O Ciudadanos vai aliar-se à candidatura do ex-primeiro-ministro francês Manuel Valls à Câmara Municipal de Barcelona, naquele que é um gesto inédito na formação política liderada por Albert Rivera. A aliança deverá ser anunciada esta terça-feira pelas 19h00 locais (18h00 de Lisboa), hora para a qual está marcado um comício do ex-primeiro-ministro do Governo de François Hollande.

A confirmação desta aliança foi feita por fontes do Ciudadanos ao El País. De acordo com aquele jornal, o Ciudadanos está disposto a abdicar de uma candidatura em nome próprio — como tem feito desde a sua fundação em 2006, na Catalunha — e a juntar-se a Manuel Valls, naquilo que as fontes contactadas pelo El País descrevem como um esforço necessária para levar pela primeira vez o partido de Albert Rivera e Inés Arrimadas à liderança da maior autarquia catalã.

Segundo o El País, a direção do Ciudadanos consegue neste momento atribuir mais valor ao que vê como qualidades de Manuel Valls — o seu perfil anti-independentista e as credenciais europeístas deste filho de um catalão e de uma italiana criado em França — do que algumas divergências quanto ao modo de lidar com a questão secessionista — Manuel Valls é favorável a um diálogo entre o Governo de Espanha como governo regional ao passo que o Ciudadanos tem-se oposto a uma aproximação entre as duas instituições.

A fórmula que agora o Ciudadanos deve testar é semelhante à do Podemos que, em eleições regionais e municipais, tem por regra concorrer aliado a forças políticas locais. É precisamente esse o caso do Barcelona Em Comum, liderado por Ada Colau, que acabou por vencer as eleições municipais de Barcelona em 2015 com 25,2% dos votos. Nessa altura, o Ciudadanos ficou em terceiro lugar, com 11,03%.

Em junho, uma sondagem do GAD3 publicada pelo La Vanguardia apontava para resultados diferentes aos de 2015 nas eleições de maio de 2019. Apesar de o Barcelona Em Comum continuar à frente (21,8%), a distância para o Ciudadanos seria muito menor, que saltaria para segundo lugar com 19,9% dos votos. Esta sondagem foi produzida antes de a candidatura de Manuel Valls ter sido confirmada, tal como a sua aliança com o Ciudadanos — pelo que, se o anúncio do ex-primeiro-ministro francês se confirmar esta terça-feira à tarde, é expectável que estes números mudem na próxima sondagem.

Virar costas a França e abrir os braços à Catalunha: o percurso recente de Valls

Manuel Valls não tem tido uma vida política fácil em França. Depois de ter sido o segundo primeiro-ministro no Governo do Presidente François Hollande, entre os anos 2014 e 2016, Manuel Valls demitiu-se para poder concorrer nas eleições primárias do Partido Socialista francês. Acabou por ser derrotado por Benoît Hamon, que apresentava uma solução mais à sua esquerda — tão à esquerda que, chegadas as eleições presidenciais, Manuel Valls recusou apoiá-lo e declarou antes que iria votar em Emmanuel Macron.

Depois das presidenciais, e em vésperas das eleições legislativas, pediu ao La République En Marche (LREM), de Emmanuel Macron, que apoiasse a sua candidatura à Assembleia Nacional. A resposta não foi “sim” nem foi “não” — foi “nim”, com o LREM a não apoiá-lo mas a não apresentar nenhuma candidatura naquele lugar. Manuel Valls acabou por ser eleito, com apenas 139 votos de vantagem para a adversária de extrema-esquerda. Só depois renunciou à militância no Partido Socialista e foi, mais tarde, admitido como membro da bancada parlamentar do LREM.

A verdade é que, mesmo sendo deputado em França, Manuel Valls vira cada vez mais as costas àquele país à medida que abre os braços a Barcelona. Segundo o site Nos Deputés, que analise a assiduidade e atuação dos deputados à Assembleia Nacional de França, Manuell Valls não voltou a estar presente nas sessões daquele órgão legislativo desde a semana de 16 de julho.

Nos últimos tempos, Manuel Valls tem-se aproximado lenta mas irreversivelmente do cenário político catalão. Nas eleições regionais catalãs de dezembro de 2017, o ex-primeiro-ministro francês já tinha participado numa ação de campanha do Ciudadanos. Desde então, tem estado em permanente contacto com aquela força política e tem dado algumas entrevistas a meios de comunicação daquela região, falando num catalão escorreito.