“O meu trabalho é permitir que as pessoas sonhem. Fazer o impossível parecer possível”. Estas foram as palavras ditas por Gareth Southgate, selecionador inglês, à partida para o Mundial da Rússia. E bem que podiam ser uma espécie de mantra, de frase motivacional colada nas paredes do balneário. Falar da seleção inglesa é falar de impossíveis – do quão impossível parecia, há um mês, uma equipa de miúdos andar na luta com graúdos pelo troféu de melhor do mundo.

Mas esteve. Esta quarta-feira, a formação dos Três Leões acabou por perder a última vaga na final de 15 de julho diante da Croácia mas acabou por ficar um legado. E muito graças ao homem que disse querer fazer sonhar os ingleses. Gareth Southgate, que já tinha treinado a seleção inglesa de Sub-21, pegou nos jovens para revolucionar uma equipa que andava demasiado longe das grandes decisões para o estatuto de crónica candidata que tinha. O selecionador juntou todos os “cacos”, construiu a terceira formação mais jovem da prova e que partia para a Rússia com uma média de apenas 19 internacionalizações por jogador. Do Mundial de 2010, não restava ninguém; do Brasil 2014, apenas cinco – Gary Cahill, Phil Jones, Jordan Henderson, Raheem Sterling e Danny Welbeck. Southgate acredita que este continuará a ser o momento dos jovens; e os jovens não duvidam que este continuará o seu momento. Que parecia escrito nas estrelas, pelo menos para jogadores, treinadores e dirigentes que se cruzaram no caminho dos 23 convocados, e que foram ouvidos pelo jornal britânico The Telegraph.

Trent Alexander-Arnold, o miúdo que fazia tudo para ganhar

O lateral de 19 anos nunca tinha estado na seleção sénior quando soube que estava convocado para a Rússia. Surpresa para muitos, mas não para quem bem o conhece. “Vendo-o jogar na temporada passada, isto não me surpreende nem um pouco. Ele tornou-se um exemplo para todos os jogadores da academia do Liverpool e isso é responsabilidade de todos os treinadores de lá. Fazem com que o ambiente seja duro, mas divertido ao mesmo tempo, e faz-nos estar preparados para dar o próximo passo”, conta Ben Woodburn, colega de Alexander-Arnold desde as camadas jovens dos reds – alinharam juntos, pela primeira vez, nos Sub-16. “Tínhamos uma grande equipa sob o comando de Pep Ljinders e só perdemos uma vez nessa temporada. O Trent fazia qualquer coisa para ganhar. Era um capitão que se irritava com facilidade, mas já se acalmou um pouco desde aí”, acrescenta.

Woodburn recorda ainda as palavras ditas ao companheiro antes de embarcar para a Rússia. “Disse-lhe: ‘Tenta marcar pelo teu país tão rapidamente como eu o fiz pelo País de Gales'”. E garante que já falou por FaceTime com o jogador durante o Mundial. “Conversámos sobre o Love Island [reality show britânico]. Ele parece estar a gostar de lá estar”.

Dele Alli, o talento com a bola nos pés

Dan Micciche, diretor da academia do MK Dons, onde Dele Alli alinhou por seis temporadas, lembra as habilidades do jogador, nem sempre compreendidas no futebol inglês (Pete Norton/Getty Images)

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Dan Micciche, diretor adjunto da academia do MK Dons, não se esquece da primeira vez que viu Dele Alli jogar. “Foi num jogo contra o Tottenham. Ele tinha 11 anos e destacou-se imediatamente como um jogador que arrisca. Ele fazia túneis aos adversários, picava a bola por cima das cabeças deles em espaços reduzidos. Não se vê muito disso no futebol de academia, mas ele fazia. E se a habilidade não corresse bem, isso não o afetava”, conta.

