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Ministério Público quer mais tempo para poder ouvir Jorge Jesus. Treinador só pode regressar a Lisboa em dezembro

O Ministério Público pediu um alargamento dos prazos da investigação para poder ouvir Jorge Jesus, que só regressa a Lisboa em dezembro. Recorde o que o treinador disse à GNR na altura das agressões.

Jorge Jesus foi treinador do Sporting desde o verão de 2015 até junho de 2018

JOSE MANUEL RIBEIRO/AFP/Getty Images)

O Ministério Público pediu ao juiz de instrução do Tribunal do Barreiro para alargar os prazos da investigação às agressões de cerca de 50 indivíduos aos jogadores, equipa técnica e staff do Sporting. Segundo o jornal Expresso, a procuradora Cândida Vilar fez este pedido ao juiz Carlos Delca devido ao “estado atrasadíssimo das perícias” aos telemóveis dos suspeitos e ao testemunho “absolutamente essencial” do então treinador Jorge Jesus, que só pode regressar a Portugal em dezembro “por motivos que se prendem com as autoridades sauditas”, já que o técnico orienta agora o Al Hilal da Arábia Saudita.

Para a procuradora Cândida Vilar, se os primeiros 23 suspeitos atualmente detidos saírem em liberdade no prazo previsto pela lei – 15 ou 21 de novembro – existe o “perigo de fuga”, de “alarme social” e “perturbação de inquérito”, consideração com que o juiz do Tribunal do Barreiro concordou, deferindo o pedido do Ministério Público. Contudo, o juiz Carlos Delca acabou por anular o deferimento: por lapso, esqueceu-se de que tinha de dar dez dias aos arguidos e ao assistente, o Sporting, para se pronunciarem. Uma vez ultrapassado este obstáculo, os procuradores terão até maio para concluir a investigação, o que significa que os suspeitos ficarão em prisão preventiva durante mais seis meses. O caso tem atualmente 45 arguidos constituídos e 38 em prisão preventiva (mais Bruno de Carvalho e ‘Mustafá’, detidos este domingo).

No que diz respeito a Jorge Jesus, o Ministério Público quer conhecer o teor das conversas mantidas entre Bruno de Carvalho e o então treinador do Sporting nos dias que antecederam a invasão da Academia de Alcochete. Existe um pormenor específico que, para a investigação, tem especial interesse: o facto de o treino da equipa principal de futebol ter sido adiado das 10h para as 16h – tendo em conta que as agressões aconteceram pouco depois das 17h. Segundo a versão oficial de Bruno de Carvalho, a decisão de adiar o treino para o período da tarde foi tomada por Jesus; fonte próxima do treinador, contudo, garantiu que foi o próprio presidente que decidiu mudar a hora do treino e fê-lo logo depois da reunião de emergência que manteve com Jesus, no dia anterior às agressões, onde disse ao técnico que estava despedido (os leões tinham perdido no dia anterior, domingo, na Madeira com o Marítimo, deixando escapar o segundo lugar e a Liga dos Campeões para o Benfica). Em junho, menos de um mês depois da invasão a Alcochete, Jorge Jesus assinou pelo Al Hilal da Arábia Saudita, para onde levou os adjuntos Raul José e Miguel Quaresma, que o Sporting está agora a tentar resgatar para reforçar a Academia depois da contratação de Marcel Keizer, apresentado esta segunda-feira como novo treinador do clube.

O testemunho de Jorge Jesus na noite das agressões: “Fernando, ajuda, estes gajos estão a bater nos jogadores, ajuda-me”

Ainda na noite do dia das agressões, 15 de maio, Jorge Jesus prestou testemunho na GNR do Montijo, assim como os jogadores, a restante equipa técnica e o staff do Sporting que assistiram e foram o alvo da invasão dos cerca de 50 indivíduos associados à Juventude Leonina.

Era dia de treino. Jorge Jesus estava a marcar o campo enquanto esperava pelo plantel, na academia do Sporting, quando foi surpreendido por cerca de 20 ou 30 “indivíduos a entrar nas instalações”. A maior parte trazia a cara coberta. Outros usavam uma pintura na cara nos tons do clube, verde e branco, como se fosse uma máscara. “Está ali o mister. Não é ele que a gente quer … onde estão os jogadores?”, chutaram.

Eram 17h, 17h15, de terça-feira, e tudo o que se passou a seguir foi demasiado rápido, segundo o seu testemunho prestado à GNR do Montijo, ainda nessa noite, e a que o Observador teve acesso. O treinador do Sporting viu, depois, o grupo incansável à procura do plantel em todas as portas da academia. E percebeu que “algo de errado” se estava a passar. “Iriam agredir os elementos do plantel no interior das cabines”, concluiu. Jesus ainda correu atrás do grupo para o interior das instalações, mas os agressores já estavam a regressar. E, segundo garante, não testemunhou qualquer agressão.

No entanto, quando estava a voltar ao campo, e pensando que estava imune ao ataque por causa das palavras que ouvira, acabou dominado e agredido por um dos elementos de cara tapada. O agressor usou “um cinto de cor verde direcionado contra a sua face”, relata a GNR no depoimento que consta no processo. Jesus ainda deu luta. Correu atrás dele para se defender, mas acabaram os dois por cair no chão. Nesse momento um outro agressor aproximou-se e começou a pontapeá-lo. Nessa altura já havia agressores a abandonarem as cabines para saírem das instalações de volta aos seus carros.

Jorge Jesus ainda estava no chão quando percebeu que no grupo havia um elemento de cara destapada, que bem conhecia: Fernando Mendes, ex-líder da claque sportinguista Juve Leo. “Fernando, ajuda, estes gajos estão a bater nos jogadores, ajuda-me”, terá dito a Fernando Mendes. “A gente não veio aqui para bater, só para falar”, respondeu. Mas nada fez para travar ou evitar as agressões, denunciou Jorge Jesus às autoridades.

O militar da GNR que o inquiriu perguntou-lhe, ainda, se durante a invasão viu algum tipo de arma. O então treinador do Sporting garantiu que muitos deles, que serão adeptos, arremessaram tochas e tinham, nas mãos, cintos e bastões — algum deste material foi apreendido. Jesus garantiu que entre o grupo apenas conseguiu identificar Fernando Mendes e só responderia pelas agressões que ele próprio sofreu, uma vez que não testemunhou nenhuma outra.

A versão de Jorge Jesus não está completamente vertida no despacho de indiciação do Ministério Público, entregue na altura ao juiz de instrução criminal do Tribunal do Barreiro. De acordo com a versão da investigação, Jorge Jesus foi dos primeiros a ser agredido, juntamente com João Rolin Duarte e Paulo Cintrão, que se encontravam juntos no campo de treino. Só depois os agressores se teriam dirigido ao balneário. Jesus apresentou outra cronologia dos acontecimentos.

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