Michael D. Cohen, ex-advogado de Trump, foi condenado a três anos de prisão por ter participado num escândalo de suborno que pode colocar em causa toda a legitimidade da atual administração norte-americana. O papel de Michael Cohen foi pagar a duas atrizes pornográficas com quem Trump tinha tido casos amorosos em troca de silêncio, de modo a influenciar a imagem de Trump durante a campanha presidencial. A sentença foi conhecida às 12h10 locais — 17h10 em Lisboa — num tribunal federal de Manhattan, onde Michael Cohen assumiu “total responsabilidade por todos os atos” de que é acusado.

Cohen recebeu a mais longa pena imposta até agora pelo procurador Robert Mueller no que toca às investigações em torno de Donald Trump. Deve entregar-se a 6 de março, ordenou o tribunal federal. O advogado disse ser vítima de “prisão mental e pessoal” desde que começou a trabalhar diretamente com o presidente dos Estados Unidos: “Isto pode parece difícil de acreditar, mas hoje é um dos dias mais significativos da minha vida. Eu tenho vivido num encarceramento pessoal e mental desde o dia em que aceitei a oferta de trabalhar para um magnata imobiliário cuja perspicácia nos negócios sempre admirei profundamente”.

Como Michael Cohen apontou o dedo a Trump

O advogado de 52 anos foi detido para interrogatório em abril depois de agentes federais terem descoberto o esquema de suborno, que tinha sido montado com receio que os testemunhos das duas mulheres pudessem prejudicar a imagem de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2016. Michael Cohen começou por negar qualquer envolvimento no caso, mas mais tarde acabou por admitir em tribunal que tinha sido contactado pelo atual presidente norte-americano para fazer os pagamentos às duas mulheres.

Trump, que também tinha negado os pagamentos, foi obrigado a reformular a sua versão: afinal, tinha mesmo pago às duas mulheres pelo silêncio delas, mas esse dinheiro viria de uma “simples transação privada” e não de fundos da campanha — algo que iria contra as regras estabelecidas por lei para as campanhas eleitorais nos Estados Unidos. Depois de Michael Cohen ter apontado o dedo a Trump, o presidente norte-americano chamou-o “pessoa fraca”. Ainda esta terça-feira, numa entrevista à Reuters, Trump disse: “Michael Cohen é advogado, suponho que ele saberia o que estava a fazer. Número um, não foi uma contribuição de campanha. Se fosse, é apenas civil e, mesmo que seja apenas civil, não houve violação com base no que fizemos. Está bem?”.

Em tribunal, Michael Cohen falou sobre essas declarações do presidente dos Estados Unidos: “Recentemente, o presidente tweetou uma declaração em que me chamava ‘frac0’. E estava correto, mas por uma razão muito diferente do que a que ele estava a sugerir. Foi antes porque uma vez atrás da outra senti que era meu dever encobrir os atos sujos dele”, defendeu-se. O ex-advogado de Trump referia-se, por exemplo, ao facto de ter mentido ao Congresso sobre a duração das negociações para construir uma Torre Trump em Moscovo e sobre até que ponto é que o presidente norte-americano estava envolvido nesse projeto.

E não só. Michael Cohen já tinha assumido culpa de todos os atos de que era suspeito sem sequer ter tentado chegar a um acordo de cooperação com o governo — nomeadamente dos crimes de violações de financiamento de campanha, evasão fiscal e falsas declarações a uma instituição financeira. Além disso, assumiu ter orquestrado pagamentos “com o objetivo principal de influenciar as eleições” de 2016. Um desses pagamento foi uma transferência de 150 mil dólares através de um donativo corporativo ilegal feito pela American Media Inc. que, na verdade, foi cair na conta de Karen McDougal, a atriz pornográfico com quem Trump manteve uma relação. Outro pagamento, de 130 mil euros, foi feito à atriz pornográfica Stormy Daniels.

À conta de ter admitido a culpa, os advogados argumentaram que Cohen não devia ser preso. Mas os procuradores discordam e chegaram a sugerir — ainda antes da sentença de esta quarta-feira — que o advogado podia ficar preso por, pelo menos, quatro anos: “Depois de enganar a Receita Federal durante anos, mentir aos bancos e ao Congresso e tentar influenciar criminalmente a eleição presidencial, a decisão de Cohen de se declarar culpado, em vez de pedir perdão por múltiplos crimes, não faz dele um herói”, disseram em tribunal.

Michael Cohen acabou condenado a 36 meses de cadeia, mas o conselheiro do advogado disse à ABC que “vamos ouvir falar mais” sobre o caso: “Michael Cohen agora é livre para contar a verdade completa. Depois de o senhor Mueller fazer as suas descobertas e emitir um relatório, verão mais de Michael Cohen a dizer a verdade sobre Donald Trump”, prometeu Lanny Davis.