Dele Alli é supersticioso e usa fitas nos joelhos sem precisar. Mas já houve quem pusesse o destino do jogo numa pastilha

O responsável pela academia – e que acabou por ser treinador do médio durante cinco anos – recorda ainda um jogo com o Carlton, nos Sub-15. “Estava lá um olheiro da seleção. Ele pegou na minha ficha de jogo quase como se me fosse fazer um favor. No dia seguinte, ligou-me a perguntar por quatro ou cinco jogadores e o Dele Alli era um deles”. Apesar disso, nem sempre o estilo do médio foi compreendido. “O tipo de jogador que ele é – especialmente com todos aqueles túneis – nem sempre é levado a sério no futebol inglês. Mas no MK Dons encorajamos isso”.

Jack Butland, “o melhor guarda-redes em Inglaterra”

O guardião de 25 anos assinou há cinco temporadas com o Stoke City (embora com alguns empréstimos pelo meio) e Peter Coates, presidente do clube, recorda ao The Telegraph a sua contratação. “Ainda não tinha dado provas, mas os nossos olheiros deram-lhe uma classificação altíssima e não tiveram dúvidas de que seria uma grande contratação”. O dirigente considera ainda que, na temporada de 2015/16, que “foi excelente”, Butland provou ser “o melhor guarda-redes em Inglaterra”.

“Penso que teve apenas algum azar com a lesão no tornozelo, perdêmo-lo por um ano”, lamenta ainda Peter Coates, que exalta as qualidades do jogador. “É um super miúdo, muito inteligente e um bom jogador de equipa”, remata.

Gary Cahill, o “diamante” do Burnley

“Gary Cahill merece tudo de bom que possa estar no seu caminho”, diz Steve Cotterill, que treinou o jogador no Aston Villa, antes de brilhar no Chelsea. (GEOFF ROBINS/AFP/Getty Images)

Gary Cahill é dos poucos experientes nesta equipa de miúdos. O central de 32 anos passou as últimas sete temporadas no Chelsea, mas agora vamos falar-lhe de um período beeeeem lá para trás: época 2004/05. O jogador, então com 18 anos, pertencia aos quadros do Aston Villa e tinha sido emprestado ao Burnley por uma época. “A academia do Aston Villa tinha uma grande reputação, de dar aos jogadores uma educação rígida e, no caso do Gary, isso claramente funcionou”, conta Steve Cotterill, técnico que apadrinhou a estreia do jogador no clube.

O treinador acredita que Cahill era um “diamante” quando chegou ao Burnley, mas que amadureceu a jogar no Championship, uma liga bem mais dura do que as das camadas jovens. Cotterill quis contratar o jogador de forma definitiva, mas o dinheiro exigido pelo Aston Villa bloqueou o negócio. “Ele já era um jogador de topo com aquela idade e só melhorou. Merece tudo de bom que possa estar no seu caminho”, remata.

Fabian Delph, o médio com sentido de humor

O médio do Manchester City tinha um hábito curioso. Sempre que passava pelos olheiros depois dos jogos, costumava dizer-lhes: “Fabian Delph, decorem o nome!”. Quem o conta é Paul Jewell, que recomendou o jogador à academia do Leeds United. Parece que a estratégia, eventualmente, lá resultou.

“Ele sempre teve um apurado sentido de humor mas, mais importante do que isso, sempre foi um bom médio”, acrescenta Jewell. “Por aquela altura, eu era diretor no Bradford e recomendei-o ao Leeds. Foi o começo para ele e o seu progresso, desde então, foi notável”.

Eric Dier, o central da qualidade física

Eric Dier foi o único dos 23 ingleses que já alinhou em Portugal. Cumpriu nove anos no Sporting, antes de ingressar no Tottenham (FRANCISCO LEONG/AFP/Getty Images)

Eric Dier é o único dos 23 que já passou por Portugal – fez a formação toda no Sporting. Foi lá que encontrou Marco Silva, que o treinou na equipa principal. “Recebi o Eric muito jovem, mas, logo no início da pré-temporada, percebi que ele iria jogar ao mais alto nível. Tinha uma grande qualidade física e habilidade técnica para a sua idade e um grande sentido de profissionalismo. Tinha uma excelente relação com os seus colegas e com o staff“, lembra o treinador português, ao serviço do Everton.

