A Lacticoop, cooperativa associada à Lactogal, disse este sábado que não está a indemnizar os produtores de leite que querem deixar de produzir e esclareceu que a implementação de mecanismos de controlo da oferta justificam-se com as “oscilações” do mercado.

“A Lacticoop não está a indemnizar produtores que queiram deixar de produzir […]. Com o fim do regime das quotas leiteiras a produção de leite cresceu de forma acentuada sem o respetivo aumento da procura de produtos lácteos. Este aumento da oferta de matéria-prima no mercado resultou em sucessivas reduções no preço de leite pela pressão que os excedentes colocaram à indústria para escoamento da matéria-prima recebida”, disse o Conselho de Administração da Lacticoop, em resposta à Lusa.

De acordo com a Lacticoop – União de Cooperativas de entre Douro e Mondego, face a este cenário, em 2015, as cooperativas decidiram implementar “um mecanismo alternativo ao controlo da oferta de matéria-prima” para evitar descidas no preço do leite.

“Apesar do modelo implementado apresentar benefícios por ser idêntico a um ‘sistema de quotas’ acabou por sofrer do mesmo problema que o regime anterior. As quantidades contratualizadas entre a indústria e as cooperativas mantiveram-se inalteradas desde 2016 […]. Foi então que em Março de 2018 as Cooperativas aceitaram implementar um plano de redução das quantidades entregues na Lactogal em 60 milhões de litros de leite, uma redução de cerca 7% aos valores contratualizados que se mantinham inalterados desde 2016, nos 865 milhões de litros de leite”, indicou.

A Lacticoop esclareceu ainda que as quantidades entregues pelas cooperativas à Lactogal em 2016 foram de 855 milhões de litros e em 2017 de 857 milhões de litros.

Segundo a união de cooperativas, a gestão das quantidades contratualizadas é “independente” à Lactogal e cada cooperativa tem o seu próprio modelo de gestão e programação, frisando que a redução de 60 milhões de litros é para ser atingida até ao final de 2019.

“A Lacticoop defende que a Lactogal deverá considerar como estratégico o escoamento da matéria-prima das suas acionistas e estas deverão tomar medidas de controlo da produção de forma a mitigar as volatilidades no mercado de leite contribuindo assim para a estabilidade e sustentabilidade do setor”, concluiu.

O Jornal de Notícias (JN) avançou na sexta-feira que a Lactogal está a pagar aos produtores para desistirem de fornecer leite.

Já o presidente da Associação dos Produtores de Leite de Portugal (Aprolep), Jorge Oliveira, disse à Lusa, no mesmo dia, que a Lactogal baixou, na terça-feira, em um cêntimo o valor pago por litro de leite aos produtores, pouco após ter incentivado o setor a aderir a um resgate de leite (fim do fornecimento) ou redução dos contratos.

“A Lactogal tem excesso de produção […] e optaram por incentivar a diminuição da produção em cerca de 60 milhões de litros de leite. Estas medidas foram tomadas para ajudar a que o leite que ficava [cerca de 820 milhões de litros] fosse mais valorizado”, indicou.

De acordo com Jorge Oliveira, cerca de 100 produtores aceitaram parar o fornecimento, recebendo compensações de 20 cêntimos por litro, ou diminuído os contratos e auferindo compensações de 15 cêntimos por litro, mantendo o preço pago ao produtor nos 31 cêntimos.

No entanto, na terça-feira foram “surpreendidos” com o anúncio por parte da empresa de que receberiam menos um cêntimo por litro.

Decisão que irá levar a que o leite seja vendido “abaixo do preço de produção”.

Segundo o presidente da Aprolep, o excedente de produção da empresa deve-se à perda de alguns contratos em Espanha, devido a medidas defensivas como a rotulagem de origem do leite.

Face a este cenário, a Aprolep apelou à intervenção de Bruxelas para que sejam introduzidas medidas para regular a produção.

Questionado pela Lusa, à data, o Ministério da Agricultura disse estar “legalmente impedido” de interferir nas operações de gestão da Lactogal.