Os machos das marinhas (Syngnathus abaster), uma espécie aparentada dos cavalos-marinhos, preferem fêmeas maiores. Até aqui, nada de especial. O problema é que, mesmo depois de acasalarem com uma bela fêmea, se se cruzarem com uma fêmea maior e mais atraente, “esquecem tudo” e vão atrás dela. Os investigadores chamaram-lhe efeito “mulher de vermelho”, como no filme com o mesmo nome de Gene Wilder.

“Na verdade, o nome surgiu ainda a experiência não havia sido começada. Cresci com os filmes do Gene Wilder  e lembro-me de, nos anos 1980, também ficar arrebatado com a beleza da ‘Mulher de Vermelho'”, confessa ao Observador Nuno Monteiro, investigador no Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio) da Universidade do Porto. “A escolha não podia ser outra. O filme mostrava em humanos o que nós queríamos testar nas marinhas: Será que bastaria ver uma fêmea sexy para um macho reequacionar tudo?”

Teddy Pierce (Gene Wilder) tinha uma vida feliz com a mulher Didi (Judith Ivey) e os filhos, até se cruzar com uma mulher de vestido vermelho, Charlotte (Kelly LeBrock). A modelo não lhe saía da cabeça e ele estava disposto a tudo para a conhecer. Na experiência da equipa de Nuno Monteiro, os machos também tinham uma parceira aparentemente perfeita. Até uma fêmea maior lhes ser apresentada e descurarem as crias (ainda antes destas nascerem). Os resultados foram publicados na revista científica Proceedings of the Royal Society B (link ainda não está disponível).

Nas marinhas, como nos cavalos-marinhos, é o macho que engravida. Isto quer dizer que as fêmeas transferem os ovos para a bolsa do macho. É dentro da bolsa que se dá a fecundação e que os embriões crescem, como se de um útero de mamífero se tratasse. Os machos que, como Teddy Pierce, ficam ofuscados com uma fêmea mais sexy, acabam por abortar uma grande parte dos embriões. E os embriões que sobrevivem não crescem tanto como seria esperado. Os investigadores pensam que isto seja uma forma de poupar recursos para uma próxima cópula, potencialmente com a nova fêmea atraente. Nesta poupança de recursos, não só o macho não investe no crescimento dos embriões, como reabsorve também parte dos nutrientes usados com os embriões abortados.

Cópula de marinhas (Syngnathus abaster). A fêmea transfere os ovos para a bolsa do macho que estremece para ajeitar os ovos no interior. Este vídeo não corresponde às cópulas da experiência — Karine Silva

Nos anos 1950, a investigadora britânica Hilda Bruce já tinha demonstrado, em laboratório, que as fêmeas de rato prenhas abortavam quando colocadas na mesma instalação que outros machos adultos. Este efeito Bruce foi mais tarde descrito em leoas, éguas e fêmeas de gelada (uma espécie de primata). Nestes casos, abortar também serve para poupar recursos, mas porque é conhecido que os novos machos no grupo, aqueles que assumem a liderança, matam as crias que não são suas (infanticídio). O infanticídio faz com que as fêmeas entrem novamente no cio e o novo líder possa ter a sua própria descendência. No caso das marinhas, não foi verificado este tipo de infanticídio (embora exista canibalismo), mas a espécie também não demonstra cuidados parentais (progenitores que cuidam das crias) depois do parto, como acontece nas espécies de mamíferos.

É a primeira vez que se observa um efeito como este fora do grupo dos mamíferos, com a particularidade de aqui existir um macho prenho. No entanto, já havia suspeitas que a reprodução desta espécie pudesse ter características especiais. Um trabalho anterior, publicado na revista Nature, tinha demonstrado que os machos que já tinham acasalado com fêmeas grandes produziam menos embriões quando, depois, acasalavam com fêmeas mais pequenas. Mais uma vez, punha-se a hipótese de se tratar de uma poupança de recursos para investir num acasalamento com uma fêmea grande e vistosa.

Parto de uma espécie de marinha, diferente da que esteve na origem deste estudo, partilhado pela Poseidon Aquatics, uma empresa que vende peixes de aquário

Desde o mestrado e, depois, durante o doutoramento, Nuno Monteiro estuda várias espécies de marinhas, em particular as mais comuns no Norte de Portugal (Nerophis lumbriciformis e Syngnathus abaster). “Na altura fiquei fascinado com o fenómeno de gravidez masculina e a reversão dos papéis sexuais”, conta o investigador. Durante muito tempo julgou-se que a seleção sexual acontecida antes da cópula, com as fêmeas (ou, neste caso, os machos) a escolherem os parceiros que lhes pareciam mais fortes, mais vistosos ou melhor adaptados. Mas a investigação tem demonstrado que existe seleção sexual pós-cópula. “Sempre imaginei que, dada a complexidade do fenómeno da gravidez masculina, deveria existir algum mecanismo de seleção sexual pós-cópula que ainda não havia sido descoberto.”

“Se um macho tem a capacidade de exportar nutrientes para os embriões em desenvolvimento no marsúpio [bolsa], deveria ter também a capacidade de o modular, caso isso fosse benéfico em termos de sucesso reprodutivo”, acrescentou o investigador.

No futuro, Nuno Monteiro quer compreender com detalhe o efeito “mulher de vermelho”, como os picos hormonais e os genes a serem expressos ou reprimidos quando comparados com uma gravidez normal. Mas para isso precisa de financiamento. Coisa que não tem sido fácil. Foi exatamente por não ter conseguido financiamento em 2010 e 2011 (e agora em 2018) que a equipa teve de limitar o projeto de investigação àquilo que era possível fazer sem apoios.

Mas por que é importante estudar a reprodução deste grupo de animais? “Essa é uma pergunta difícil de responder, para a qual nunca estamos preparados”, admite o investigador. “Em termos de biologia evolutiva, é importante a descoberta de um novo mecanismo de seleção”, refere, pensando na importância que tem para a ciência. Mas acrescenta que a gravidez dos peixes machos tem muitas semelhanças com as dos mamíferos com placenta, como o homem, incluindo no tipo de genes envolvidos. “Estas criaturas podem ser modelos muito interessantes para uma nova visão sobre a gravidez e desenvolvimento.”