O memorando sobre o caso do roubo nos Paióis Nacionais de Tancos, revelado este sábado pelo Expresso, detalha a tentativa da Polícia Judiciária Militar (PJM) de encobrir o caso da Polícia Judiciária (PJ) e deixa mais uma vez em aberto a guerra que existe entre as duas polícias. O documento, que alegadamente foi entregue ao general Martins Pereira, então chefe de gabinete de Azeredo Lopes, foi divulgado na íntegra pelo jornal Expresso.

Segundo o texto divulgado, um dos informadores da PJM, João Paulino, terá dito que um dos informadores da PJ estaria envolvido no caso do assalto a Tancos. Além disso, a PJ andaria a fazer diligências no Algarve sem o conhecimento da PJM.

João Paulino — cujo nome não é referido no documento, mas indicado pelo Expresso — terá dito à PJM que podia entregar o material roubado, mas que a PJ não poderia ser envolvida na recuperação do material. João Paulino encontra-se em prisão preventiva e a PJ e o Ministério Público consideram que o ex-fuzileiro possa ser um dos autores do roubo.

“Este informador [João Paulino] diz que a PJ sabe desde o início que um seu informador de alcunha ‘Fechaduras’ vive em Albufeira — é pago pela PJ há já muitos anos — e que esteve envolvido no assalto. A PJ vai ao Algarve e não permite que a PJM os acompanhe.”

O informador da PJM não queria a PJ envolvida e ameaçou que: “se o acordo for quebrado, o material de Tancos desaparece e a família do major Brazão não terá descanso”. O major Vasco Brazão era o responsável pela investigação feita pela PJM e encontra-se agora detido. Mas o jornal Expresso refere que, na verdade, a ameaça foi contra Bruno Ataíde, o guarda da GNR de Loulé com quem João Paulino terá negociado a entrega das armas. A ideia seria dar conhecimento da operação ao Ministro da Defesa, Azeredo Lopes (que entretanto se demitiu), “envolvendo o menor número de pessoas possível”, alega a defesa de Vasco Brazão.

O memorando indica que o coronel Luís Vieira, então diretor da PJM, teve conhecimento da operação para que o acordo não fosse quebrado, ou seja, para que a PJ não fosse envolvida. O coronel Luís Vieira está em prisão preventiva, mas nega ter conhecimento dos contornos da operação ou do memorando, que diz ter sido fabricado para prejudicar Azeredo Lopes.

Apesar da encenação, a Polícia Judiciária Militar depressa percebeu que seria apanhada pela Polícia Judiciária civil e que, por isso decidiu escrever e entregar o memorando no Ministério da Defesa, juntamente com a “fita do tempo” sobre o que passou na madrugada em que as armas foram descobertas, a 18 de outubro de 2017.

Os documentos apresentados pelo major Vasco Brazão serão iguais aos que o general Martins Pereira também terá entregue. Contudo, isso não é compatível com as declarações do então chefe de gabinete do ministro da Defesa, que dizia não ter conhecimento de “qualquer facto que indiciasse qualquer irregularidade ou indicação de encobrimento de eventuais culpados do furto de Tancos”.

O que parece não ser claro, por enquanto, é até que ponto o primeiro-ministro (ou até o Presidente da República) teria conhecimento da operação de recuperação das armas. O CDS e o PSD admitem poder chamar António Costa à comissão de inquérito se isso justificar.

Segundo o jornal Expresso, António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa poderiam ter acesso ao que se passava com a PJM porque se trata de uma questão de segurança interna. Tendo isto em consideração, os serviços secretos teriam de estar a acompanhar a situação e teriam de dar conhecimento ao primeiro-ministro e ao Presidente.