Para o antigo técnico do Sporting, só houve um problema: “Não conseguirmos mantê-lo no clube porque ele tinha uma ambição enorme de voltar ao Reino Unido e jogar na Premier League, por isso o clube teve de vendê-lo”.

Jordan Henderson, a sede “insaciável” de vencer

O médio de 28 anos lá leva sete anos ao serviço do Liverpool, mas tudo começou no Sunderland, onde fez a formação. Foi lá que os destinos de Jordan Henderson e Steve Bruce (que integrava a estrutura do futebol) se cruzaram. “A primeira vez que o vi, na pré-temporada, gostei dele. Era um grande miúdo, com uma personalidade fantástica, com uma sede insaciável de vencer. Isso marcou-me desde a primeira vez em que coloquei os olhos nele”, sublinha.

A ambição era o fio condutor de todas as ações. “Tudo o que ele fazia no treino, fosse uma corrida ou um remate, ele queria ganhar”, concretiza. “Ele era este rapaz, que encorajava os outros, levando-os consigo. Lancei-o no Sunderland e ele nunca mais saiu da equipa. É um daqueles jogadores que todos os treinadores querem, porque vão para a cama na noite antes do jogo e sabem o que vão ter daquele jogador no dia seguinte”. Além da ambição, Bruce ressalta a paixão de jogar. “Na carreira profissional, tem o mesmo entusiasmo que tinha com oito anos”. É por isso que consegue ser eficaz, mesmo não sendo particularmente habilidoso. “Não faz truques com a bola nem tem grande velocidade, mas faz sempre o máximo com o que tem”.

Phil Jones, o central que começou como extremo

Antes de ser treinado por José Mourinho no Manchester United, Phil Jones representou o Blackburn, onde é lembrado como um jogador de mentalidade forte (Laurence Griffiths/Getty Images)

A história não é inédita: jogadores que jogam recuados no campo, mas que começaram lá na frente. O caso de Phil Jones é mais um desses. “Quando Steve Nixon, que é hoje responsável de scouting no Newcastle, o descobriu, ele jogava como extremo direito, mas mudámo-lo para médio centro e, depois, para central”, recorda Gary Bowyer, que treinou o jogador nas camadas jovens do Blackburn, onde passou quatro anos, antes dos sete que já leva no Manchester United.

O técnico sublinha que o ponto forte de Jones está na cabeça. “O que salta à vista no Phil é a sua mentalidade e a forma como quer melhorar a cada dia”. Bowyer recorda ainda a fornada de jogadores criados no Blackburn, naquele tempo. “Tínhamos uma boa geração, com o Phil e o Grant Hanley, que era a nossa dupla de centrais, Jason Lowe e o Josh Morris. Mas aqueles dois em particular – Phil e Grant – eram homens a jogar futebol de formação”.

Harry Kane, o avançado que queria sempre aprender

É o melhor marcador do Mundial, com seis golos apontados até ao momento. E quem conhece bem o jogador, acredita que não é por acaso. Tim Sherwood, responsável de futebol no Tottenham, clube onde o avançado de 24 anos fez praticamente toda a carreira (com alguns empréstimos à mistura), recorda os primeiros tempos com o jogador. “O Harry era fisicamente forte e sabíamos que podia ficar maior porque o seu pai, Pat, era um homem grande”, refere. “Penso que nascemos com força e velocidade; a habilidade e a técnica aprendem-se. E o Harry é um ótimo aluno”, remata.

