Um estudo divulgado esta segunda-feira na Coreia do Sul sugere que “muitas das terríveis consequências futuras do aquecimento global podem ser evitadas” se o aquecimento global não ultrapassar os 1,5ºC. “Limitar o aquecimento a 1,5ºC é possível dentro das leis da química e da física, mas para o fazer requer mudanças sem precedentes”, disse Jim Skea, co-presidente do Grupo de Trabalho III do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC).

As conclusões são de um grupo de 91 especialistas (de 40 países), que integram o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, e foram divulgadas num relatório especial, considerado o mais importante relatório de ciência climática da década. Segundo esse documento, “manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C significa uma diminuição das pessoas expostas a ondas de calor, chuvas fortes, secas, tempestades e inundações”. Mas a margem não é muita: o aquecimento climático está neste momento 1°C acima dos níveis pré-industriais e pode atingir 1,5ºC já entre 2030 e 2052. Como referem os autores do relatório de 400 páginas: 0,5ºC “faz toda a diferença”.

O documento foi encomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU) após o Acordo Climático de Paris de 2015, no qual os signatários se comprometeram a manter o aumento da temperatura global abaixo de 2ºC, quando comparada com os níveis pré-industriais, ao mesmo tempo que vão tentar que esse aumento não ultrapasse 1,5ºC. Este terá sido o melhor compromisso conseguido em Paris, mas o IPCC alerta que a diferença entre o aumento de 1,5ºC ou de 2ºC, em relação aos valores pré-industriais, é significativa.

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A atual subida de 1ºC na temperatura global (em relação a níveis pré-industriais) já teve consequências graves, segundo o relatório: “o efeito das alterações climáticas mais do que duplicou a probabilidade de graves prejuízos, devido à severa onda de calor que afetou este ano a Europa e outras regiões do mundo”. Exemplo disso são “as ondas de calor semelhantes às testemunhadas durante o verão deste ano, mas também a ocorrência de grandes fogos florestais, chuvas fortes, inundações e tempestades”, refere o relatório que tem seis mil referências científicas. Mas se a temperatura subir 2ºC, em relação a valores pré-industriais, a probabilidade de desaparecerem todos os corais, de as ondas de calor serem mais intensas, de aumentar a incidência de doenças transmitidas por insetos ou aumentar a poluição por ozono, é maior, lembrou Sarah Perkins-Kirkpatrick, investigadora no Centro de Investigação em Alterações Climáticas, na Universidade de Nova Gales do Sul (Austrália).

“Limitar o aquecimento global a 1,5ºC até ao final de 2100 vai requerer uma ação rápida e sem paralelo”, disse Sarah Perkins-Kirkpatrick, especialista em alterações climáticas.

A tarefa de travar a subida da temperatura da Terra não é impossível, garante o comunicado de imprensa enviado pela Associação Zero: “Ainda é possível manter o aumento de temperatura global abaixo deste limite, mas requer uma mudança rápida e de longo alcance em todos os sectores da economia”. Mas um aumento de meio grau de temperatura faz toda a diferença, descobriram os cientistas porque “o limiar de 1,5°C irá poupar a maioria das espécies de plantas e animais das consequências das alterações climáticas: “Comparado com o limiar de 2°C, manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C significará que o aumento do nível do mar poderá ser 10 centímetros abaixo do esperado até 2100, poupando as habitações de milhões de pessoas que vivem em zonas costeiras ou ilhas”. Isto também significa que “há uma menor intrusão de água salgada em ilhas mais baixas e menos perda de terrenos”, disse Sarah Perkins-Kirkpatrick.

Se conseguirmos que o aquecimento global não ultrapasse os 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais, as notícias serão boas tanto para os países mais desenvolvidos como para os mais pobres. No mundo desenvolvido, “menos europeus seriam expostos ao calor extremo, reduziria os riscos de seca, escassez de água e de alimentos na Europa Central e na região mediterrânica. Nos Alpes e na região boreal, ajudaria a evitar mudanças dramáticas para o ambiente natural, as pessoas que habitam estas regiões, o comércio e a indústria”, prevê o estudo. E nos países em desenvolvimento, “poderia ainda reduzir de forma significativa os riscos, especialmente para os países com menos recursos económicos e as comunidades que vivem na pobreza, e que estão na linha de frente das alterações climáticas”.

“O relatório especial do IPCC é, provavelmente, o último lembrete de que não existem impedimentos técnicos e biofísicos sem resolução que impeçam de atingir as metas mais baixas de temperatura estabelecidas pelo Acordo de Paris”, disse Pep Canadell, diretor executivo do Global Carbon Project e investigador do CSIRO (Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation). “O relatório mostra que podemos estar à altura dos desafios, mas o sumário para os decisores políticos falhou em mostrar a urgência de agir, ficando no que deve ser atingido até 2040-2050 e 2100, um prazo que não é dirigido aos governos e sociedade em geral.”

Na opinião dos cientistas do Painel, algumas das medidas que poderiam ajudar nessa tarefa eram passar para um sistema de energia 100% renovável, intensificar os investimentos em eficiência energética, produção industrial e consumo mais limpos, parar imediatamente os investimentos em infraestruturas baseadas em combustíveis fósseis para os sectores da produção de energia e transportes, e proteger e restaurar ecossistemas naturais, como as florestas. Além disso, ajudaria se a população passasse a ter uma dieta mais saudável e equilibrada e usar modos de transporte mais limpos: “Será necessário ir além da dependência de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para novas políticas económicas que criam bem-estar para todos, respeitando os limites do planeta”, concluem os cientistas.

Mas nem tudo está na mão da população: é preciso que os políticos também se juntem nessa missão. “É o momento de exortar os líderes políticos a agir, seja através de manifestações públicas ou ações legais. Cada vez mais os líderes da UE e de outros países estão a trabalhar juntos para colocar o mundo num rumo compatível com 1,5ºC. Existem sinais por todo o mundo de que uma transição global de energia está no bom caminho e imparável: no desenvolvimento das energias renováveis, no declínio do carvão ou no aumento da ação climática liderada pelas cidades, regiões, comunidades locais, investidores e empresas”, pode ler-se no comunicado de imprensa.

Francisco Ferreira, presidente da ZERO, considera que “o relatório reforça a necessidade de cada um dos países, incluindo Portugal, ir muito mais além e mais depressa em relação ao atualmente previsto: “O roteiro para a neutralidade carbónica em 2050 que o governo está a preparar é uma oportunidade única que tem de ser concretizada pelos próximos governos, num consenso alargado de todas as forças políticas e assumido por toda a sociedade. Portugal é dos países europeus mais afetados pelas alterações climáticas e não pode falhar uma transição para 100% de energias renováveis e uma rápida descarbonização dos transportes, entre outras medidas.”

Atualizado às 13h50