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As explicações de Vieira, da reunião que colocou Vitória de saída à reflexão de madrugada que alterou decisão

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Vieira confirmou que Vitória esteve de saída mas reverteu decisão de madrugada. "A responsabilidade assenta em mim", diz. E houve mais recados para plantel, para sócios e para... fugas de informação.

Luís Filipe Vieira destacou que contratação de um novo treinador para o projeto do Benfica terá de ser sempre feita com antecedência

Miguel A. Lopes/LUSA

É uma velha máxima do futebol mas que parece nunca perder atualidade – “o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira”. E foi isso que aconteceu nas últimas 24 horas no que toca à continuidade de Rui Vitória no comando técnico do Benfica: se durante a noite desta quarta-feira o treinador que chegou à Luz em 2015 parecia ter chegado ao final de linha, com todas os jornais, televisões e rádios a avançar com a informação citando fontes do próprio clube de que a saída estaria iminente, a hora de almoço de quinta-feira trouxe uma informação diametralmente oposta, com a garantia de que não haveria qualquer alteração no comando da equipa. Pelo meio, houve um período de reflexão do líder encarnado, mais reuniões no Seixal, um treino conjunto que passou apenas por trabalho no ginásio, a marcação da habitual antevisão à receção ao Feirense de sábado e o anúncio da conferência de imprensa de Luís Filipe Vieira ao final do dia, mais concretamente às 20 horas.

No final de pouco mais de 20 minutos de intervenção, ficou uma conferência até surpreendente face ao que tinha sido projetado durante o dia (e ao que é habitual no futebol português): o presidente do Benfica admitiu que a saída de Rui Vitória esteve mesmo em cima da mesa, que chamou a si a decisão de reverter essa ideia de madrugada quando pernoitou no Seixal após uma longa reflexão e em nome da estabilidade, explicando também como se processou tudo para anunciar a continuidade do técnico desde a comunicação a Tiago Pinto, diretor do futebol “que ficou muito perplexo”, às 7h30. Pelo meio, Vieira deixou também recados. Aos jogadores, “porque o Benfica não pode jogar lento, lento, lento”; aos sócios, que têm de recordar também outras decisões então contestadas mas que tiveram resultados; e às fugas de informação que existiram neste caso.

“Vamos diretamente ao assunto para não haver rodeios, para sermos objetivos e práticos: Rui Vitória vai continuar a ser o treinador mas não escondo que foi algo que falámos, a sua continuidade. Não é por culpa da comunicação social que as notícias têm saído. Rui Vitória é um treinador comprometido com o projeto do Benfica, que assenta muito na formação dos nossos jovens, na Caixa Futebol Campus, e foi ele que lançou muitos jovens na nossa equipa. É um treinador que, neste momento, para os benfiquistas, há um descontentamento generalizado mas qualquer benfiquista neste momento não está bem porque os resultados não têm sido os melhores, mas para o projeto do Benfica é importante que Rui Vitória continue”, começou por referir o líder das águias, numa conferência onde esteve ladeado pelos administradores da SAD Domingos Soares Oliveira e Rui Costa.

“Continuo a acreditar que podemos conquistar todos os títulos em aberto em Portugal. Nos primeiros dois anos, ganhou seis títulos, foi o treinador do ano e passámos aos oitavos da Liga dos Campeões. No terceiro ano as coisas não correram pelo melhor e, neste momento, a época ainda não acabou. O Benfica nos últimos dez anos teve dois treinadores e ganhou 16 títulos, é comparar com os outros e vermos quantos tiveram. Essa estabilidade é muito importante nas equipas técnicas. Esta decisão tomada foi muito amadurecida durante a noite e que comuniquei logo às 7h30 ao Tiago Pinto, numa primeira fase. A decisão estava tomada, estava só à espera que o Rui Vitória chegasse e quando chegou falámos um pouco. Disse o que pensava sobre o Benfica, sobre a sua continuidade e se estava motivado e preparado para continuar face ao que tinha acontecido nos últimos dias porque era uma carta fora do baralho para a opinião pública e comunicação social. A responsabilidade assenta em mim, apesar de ter havido uma reunião com um grupo de pessoas e de termos encaminhado para uma determinada direção; depois de ter refletido muito esta noite, entendi que devia continuar. Não há nada mais para estar a dizer, penso que é um homem certo no momento certo. Quando o Benfica for comandado de fora para dentro, algo está mal”, destacou, antes de abrir espaço às perguntas dos jornalistas presentes na sala de imprensa do estádio da Luz.