Para aprender, Harry não tinha medo de perguntar. “Ele queria saber tudo e não tinha medo de fazer perguntas. Queria saber por que razão lhe estávamos a pedir para fazer as coisas. Fazer perguntas, para um jovem futebolista, não é uma fraqueza, é uma coisa boa”. considera. Sherwood lembra ainda o dia em que Barry Hearn, conhecido promotor de eventos inglês, ofereceu uma viagem a Las Vegas ao plantel. “Perguntou-me se podia ir. Disse-lhe que claro que sim. Mesmo de férias, eu sabia que ele ia treinar todos os dias”.

Jesse Lingard, o ‘baixinho’ que ficava nervoso nos jogos

McGuiness, treinador na formação do Manchester United, lembra os nervos de Lingard nos primeiros jogos pelos red devils (Brendon Thorne/Getty Images)

A história do futebol – e de outros desportos, diga-se –, é feita de muitos casos em que a altura é uma barreira. No caso de Lingard (que tem hoje 1,74m), não foi bem assim e por isso está onde está. O avançado de 25 anos fez toda a formação no Manchester United, onde ainda atua hoje, e foi lá que conheceu o treinador Paul McGuinness. “Ele desenvolveu-se tarde, o que significava que era muito mais pequeno do que a maioria dos seus adversários e dos seus colegas de equipa. Mas sempre tentámos dar-lhe confiança nele próprio, fazendo-o entender que ser pequeno podia ser uma vantagem – veja-se Messi ou Modric. O Jesse tinha de pensar mais rápido, mover-se mais rápido, e isso ajudava-o a desenvolver o seu estilo”, conta o técnico.

McGuinness lembra ainda uma meia final da Taça de Inglaterra em versão jovem, que o avançado disputou em 2011. “Ele estava nervoso, era um jogo tremendo, jogado em Stamford Bridge. Só tinham passado cinco minutos, quando caiu – e o médico correu para ele”, relata. “Quando voltou, perguntei-lhe se o Jesse se tinha magoado, mas ele respondeu: ‘Não, só ficou enjoado no campo, como fica tão nervoso…’. Ele recuperou daquilo, marcou um golo e depois saiu-se muito bem na final”, conclui.

Ruben Loftus-Cheek, o médio que via vídeos de Frank Lampard

Tal como Lingard, também Ruben Loftus-Cheek teve alguns problemas com o corpo – mas neste caso foi ao contrário. Aos 14 anos, começou a ter surtos de crescimento, o que fazia com os seus músculos também se desenvolvessem à velocidade da luz nesses picos. Resultado: acumulava tensões, sobretudo nas costas – o que o tornava mais suscetível a lesões e cansaço.

“Aos 17 anos, tínhamos dúvidas se ia conseguir aguentar 90 minutos”, lembra Adi Viveash, treinador do médio nas camadas jovens do Chelsea. “Mas, como ele tinha alguns períodos em que não podia jogar, ele fazia muito trabalho de casa. Passava o tempo a ver vídeos do Frank Lampard e isso ajudou muito a estimular o seu cérebro, que é, definitivamente, de elite, em termos futebolísticos”.

Harry Maguire, o central com a cabeça no sítio

O técnico do Leicester, Craig Shakespeare, recorda a primeira conversa com Maguire e elogia a postura interessada do jogador (Shaun Botterill/Getty Images)

A última temporada de Maguire foi passada no Leicester sob o comando de Craig Shakespeare, técnico que se seguiu ao campeão Claudio Ranieri. O treinador dos foxes recorda o primeiro encontro com o jogador, ainda antes de arrancar a época. “Almoçámos e expliquei-lhe os planos do clube, o que pensava dele e como podíamos melhorar. Ele realmente cresceu aos meus olhos naquela reunião, com todas as questões que me colocou sobre o estilo de jogo e os planos do Leicester, enquanto clube. Pensei que este miúdo podia ir longe”, conta o técnico.

