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Assunção Cristas já tinha as ideias delineadas para o discurso de encerramento da Escola de Quadros do CDS: falar de Orçamento, que é entregue na segunda-feira, e da demissão de Azeredo Lopes, que ocorreu na última sexta-feira. Mas, enquanto tomava o pequeno-almoço, percebeu que ia ter de mudar as linhas do texto: Costa acabara de remodelar mais três ministros, além do da Defesa. Horas depois, perante mais de cem alunos, a presidente do CDS considerou que a remodelação governamental deste domingo “não resolve nada” porque “quem precisa de ser remodelado é António Costa“.

A líder centrista diz ainda que nesta remodelação não há “qualquer rasgo” ou novidade, pois é feita de “prata da casa” e não deixou de lembrar que João Gomes Cravinho, o novo ministro da Defesa, fez parte do executivo socialista de José Sócrates: “É prata da casa ou de agora ou de antes, de quem já esteve no Governo de José Sócrates”. Para Cristas, com esta remodelação à boleia da demissão de Azeredo, ninguém pode dizer que “o Governo fica mais forte”, já que esta é “uma remodelação feita por arrasto penoso de uma situação insustentável”.  E acrescentou: “É a prova dos nove da extraordinária fragilidade do primeiro-ministro“.

Quanto à saída de Azeredo Lopes, Cristas lembrou como foi embaraçoso para Portugal e caricato aquilo a que o país assistiu com o caso de Tancos. Fê-lo numa linguagem dirigida aos mais de cem jovens da JP que a ouviam: “Andámos a assistir a uma série de Netflix. Terminou a primeira temporada. Mas a segunda vem aí, que o CDS chamou para o Parlamento, chama-se Comissão Parlamentar de Inquérito. A demissão do ministro não esclarece o que se passou (…) e queremos esclarecer para que fique claro, que estamos do lado da credibilidade do Estado.”

Sobre a substituição na Saúde, Cristas não chamou a si os louros da saída do ministro (como o partido fez na sexta-feira), mas também lembrou que esta é uma área e um ministro que o CDS “sempre criticou”. Para a presidente centrista a saída de Adalberto Campos Fernandes não é uma surpresa (“ele sempre disse que era Centeno”), mas “é estranho que venha um ministro executar um orçamento que não negociou“. E, por isso, no entender de Assunção Cristas, Costa decidiu fazer o “mais fácil”: mudar o ministro. “Quando o ministro da Saúde não tem mais cara para falhar com 50 milhões para o Hospital de Gaia ou 20 milhões para a ala pediátrica do S.João, muda o ministro, que é o mais fácil”, atirou a líder do CDS.

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CDS vai apresentar “orçamento alternativo”

Mas segunda-feira é dia de entrega de Orçamento e nem a remodelação tirou espaço no discurso de Cristas ao plano orçamental. Cristas diz que o Orçamento do Governo, pelo que já se conhece “é, mais uma vez, um orçamento de continuidade, numa linha que não serve o futuro do país, não cria riqueza.” Por isso, o CDS “apresentará um Orçamento alternativo, de realismo.”

Como propostas para a área da fiscalidade, a líder do CDS antecipou algumas que vai propor:

  • Baixar o IRC para as empresas (uma reivindicação antiga de PSD e CDS);
  • Eliminar a taxa do ISP (Imposto Sobre Produtos Petrolíferos e Energéticos);
  • Repor o quociente familiar no IRS;
  • Isentar o TSU para os trabalhadores que vão substituir grávidas em baixa ou pais e mães em licença de parternidade e maternidade.

Cristas deixaria ainda uma palavra final para o ataque ao PSD e destacar que a única alternativa a António Costa é o CDS. Isto porque, destaca, “um voto no CDS não viabilizará um Governo de António Costa e fomos os únicos que o dizem de uma forma cristalina. Um voto no CDS é um voto num Governo alternativo.”

‘Chicão’ canta “D.A.M.A” para Rio e Costa

Minutos antes, o líder da Juventude Popular, Francisco Rodrigues dos Santos, também tinha atirado ao PSD, lembrando que “há uma parte do centro-direita [o PSD] que quando olha para o PS vê o reflexo de si próprio”. Esse centro-direita, criticou “Chicão” é “um centro direita desnatado, descafeinado, light, sem calorias” que não se distingue do PS.

Francisco Rodrigues dos Santos foi mesmo ao ponto de cantarolar, no palco, uma música dos D.A.M.A. para caricaturar a forma como Rui Rio não afronta António Costa.

António Costa ao olhar para Rui Rio deve pensar muitas nos D.A.M.A.:

Às vezes não sei o que quero, e tu está bem (sic).
Às vezes não sei o que faço, e tu está bem (…)
Uma vez não são vezes e eu não digo a ninguém”

Diogo Feio, diretor da Escola de Quadros do CDS, pediu também a Cristas para o partido não ir “para estas eleições a pensar em pequeno”, deixando o desejo que a líder do CDS seja primeira-ministra. E voltou a marcar a diferença para o PSD: “As pesoas sabem que com o PS, com António Costa, nós não fazemos acordos. Somos uma oposição que faz propostas. Somos estáveis, confiáveis. Connosco não vai haver surpresas. Se há voto seguro, é o voto no CDS.”