“Na reunião que tivemos ontem havia uma decisão praticamente tomada mas como deve calcular normalmente discuto e oiço – e não vou discutir a decisão que foi ou não tomada – mas dormi no Seixal e meditei bastante, apesar de ter dormido muito pouco. Às 7h30 comuniquei ao Tiago [Pinto] a decisão que tinha tomado. Ele olhou para mim, ficou muito perplexo mas era uma convicção e quando tenho uma convicção, é mesmo assim. Algumas vezes já fiquei isolado, já disseram ‘Vieira isolado’ e no fim foi mesmo assim, chegámos em primeiro lugar isolados no Campeonato… Resultados do Benfica agora? Toda a trajetória dos últimos dez anos dá-nos razão. Não se faz outro ciclo de um momento para o outro, não pode ser sempre o Benfica a ganhar, temos de respeitar os nossos competidores. Achamos que temos capacidade para ganhar, que temos plantel para isso. Na minha opinião, vai ser o treinador até ao final da época a não ser que algum imprevisto. E deixe-me que lhe diga: Rui Vitória disse-me na reunião que nunca seria problema para o Benfica e que não queria nenhuma indemnização se tivesse de sair. Depois de ter dito que era para continuar, tomou a decisão de recusar uma proposta onde poderia ganhar seis milhões, devem imaginar o país, isto para as pessoas que pensavam que poderia estar à espera da contrapartida financeira que teria de receber. Aliás, nós já tínhamos decidido em termos internos que o Rui Vitória, confirmado-se a decisão de ir embora, seria remunerado em todos os vencimentos, ele e os adjuntos, enquanto estivesse desempregado”, admitiu o presidente encarnado.

“Se fica mais fragilizado? Como pode reagir à contestação? Da mesma forma do que o Jorge Jesus, que teve um pé de fora ou os dois de saída, todos a dizerem para ir embora e houve alguém que achou que não… Não sou um presidente ‘resultadista’, sou muito mais estratégico e neste período todo e nenhum benfiquista que votou em mim deve estar arrependido do trabalho que temos feito em termos desportivos, financeiros e patrimoniais, é notório. Às vezes parece que as pessoas têm uma memória curta… Também já tive 20 anos e entendo que alguns mais novos pensam que o Benfica foi sempre assim e que possam não estar satisfeitos, eu também não estou. Agora, não posso tomar decisões de forma emocional. O que me fez refletir também foi essa estabilidade. Quem pudesse entrar podia ser chamuscado, quem viesse a seguir podia não dar continuidade ao trabalho que tem vindo a ser feito no Seixal. Quando o Benfica pensar em ter um treinador novo, tem de ser algo muito antecipado porque é sempre o projeto do Benfica e não o projeto do treinador. Orgulho-me muito que ter dito que o futuro do futebol nacional seria feito por jovens do Caixa Futebol Campus e a grande maioria foram formados pelo Benfica. Estamos no caminho certo, não podemos andar sempre aos empurrões”, prosseguiu, acrescentando: “Sei como decido as coisas para o Benfica, às vezes até me dizem que vejo mais à frente, não sei se foi uma luz que me deu, decidi que é por ali que vamos… E mais: a massa adepta deve apoiar e não apontar o dedo. Não é só o Rui Vitória que tem culpas, há mais gente”.

