Emmanuel Macron reconheceu formalmente, e pela primeira vez, a responsabilidade da França na tortura e morte de Maurice Audin, um matemático, comunista e defensor da independência da Argélia, em 1957. Segundo o Le Monde, este é o primeiro passo no reconhecimento de que as Forças Armadas francesas utilizaram a técnica da tortura sistematicamente durante a guerra da Argélia (1954-1962), antiga colónia francesa.

No final da manhã desta quinta-feira, Macron visitou a viúva de Maurice, de 87 anos, para a informar da decisão. Josette Audin e a família tinham feito o pedido de “reconhecimento da verdade”, tendo chegado a enviar uma carta para o Palácio do Eliseu, onde era pedido para o Estado reconhecer que Maurice não tinha fugido (a versão considerada oficial) mas, pelo contrário, tinha sido torturado e executado enquanto estava preso. Até agora, recorde-se, apenas François Hollande, em 2014, reconheceu que o ativista não tinha escapado e que tinha morrido na prisão, sem dar detalhes sobre as causas da sua morte.

“O Presidente da República decidiu que chegou o momento de a nação assumir a verdade sobre este indivíduo”, lê-se no documento que vai ser publicado pelo Palácio do Eliseu, ao qual o jornal francês teve acesso. Nessa declaração, Macron assume que Maurice Audin terá sido “torturado e executado ou torturado até à morte, depois de ter sido preso em casa por militares”.

O Palácio do Eliseu vai também reconhecer que o Estado francês falhou ao permitir o uso da tortura durante a guerra da Argélia. “Se a morte [de Maurice Audin] é, em última análise, a ação de alguns, ela foi possível graças a um sistema legalmente instituído: o sistema de prisão-detenção, implementado em apoio aos poderes especiais confiados por via legal às Forças Armadas de então”, lê-se no documento.

Emmanuel Macron deu ainda ordem para que os arquivos relativos a todos os desaparecidos na guerra da Argélia sejam tornados públicos: “Uma autorização geral por decreto ministerial será dada para que todos – historiadores, famílias, associações – possam consultar os arquivos de todos os que desapareceram na Argélia”, refere o texto divulgado.”Estamos a colocar no centro a questão dos desaparecidos”, acrescenta.