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XI Convenção BE

Marisa Matias: “Só podemos combater os neofascismos se não recusarmos nenhum combate”

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Na sessão que antecede a XI Convenção do BE, Marisa Matias desafiou a esquerda europeia a combater o crescimento dos populismos e dos neofascismos na Europa aceitando todos os combates.

RUI FARINHA/LUSA

Assim que foi chamada ao palco ouviram-se pequenos gritos de entusiasmo e vários aplausos. Marisa Matias é uma das figuras mais populares do Bloco de Esquerda e esta noite, antes de uma curta intervenção, os aderentes do partido deixaram-no bem patente. Foi a mais aplaudida da noite. No seu discurso, a eurodeputada teve um foco claro: alertar para os perigos do fascismo, que, defendeu “é uma obrigação” e não “um exagero”.

Marisa Matias falou na sessão internacional que antecede a Convenção do Bloco de Esquerda: “Bella Ciao: por uma Europa de solidariedade e liberdade”. Os convidados de honra foram dois políticos italianos: Eleonora Forenza, eurodeputada da Refundação Comunista e do Poder ao Povo, e Erasmo Palazzotto, deputado da Esquerda Italiana. O combate ao governo de Salvini foi o mote que lançou o debate.

“Só podemos combater os neofascismos se não recusarmos nenhum combate”, considerou a eurodeputada, salientando a importância de estabelecer como prioridade o combate ao crescimento da extrema-direita. Os exemplos foram de Órban a Trump e passaram, claro, por Jair Bolsonaro. “A extrema-direita começou a reentrar no espaço político” e isso, no seu entender, não pode fazer a esquerda cruzar os braços.

As consequências apontadas por Marisa Matias vão além da política. “Perdeu-se a vergonha de não se ser humanista ou simplesmente decente”, alerta ainda. Os responsáveis são “os conservadores” e a “direita tradicional”, que contribuíram para que os argumentos da extrema-direita começassem a ser tidos como normais na discussão política.

E houve espaço para olhar para dentro e fazer o mea culpa: “As esquerdas que lutam também têm de fazer autocrítica,  precisamos de reganhar a confiança das pessoas”. Mas, acredita, ainda há tempo de corrigir o erro e colocar um travão aos populismos.

A eurodeputada reservou uma parte do discurso para enviar uma farpa ao PCP. Fê-lo de forma subtil e sem se desviar do tema, mas foi um ataque certeiro: “Foram estas razões [de combate ao populismo e ao fascismo] que não nos fizeram hesitar quando votamos a favor das sanções contra a Viktor Órban. Não basta parecer: é preciso ser”, disse. No fim, deixou um apelo ao combate com uma mensagem otimista: “A revolução tem de ser um ato de felicidade”.

Os perigos de “normalização da extrema-direita”

A sessão foi inaugurada por Fernando Rosas, historiador e fundador do Bloco de Esquerda. O discurso do histórico bloquista incidiu também sobre o combate ao populismo em todo o mundo, na Europa e em Itália em particular – ou não fosse esta uma sessão dedicada ao povo italiano. “Atualmente assiste-se a uma postura de complacência e de normalização da extrema-direita”, afirmou. E há culpados. “A direita tradicional rendeu-se primeiro ao neoliberalismo e alia-se agora à extrema-direita”.

Num discurso repleto de ataques aos “neofascistas” e aos “neoliberais”, Rosas foi arrancando alguns aplausos da plateia. Mas a indignação do historiador, que marcou o seu discurso, encontrou um aliado numa sugestão que deixou no fim da sua intervenção: “Onde existe uma esquerda que não se rende e que se assume sem hesitações a luta de todos, a extrema-direita enfrenta uma barreira de aço à sua progressão e é isso que se passa no nosso país”, fazendo uma espécie de auto-elogio.

Luís Fazenda, o único fundador que ainda é dirigente do partido, seguiu a mesma linha argumentativa. Como se os discursos estivessem sintonizados, o ex-deputado voltou a bater na tecla da “normalização da extrema-direita” para sublinhar que é urgente combater a “ideologia de exclusões” e travar “o assalto da extrema-direita ao poder”. Um fenómeno que, defende, está a atravessar vários sistemas democráticos, destruindo-os “por dentro”.

Os convidados internacionais da edição deste ano falaram da situação política de Itália e dos “perigos” que o governo de Matteo Salvini representa “não apenas para o país, mas também para a Europa”. Forenza identificou dois inimigos – “o capital neoliberal e o populismo da direita negra” – e apresentou a possível solução: “O feminismo é a perspetiva política mais poderosa contra o neoliberalismo e contra o fascismo.” Já Palazzotto apontou o dedo à Europa – “cúmplice de Salvini” – e alertou para a crise migratória do Mediterrâneo, um problema com que Itália lida de forma mais direta.

A XI Convenção do Bloco de Esquerda começa amanhã e termina no domingo, no Pavilhão Desportivo do Casal Ventoso, em Lisboa.

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