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Dos “atos ilícitos” ao “conflito e perda de valor”: a resposta do Sporting à providência de Bruno de Carvalho

Sporting respondeu à providência cautelar apresentada pelo ex-líder Bruno de Carvalho explicando não só o desprovimento de razão mas também as consequências que teria no adensar da crise do clube.

Marta Soares, presidente da Mesa, ladeado por Artur Torres Pereira e Sousa Cintra, líderes da Comissão de Gestão e da SAD

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Cumprindo os termos de resposta em causa, o Sporting enviou esta terça-feira a resposta à providência cautelar interposta por Bruno de Carvalho e que tinha levado o antigo presidente destituído em Assembleia Geral a “reclamar” a liderança do clube e da SAD, por entender que a reunião magna em que a sua saída foi sufragada por mais de 15 mil sócios não será válida.

Ao longo de 266 pontos, os leões tentam desconstruir “uma amálgama de argumentos – na sua maioria incompreensíveis, vertidos num articulado de leitura desafiante – que tanto parecem sindicar a supra referida decisão da Comissão de Fiscalização de suspensão da qualidade de sócios dos Requerentes, como atingir pessoalmente o Senhor Presidente da Mesa da Assembleia Geral, os membros da Comissão de Fiscalização, atirando para o ar, sem qualquer concretização, precisão ou demonstração fáctica, supostos conflitos e putativas irregularidades”, como explica o documento a que o Observador teve acesso. E, logo no início, é feito um resumo daquele que foi “de longe, a mais grave crise da sua história, com contornos de verdadeira destruição da sua imagem institucional e patrimonial que não deixou nenhum português indiferente”.

“A demissão de um conjunto vasto de membros de todos os órgãos sociais; a rescisão de vários jogadores (de especial valor desportivo e representativo) dos respetivos contratos de trabalho, alegando justa causa, no seguimento das agressões de que foram vítimas em instalações do clube por milícias organizadas e dos sucessivos ataques verbais do presidente do Conselho Diretivo e aqui 1.º Requerente (muitos deles públicos) dirigidos em múltiplas ocasiões; as suspeitas que recaem sobre o clube em casos de corrupção, que, aliás, já determinaram a detenção de funcionários, com aplicação de medidas de coação; o ambiente de intimidação alimentado por aquele que era o Conselho Diretivo do clube (composto, entre outros, pelos Requerentes), para permanecer a qualquer custo à frente dos destinos do Sporting”, são alguns dos pontos focados, antes de condenar também o que aconteceu depois da decisão de destituir a Direção tomada em Assembleia Geral pelos sócios.

“A partir do momento em que tiveram conhecimento da referida decisão e dos termos da convocatória, os Requerentes [n.d.r. neste caso, e além do antigo líder verde e branco Bruno de Carvalho, Alexandre Godinho, antigo vogal da Direção que foi também suspenso de sócio por dez meses] e os restantes membros do então Conselho Diretivo do Requerido, ao arrepio de princípios e regras mínimas de autogoverno democrático, iniciaram uma vasta e programada sequência de ações e omissões destinadas a sabotar o regular funcionamento dos órgãos sociais, designadamente da assembleia geral, a qual se manifesta numa sequência ordenada de gravíssimos atos ilícitos e violadores dos estatutos”, diz, acrescentando: “Os Requerentes, incapazes de aceitar a revogação dos seus mandatos, vêm agora, através do presente procedimento cautelar, procurar continuar a entorpecer o processo de recuperação de imagem e da gestão do Sporting, nomeadamente as eleições de 8 de setembro próximo para os novos órgãos sociais para o Sporting”.

“Nos últimos meses e até à sua suspensão e destituição causou ao Sporting elevados danos à sua imagem e perda dos seus principais ativos ou seja dos jogadores que procederam à rescisão por justa causa dos seus contratos e que objetivamente a eventual suspensão da deliberação tomada colocará novamente o clube requerido numa situação de incerteza, de conflito interno e de perda de valor”, aponta a resposta leonina à providência, antes de destacar que “a suspensão da deliberação de revogação, com justa causa, do mandato dos membros do anterior Conselho Diretivo do Requerido, aprovada por 71,36 % dos votos favoráveis dos associados do Requerido, traria incalculáveis prejuízos, económicos e reputacionais, a um clube que já se encontra ainda fragilizado pelos atos e omissões danosas praticados justamente pelos Requerentes”.

O documento recorda também tudo o que se passou antes da realização da Assembleia Geral, fosse a nível desportivo com a equipa desde o encontro de Madrid, a contar para a primeira mão dos quartos da Liga Europa, fosse a nível institucional, numa guerra aberta entre Conselho Diretivo e Mesa da Assembleia Geral, nomeadamente o seu presidente, Jaime Marta Soares, que, “apesar de ter manifestado junto de determinados órgãos de comunicação social que estava demissionário no dia dos ataques em Alcochete, não apresentou a sua renúncia ao Presidente do Conselho Fiscal e Disciplinar, mantendo-se assim em funções”. Em paralelo, coloca o enfoque em dois pontos: por um lado, o prazo para requerer a suspensão das deliberações sociais teria terminado a 3 de julho e o procedimento cautelar sob resposta foi instaurado apenas no dia 4; por outro, e como a suspensão da condição equivale a retirar o efeito qualitativo de “sócio efetivo”, a própria providência perde “razão e objeto possível”.

Colocando também a ata notarial como argumentação, a resposta do Sporting alega ainda que a chegada de Bruno de Carvalho ao Altice Arena por volta das 19h deve ser traduzido como “um gesto meramente teatral”, na medida em que, se o objetivo fosse responder às imputações feitas, não chegaria ao recinto quase cinco horas depois do início da reunião magna. “[Aparece] o 1.º Requerente como o ‘bom samaritano’ que apenas quer preservar a integridade do clube, quando todos os atos que acima se sumariaram, por aquele praticados com o aval dos restantes membros do Conselho Diretivo, levaram em tempo recorde a uma clara e abissal fragmentação da camada associativa do Requerido, à perda de patrocínios e investidores e ainda à rescisão em massa de jogadores de elevado valor para o plantel, algo nunca antes visto em 112 anos de história do Requerido”, defende, salientando ainda que, “essa ocorrência hipotética traria consequências ruinosas para o Requerido, a potencial paralisação da sua gestão, existência simultânea de órgãos de direção a degladiar-se, a violação das deliberações da Comissão de Fiscalização, entre outras”, até por não se conseguir vislumbrar um fim neste braço de ferro.

Por fim, é referido ainda que o dano seria superior ao interesse caso fosse dada razão neste particular a Bruno de Carvalho, na medida em que o mesmo poderia por exemplo colocar em causa a revogação das rescisões de contrato de alguns jogadores, “o que poderá provocar novos prejuízos ao Requerido, para além dos que já suportou com as rescisões não revertidas, da ordem das muitas dezenas de milhões de euros”.

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