Bonnie Parker e Clyde Barrow conheceram-se em 1929. Separados primeiro pela prisão dele e depois pela prisão dela, iniciaram em 1932 dois anos de assaltos e assassinatos que só terminariam com a morte dos dois. O fim do “Romeu e Julieta do crime”, como eram apelidados pela imprensa da época, esteve durante décadas envolto em grande incerteza e relatos díspares: uns diziam que Bonnie e Clyde tinham resistido e disparado, outros garantiam que o casal nem sequer se apercebeu do que se estava a passar.

Só agora, mais de 80 anos depois, é que algumas fotografias revelam um pouco mais sobre a operação que terminou com a morte do casal de criminosos. A exposição “Photographs Do Not Bend”, inaugurada na semana passada numa galeria do Texas, inclui várias fotografias que deixam perceber a violência do ataque a Bonnie e Clyde – pelas dezenas de marcas de bala no carro onde viajavam – e a forma visível como os dois jovens criminosos ficaram descaracterizados.

Bonnie e Clyde a brincar com uma das espingardas militares que utilizavam nos assaltos

Bonnie e Clyde conheceram-se no estado norte-americano do Texas quando ela tinha 29 anos e ele 30. Cada um encontrou no outro a resposta para sobreviver à Grande Depressão que tinha acabado de começar. Ao longo de dois anos de assassinatos, assaltos e fugas, conquistaram os Estados Unidos: eram idolatrados como estrelas de cinema apesar de nunca terem demonstrado grande receio de carregar no gatilho e matar quem estivesse a incomodar. Vistos como dois símbolos da luta contra o “terrível Estado opressor”, tornaram-se ícones da cultura popular norte-americana antes ainda de morrer.

O aspeto físico ajudava: no livro “The Lives and Times of Bonnie & Clyde”, E. R. Miller descreve Bonnie como “uma beleza de cabelo loiro avermelhado” com faces suaves e sardas, a quem só faltavam alguns centímetros para ser uma atriz de cinema (media apenas 1,52 metros). Já Clyde é descrito como um “rapaz atraente de cabelo castanho e olhos castanhos” que vestia normalmente um fato cinzento com riscas largas.

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Ao volante de um Ford V8 roubado e armados com armas automáticas Browning, armamento pesado que também roubaram a militares, tornaram-se os maiores inimigos das autoridades norte-americanas, que começaram a considerar impossível apanhá-los. Entre assaltos e homicídios, chegaram a conseguir libertar cinco presos da cadeia de Eastham, no Texas. Em 1934, completamente desesperados, os polícias texanos decidiram entregar a perseguição do casal a Frank Hamer, um ranger com cinquenta anos e 1,82 metros de altura.

Bonnie junto ao V8 que o casal roubou e onde viveu durante algum tempo

O agente elaborou um intrincado plano para apanhar o casal de criminosos. O primeiro passo era o mais complicado: convencer um dos cúmplices de Bonnie e Clyde a colaborar com a polícia. O escolhido foi Henry Methvin, também ele um criminoso, que aceitou o perdão de todos os crimes que tinha cometido no estado do Texas em troca de informações sobre os dois amigos. O informador contou a Hamer que o casal fazia várias viagens entre o centro do Texas e a quinta da família Methvin, no Louisiana.

O ranger montou uma equipa com outros cinco destacados polícias – do Texas e do Louisiana – e esperaram entre os arbustos que ladeavam a auto-estrada que ligava os dois estados durante dois dias. Grande parte dos escritores que contaram a história do dia em que Bonnie e Clyde foram finalmente apanhados garantem que os cinco polícias se desentenderam várias vezes sobre a abordagem a aplicar: os agentes do Louisiana queriam dar ao casal a oportunidade de se renderem, enquanto os texanos defendiam uma entrada a matar. Literalmente.

Ganhou a visão de Frank Hamer. A 23 de maio de 1934, os cinco polícias intercetaram o carro do pai de Henry Methvin, que viajava à frente do casal, e obrigaram-no a parar o carro na berma da estrada. Minutos depois, apareciam Bonnie e Clyde ao volante do famoso V8 cinzento. Pareciam tudo menos assassinos: ela comia uma sandes no lugar do pendura, ele conduzia descalço. No carro traziam quatro espingardas de utilização militar, uma pistola e uma caixa com dez a doze armas diferentes. Quando viram o carro do pai de Methvin parado, encostaram. Para Frank Hamer e companhia, era o momento de atacar.

O V8 cinzento de Bonnie e Clyde depois do tiroteio

Os seis polícias dispararam uma torrente de tiros e uma das balas atingiu Clyde diretamente na cabeça. Morreu instantaneamente. Assim que perdeu a consciência, o carro começou a descair e os agentes achavam que Bonnie, ainda viva, estava a tentar fugir. Quando se aproximaram do carro, Bonnie só gritava. Frank Hamer disparou dois tiros à queima roupa e matou a mulher de 34 anos. Mais tarde, explicou porque é que não hesitou: “Odeio rebentar a cabeça a uma mulher, especialmente quando está sentada, mas se não tivesse sido ela, tínhamos sido nós”.

Às nove e um quarto da manhã, a operação tinha acabado. Alguns historiadores garantem que o tiroteio durou apenas 16 segundos, outros dizem que se estendeu até aos dois minutos. A mesma incerteza permanece em relação aos tiros: há quem diga que Bonnie e Clyde tinham mais de 50 ferimentos de bala cada um e há quem defenda que juntos não ultrapassavam os 40. A cena do crime tornou-se um autêntico circo e centenas de pessoas acorreram ao local para ver o casal morto. Pouco depois, um camião levou o carro e os corpos para uma cidade ali perto para que fossem preparados os enterros: aos funerais compareceram centenas de pessoas, tal e qual como se fossem estrelas de cinema.