de cansaço, de preocupação, mas sem sentir o abandono. Estou comprometido com o que faço. Tenho de pesar, refletir, tomar decisões sábias. Mas com os meus conselheiros, escapo do isolamento. A responsabilidade é um fardo que amamos. Recebi do meu avô pesadas responsabilidades, mas elas não pesam, não são um fardo. É um prazer dedicar-me à comunidade, trabalhar para as pessoas.”

O Aga Khan despede-se da comunidade ismaelita, depois de uma visita a Nova Deli, Índia, em 1983

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