“Ele estava de férias com a família, eu também, e aquele lanche selou o nosso acordo. Ele chegou com humildade, mas com o desejo de aprender e melhorar sempre. É ótimo no balneário e conquistou-o desde o dia 1″, remata.

Jordan Pickford, o jovem mais confiante do que a maioria dos jovens

O jovem guarda-redes fez praticamente toda a carreira no Sunderland mas, em 2011/12, foi emprestado ao Darlington – clube que foi, entretanto, extinto. Foi lá que conheceu Craig Liddle, seu treinador, que recorda as capacidades do atleta, então com 17 anos. “Penso que esperamos sempre que pessoas como o Jordan vão longe na vida e se tornem os melhores, mas nunca sabemos como vai correr. Aos 17 anos, ele parecia muito capaz. Claro que ficamos sempre um pouco preocupados de atirar rapazes tão jovens às feras, mas ele sempre foi muito confiante e adaptou-se muito bem”.

Pickford: o herói inglês que pode ter sido ajudado por uma garrafa de água

“Ele cometeu erros, mas temos sempre de esperar isso de um jogador jovem. O mais impressionante era a forma como ele nunca deixava o erro incomodá-lo. E fazia defesas de reflexo fantásticas. Tinha muita confiança nas suas capacidades e isso é impressionante em alguém tão jovem”, sublinha Craig Liddle.

Nick Pope, o guarda-redes que faz lembrar Schmeichel

Deve ser uma questão de guarda-redes, mas quando se fala de Nick Pope é também a confiança que vem à baila como uma das qualidades. Mas há mais. Richard Wilkins, que treinou o jogador entre 2009 e 2011, quando representou o Bury Town, dá exemplos. “O Nick era muito confiante e descontraído. Era um pouco desengonçado, mas não como o Bambi no gelo”, conta, com humor.

“Ele não se preocupava com a sua aparência ou com ter umas luvas apelativas; ele apenas se preocupava em fazer defesas. É para isso que um guarda-redes está lá e ele não fazia dramas, não levantava problemas”, resume Town. E há até um histórico guarda-redes que lhe vem à memória quando pensa em Nick Pope – e que é um velho conhecido do futebol português. “Era um pouco como Schmeichel na medida em que tanto defende com a perna, como com a anca”.

Marcus Rashford, o virtuoso humilde

Rashford é daqueles jogadores que não enganam – quando tem uma bola nos pés, sabe o que fazer com ela. Pelo menos é assim que o recorda Mark Gaynord, antigo treinador no Fletcher Moss Rangers. “O que mais me impressionou no Marcus foi a sua naturalidade com o futebol. Ele podia fazer as voltas do Maradona, as fintas do Ronaldo, as voltas do Cruyff. Não tinha de lhe ensinar, como fazia com os outros jogadores”, diz.

Mas o que torna tudo tão especial, para o técnico, é o facto de a arte com os pés não lhe subir à cabeça. “Ele sempre foi muito rápido e habilidoso, mas era muito humilde com tudo o que fazia. Víamos muitos rapazes que não se calavam quando marcavam um golo, mas o Marcus não era assim. Os outros treinadores paravam e diziam: ‘Quem é aquele rapaz? Onde é que o foram buscar?'”.

Danny Rose, o lateral esquerdo “no topo da lista”

Harry Redknapp treinou Danny Rose no Tottenham e não tem dúvidas de que o jogador poderia alinhar em qualquer clube do mundo (Henry Browne/Getty Images)

Quando Harry Redknapp, treinador no Tottenham, pôs os olhos em cima de Danny Rose, percebeu logo que o jogador estava a alinhar fora da posição. “Ele tinha jogado muitos jogos na seleção inglesa de Sub-21 como extremo, mas sempre pensei que devia ser lateral esquerdo. Devo ter-lhe dito umas 100 vezes: ‘Vais jogar pela Inglaterra como lateral esquerdo’. Achava que ele era o melhor lateral esquerdo no país e penso que ainda é”, sustenta.