Acho que hoje ficou tudo claro dentro do Benfica, pelo menos dentro daquele balneário, desde o fisioterapeuta até ao jogador e ao treinador, ficou tudo muito claro uns com os outros: é para jogar à Benfica, não é para jogar lento, lento, lento; é à Benfica e com garra”, assegurou o presidente das águias

Por fim, Luís Filipe Vieira falou ainda da hipótese Jorge Jesus, da não hipótese Luisão (ao contrário de Bruno Lage) e de mensagens que lhe chegaram durante o dia por parte de outros treinadores e que o deixaram surpreendido. “Jorge Jesus nunca foi contactado para ser treinador do Benfica. Quero deixar bem claro isto e às vezes parece que vocês gostam de ser polémicos, e não é pelas notícias que hoje vieram, porque vocês não têm culpa e alguém deu essas notícias. Em relação ao Rui Vitória, foi comunicado de manhã; em relação ao Jorge Jesus, ninguém me pode proibir de falar com ele mas nunca foi mencionado para ser o futuro treinador do Benfica. O que disse foi que não posso saber o futuro do Jorge Jesus, nem o meu posso saber, posso cair ali para o lado daqui a bocado. Falámos tanta coisa mas nunca se falou de vir para o Benfica. O empresário de Rui Vitória esteve comigo, foi ao Seixal e hoje disse-lhe que não ia haver situação nenhuma”, disse.

“Alguns nomes que vieram hoje a público para poderem entrar de forma interina foram falados, nada mais do que isso. A decisão foi tomada, não vale a pena ir mais ao pormenor. Não há ninguém que possa dizer que foi contactado pelo Benfica ou por alguém do Benfica, recebi sim muitas mensagens de treinadores disponíveis para vir para o Benfica e alguns até fiquei surpreendido, é sinal que o Benfica tem um grande nome e está pujante. Luisão? Nunca esteve em cima da mesa. Houve uma situação provisória que podia existir, só isso. Um dia poderá estar em cima da mesa, agora não. O período mais negro de contestação que tive foi com Jorge Jesus. Ficou. Começou com uma derrota na Madeira e aos 90′ estávamos a perder com o Gil Vicente. No final, fomos campeões. Acreditava que no final íamos ganhar e fomos mesmo campeões, não estou nada arrependido com isso. A rescisão acertada para a saída de Rui Vitória, com números, não. Agora, houve uma reunião entre nós e uma decisão que, não sendo firme, caminhava para isso”, concluiu o líder das águias, admitindo que Vitória esteve perto da saída.

Vitória ganhou duas Ligas, uma Taça de Portugal, uma Taça da Liga e duas Supertaças na Luz (PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP/Getty Images)

Acrescente-se que, há cerca de um mês, Luís Filipe Vieira já tinha defendido o papel de Rui Vitória no Benfica, a quem está ligado de forma contratual até 2020. “Nas épocas difíceis tomo decisões difíceis. Há uma grande injustiça em relação ao Rui Vitória. Em dois anos conquistou seis títulos, foi campeão com o máximo de pontos, chegou aos quartos da Champions. Depois veio uma época menos conseguida… As pessoas habituaram-se a ganhar muito… Não somos invencíveis e temos de reconhecer que não estivemos bem. A vida é feita pelo presente e futuro. O Rui Vitória tem feito um trabalho fantástico. Consegue ter equipas bastante competitivas, nunca se desviando da formação. Tem um trabalho fantástico na formação e esse é um projeto que o Benfica não quer descuidar. É o homem certo para o projeto que o Benfica quer. Por minha vontade, garanto que será o treinador até final do contrato. Tem havido um tipo de crítica ao Rui Vitória que ele não merece”, disse na TVI.

De recordar que, em 15 anos na presidência, Luís Filipe Vieira despediu apenas uma vez um técnico com a temporada em curso, por sinal numa decisão que o próprio já admitiu ter sido uma das mais complicadas de tomar. “Até pela relação que tinha e tenho com ele, uma coisa que me custou muito foi ter de falar com o Fernando Santos e lhe dizer que no dia seguinte ele já não seria o treinador do Benfica. Foi muito difícil, posso dizer-lhe que quando saí de casa para ir ter com ele passou-me tanta coisa pela cabeça… Pensei voltar para trás… Não conseguia. Mas pronto, estava tomada a decisão estava tomada. Essa foi uma decisão muito, muito complicada para mim”, assumiu numa entrevista à BTV no ano passado.

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