É um regresso à sua “prática vivida” como líder do PSD, nos Governos de António Guterres, que leva Marcelo Rebelo de Sousa a dispensar papéis e assinaturas e fotografias para a posteridade numa eventual reedição da “geringonça” — tenha o termo o significado que tiver depois das legislativas de 2019. Numa entrevista conduzida pelo jornalista Daniel Oliveira para o podcast “Perguntar não ofende”, o Presidente da República ainda explicou por que vive bem sem acordos escritos: “As dúvidas que se podiam formular” sobre essa forma de selar entendimentos entre vários partidos “acabaram por ser resolvidas pela prática da fórmula política” dos últimos três anos.

Durante os poucos mais de três anos em que conduziu os destinos do PSD (chegou em marco de 1996 e saiu em maio de 1999, depois de falhar a reedição da Aliança Democrática com o CDS de Paulo Portas), Marcelo esteve lá para aquilo que mais essencial Guterres precisou. “Viabilizei a duração, a permanência, a durabilidade do Governo por um período considerável, por uma legislatura – embora fosse terminada com outro líder da oposição – sem nunca haver acordo escrito”, diz na entrevista. “Portanto, não me parece essencial haver acordo escrito” para que o próximo Governo garanta o seu apoio num entendimento parlamentar gerido diploma a diploma.

Essa abertura é tão válida para uma reedição da realidade atual como para um eventual entendimento à direita. Para que lado pende a balança, e que contas pode cada um dos partidos fazer para assegurar a gestão do poder, só mesmo depois das eleições ficará claro. Mas é ao modelo atual que Marcelo recorre para explicar o que o país aprendeu com a solução Ps+Bloco+PCP+PEV. “Ela afirmou-se, sobreviveu, conviveu com as realidades que suscitavam a existência de acordo escrito” e, contra as (ou muitas das) análises iniciais, está a um orçamento de concluir uma legislatura completa, disse o chefe de Estado.

Tudo encaminhava para aí, mas, quando chegou o momento, Marcelo optou por poupar-se a comentários sobre tensões intra-partidárias. Parou, apenas, para reafirmar a ideia de que o equilíbrio no tabuleiro dos poderes partidários também de uma direita forte que faça oposição a um Governo como o atual.  “Os sistemas politico-partidários”, começou por dizer o Presidente da República, “devem ser equilibrados, e isso implica dois termos fortes de esquerda e de direita”. Uma lógica em declínio em vários países europeus.

“Portugal é a exceção – enquanto for” — e “essa exceção tem de ser construída todos os dias”, insiste. “Agora, falando à direita, tudo o que for debilidade, em termos de alternativa de direita, abre caminho àquilo que temos visto noutros países”, diz, com a nova força política à direita a tentar dar os primeiros passos. Os receios de Marcelo são claros: “Não vou qualificar de populismo, mas de partidos antissistémicos, radicais e que aparecem com formulações que representam ruturas complicadas para a nossa sociedade, política e economia. E isso preocupa-me permanentemente.”

Na colaboração que o PSD pediu a Marcelo que fizesse na Universidade de Verão, esperava-se que o Presidente da República respondesse a duas da questões que lhe foram colocadas por escrito pelos alunos sociais-democratas. Não o fez, e acabou por responder a todas elas, revelando, pelo meio, que ser chefe de Estado “é difícil” que há 20 anos, no tempo em que liderou o PSD. Na conversa com Daniel Oliveira, explica de forma mais detalhada o que queria dizer.

Primeiro, não havia a componente europeia. Segundo, não havia aceleração temporal e o tempo faz a diferença”. No final da década de 1990, “era possível guardar um diploma fisicamente numa gaveta para não haver tema e apenas ser divulgado num dia considerado menos mau para a divulgação de um diploma tão impopular”. Hoje, isso acabou. “Uma realidade existe às tantas da manhã é uma bola de neve à hora de almoço e é sabe-se lá o quê ao jantar”, disse.

Marcelo é o “Presidente dos afetos”. O epíteto colou-se ao atual mandato de Belém e, confrontado com a leitura que corre em alguns setores de que esse perfil está a ser levado para um passo longe demais, o Presidente da República explica que, quando assumiu funções, encontrou um país “descosido” e uma União Europeia ainda de chicote na mão, ameaçando com penalizações para incumprimentos por défices excessivos. Marcelo, diz, vestiu o fato de bombeiro e apagou as chamas antes de elas alastrarem.

A imagem, metafórica, tomou contornos reais quando o Presidente da República pretendia começar a reduzir a sua presença. Depois de Pedrógão Grande, ainda houve Tancos e, no final, o fogo de Outubro e um balanço final de mais de 100 vítimas mortais. “2017, que é um ano a todos os títulos patológico, também foi patológico nisso”, recorda. E Marcelo esteve sempre sob os holofotes.

Ainda assim, garante, nem tudo é gestão de estados de espírito, nem tudo é socorro emocional. “Eu sou como sou. Não mudei pelo facto de ter sido eleito Presidente. Quando me elegeram sabiam que, para o bem e para o mal, eu ia ser assim”, avisa. E “Marcelo2021”, haverá? Nada de novo nesse capítulo. No verão de 2020, o chefe de Estado fecha a ponderação e decide se concorre para mais cinco anos em Belém.