O treinador está tão convicto do que diz que não tem dúvidas de que o jogador caberia em qualquer clube. “Se o Tottenham fosse vender o Danny, e se algum clube precisasse de um lateral esquerdo  e não quero saber se é o Real Madrid – o Danny tem de estar no topo da lista. Ele pode jogar em qualquer lado”, remata.

Raheem Sterling, o miúdo que chorava quando era repreendido

Antes de bilhar pelo Manchester City, Sterling era um miúdo sensível, que chorava quando era repreendido no Brent, clube da infância. (Catherine Ivill/Getty Images)

O avançado não teve dificuldades em ser o melhor jogador do plantel de Sub-11 do Brent, clube daquele bairro londrino. O problema veio depois. “Quando ele tinha 10, 11 anos, descobrimos um problema. Ele não aguentava ser repreendido. Ficava muito sensível e começava a chorar”, conta George Lappas, treinador de Sterling na altura. Um dia, num jogo, o avançado levou alguns pontapés dos colegas; vai daí, abandonou o campo e regressou com os bolsos cheios de pedras, para atirar aos colegas.

Raheem Sterling. O miúdo que lavava casas de banho e apanhava três autocarros para treinar

“Ficámos chocados mas, ao falarmos com ele, descobrimos pela primeira vez a história do seu pai [que foi assassinado quando Sterling tinha apenas dois anos]. Sentimos que se o expulsássemos da equipa isso ia torná-lo vulnerável a más influências. Além disso, ele gostava tanto do futebol… Decidimos suspendê-lo por quatro jogos e dar-lhe quatro trabalhos de casa”, relata o técnico, que pormenoriza: “O primeiro era uma lista de atributos do seu futebolista perfeito. O segundo, discutir porque é que esses atributos eram importantes. O terceiro, como é que ele cabia nesses atributos e, finalmente, discutir o que podíamos fazer para melhorar”.

Durante os quatro jogos de suspensão, Sterling nunca deixou de apoiar os colegas. E quando voltou, era outro. “Brilhante dentro e fora de campo. Nunca mais teve problemas”.

John Stones, a vitória do caráter

Há jogadores que não enganam: nota-se logo que são especiais. Foi esta a sensação que teve Keith Hill, antigo diretor do Barnsley, quando conheceu John Stones. “Tinha tudo a ver com a sua personalidade: tudo era orientado para a carreira e tinha uma grande mentalidade vencedora. Foi o seu caráter excecional que o fez destacar-se”, considera.

O futebol, para o jogador, era tudo, já na infância; por isso a dedicação era total. “O John é discípulo do jogo. Quer aprender, melhorar, tem este desejo desde muito novo, e tem os pés no chão, apesar de ser tão talentoso. Não há arrogância”, sintetiza. “Sabíamos que tínhamos um Rolls Royce dos jogadores. Era uma questão de o tratar bem e garantir que não ficava exposto demais”. Ambição desportiva há muita; financeira nem por isso. “Para ele, tudo tem a ver com vencer. No final da carreira, ele quer contar medalhas, não moedas”.

Kieran Trippier, o jogador que pensa como treinador

Aos nove anos, já eram muito evidentes as qualidades de Kieran Trippier. Steve Eyre, treinador do defesa no Manchester City, onde passou dez anos na formação, não tem dúvidas. “Era um dos melhores jogadores. Era virtuoso, talentoso e tinha um remate inacreditável”, recorda. “Aos 12 anos, os jogadores começam a jogar em campos grandes. Ele teve, subitamente, mais espaço e esteve à altura do desafio”.

Steve Eyre destaca ainda outro pormenor do defesa. “Ele compreendia o jogo pelos olhos do treinador. Também copiava o diálogo dos treinadores, como falávamos para o resto da equipa, e acabava por ser um aliado do técnico no campo”.

Jamie Vardy, da fábrica para o estrelato

Jamie Vardy é um caso raro no futebol: estreou-se como profissional apenas aos 24 anos, no Fleetwood Town, e suscitou dúvidas nos responsáveis do clube (Michael Regan/Getty Images)

Vardy é um caso de estudo pela forma como contraria todas as normas de como se deve formar um jogador de futebol. Até aos 24 anos, trabalhava numa fábrica. E só com essa idade se tornou profissional, no Fleetwood Town. Andy Pilley era o presidente e lembra-se bem da chegada do jogador. “O grande problema, para o clube, era se ele podia vingar num clube profissional. Ele tinha marcado muitos golos contra canalizadores, carteiros e eletricistas; será que conseguiria fazê-lo contra jogadores profissionais”?.

O tempo encarregou-se de responder a essa pergunta. “Na Conference [escalão inferior inglês],foi até demasiado fácil. Ele era excecionalmente rápido, cru e a sua finalização era letal. Ele fez-nos subir de divisão e penso que teríamos chegado à segunda liga se ele tivesse ficado”, especula.

Kyle Walker, o miúdo que gostava de fazer habilidades com a bola

Ainda antes de Kyle Walker entrar na formação do Sheffield United, onde passou seis temporadas, fez parte do Football Unites, Racism Divides – um projeto de inclusão social e juvenil que usa o futebol como ferramenta para vencer o racismo. Howard Holmes era o seu mentor nesse projeto e recorda um miúdo que “tinha habilidade e que estava sempre a querer mostrar truques com a bola”.

A experiência marcou o jogador – apesar dos sete anos que tinha na altura. De tal forma, que fez questão de oferecer a Howard um bilhete para o Colômbia-Inglaterra, jogo dos oitavos de final deste Mundial. “Consegui o bilhete 15 minutos antes. Quando cheguei ao relvado, as equipas já estavam a alinhar-se. O Kyle estava mesmo à minha frente a rezar, a olhar para o céu, e eu a gritar para ele ‘Kyle, consegui o bilhete!’. Mas ele estava ocupado a preparar-se para jogar. Sei que no final do jogo perguntou à mãe se eu tinha conseguido. Não há muitos futebolistas que façam isto”, diz.

Danny Welbeck, o bom feitio do grupo

No Manchester United (onde passou 13 temporadas, embora com dois empréstimos pelo meio), Welbeck desde cedo deixou boa impressão, como jogador e não só. “Sempre foi um jovem amoroso, um grande jogador, fácil de lidar, de se dar com todos os grupos, grato por todo o apoio que tinha”, lembra Dave Bushell, responsável pela educação dos jovens jogadores nos red devils.

“Ele manteve-se sempre em contacto – vem de uma família maravilhosa”, sublinha Bushell, que recorda uma mensagem enviada pelo jogador poucas semanas antes do Campeonato do Mundo. “Agora é que começa o trabalho a sério, Dave”, escreveu o avançado. “Ele demonstrou muito caráter quando voltou à seleção para jogar o Mundial depois das lesões”, reforça o responsável do United.

Ashley Young, o jogador esforçado e que ajudava os mais fracos

Andy Braithwaite, antigo professor de Educação Física de Ashley Young, não tem dúvidas: “Em 30 anos de ensino, nunca vi um jogador mais apaixonado por jogar pela equipa da escola”. Foi no John Henry Newman School que a paixão do futebol se abateu sobre Ashley, um miúdo “calmo” e “um pouco mais desenvolvido do que os colegas”, considera o professor. “Ele era de longe o melhor daquele ano a nível técnico, mas, devido à baixa estatura física, muitas vezes não se conseguia destacar como devia”.

Questão que se foi resolvendo ao longo dos anos em que Young alinhou nos torneios escolares. “Quando chegou aos 16 anos, já era um jogador fabuloso. A sua atitude nas aulas era excelente, trabalhava muito e ajudava os jogadores mais fracos”, acrescenta Andy Braithwaite.