A Argentina foi sabendo rejuvenescer a nível de formação e tornou-se uma espécie de Portugal da América do Sul, aquele ponto onde se concentram olheiros de vários clubes que mais não seja para controlarem todo o mercado e tentarem chegar mais cedo do que os outros às maiores promessas quando começassem a brilhar. Uma delas, há muito referenciada por cá, deve ter realizado este sábado o último jogo pelo River Plate. Por estranho que pareça, e que é, vai viver o seu american dream com apenas 25 anos para o Atlanta United, que se sagrou recentemente campeão nos Estados Unidos apesar de ser um conjunto com quatro anos de existência. E fechou com chave de ouro a passagem pela formação de Buenos Aires no Mundial de Clubes.

Hoje, podíamos falar de Pity Martínez como ala esquerdo do Sporting, não tivessem os millonarios pedido tanto dinheiro pelo seu passe umas semanas antes de haver uma viragem de aposta para Marco Acuña. Ou podíamos falar de Pity Martínez como ala esquerdo do FC Porto, como chegou a ser ventilado num acordo que colocaria Juan Quintero a título definitivo no River. Mais: só era improvável falar-se de Pity Martínez como ala esquerdo do Benfica porque, entre a chegada de Franco Cervi à Luz, o clube encarnado mostrou-se sempre mais virado para Pavón, do Boca Juniors (hoje “inacessível” em termos financeiros) do que para Pity Martínez. O esquerdino foi uma espécie de jogador fetiche da Liga portuguesa desde 2016, manteve-se na Argentina mas, de forma surpreendente, aceitou a proposta do Atlanta United. Dificilmente ficará por lá muito tempo.

Para os adeptos do River que tiveram uma enorme deceção ao aterrarem em Abu Dhabi após 18 horas de viagem e perceberem que, ao contrário do que deveria acontecer na teoria, os argentinos acabaram por perder nas grandes penalidades frente ao Al Ain nas meias do Mundial de Clubes, assistir à goleada dos millonarios frente aos japoneses do Kashima Antlers que valeu o terceiro lugar acabou por ter esse prémio de consolação depois da deceção uns dias antes. E Pity Martínez também fez por isso: entrando no segundo tempo para o lugar de Ezequiel Palacios (seguido pelo Real Madrid), foi a tempo de bisar (73′ e 90+3′) e carimbar o 4-0 final (Bruno Zuculini, aos 24′, e Santos Borré, aos 88′, apontaram os restantes golos da equipa). No último golo, num lance genial, até o técnico Marcelo Gallardo ficou sentado no banco a rir com o que tinha acabado de ver…

Nascido em Mendonza, Gonzalo Martínez, que ganhou a alcunha de Pity por causa de uma ave tradicional da cidade (a pittitorra), começou a jogar na formação do Huracán, onde fez também os primeiros quatro anos como sénior e ganhou a Taça da Argentina em 2014. No ano seguinte, mudou-se para o River Plate num negócio que envolveu cerca de quatro milhões de dólares (cerca de 3,3 milhões de euros na altura) e tornou-se um indiscutível na equipa de Marcelo Gallardo, conquistando por duas vezes a Taça Libertadores entre mais sete títulos, como a Taça e Supertaça argentinas ou a Supertaça Sul-Americana. Além disso, tão ou mais importante, brilhou várias vezes contra o rival Boca Juniors, como aconteceu na última final em Madrid.

Conhecido por ser um rebelde dentro de campo, o internacional (que se estreou na seleção argentina em setembro, depois do Mundial) é também muito elogiado fora dele por atitudes como a que Rodolfo D’Onofrio, presidente do River Plate, confidenciou esta semana numa entrevista à TyC Sports. “É um louco divino, um miúdo com um coração… Como está para ir embora tenho de contar isto, apesar de saber que se vai chatear comigo… É tão generoso que um dia visitou a Fundação do River e disse: ‘Tomem, este dinheiro é para construírem alguma obra que tenham por fazer’. E construímos em Iguaçu, um polidesportivo para cinco tribos indígenas. No Dia da Criança, disse para comprarem brinquedos para todas as crianças. As pessoas da Fundação foram ao lugar mais barato que havia, conseguiram para todos e levar. Nunca ninguém soube que tinha sido ele a dar. É importante que saibam que pode ser louco mas é um grande ser humano”, confidenciou.

“Queria acabar a minha passagem por aqui da melhor forma, jogando. Foi uma emoção muito grande poder marcar dois golos na vitória que valeu o terceiro lugar. Não era isto que queríamos mas ao menos subimos ao pódio. Sei que fiz as coisas bem e estou agradecido ao clube, como pessoa e jogador. Tentei devolver em campo tudo o que me dera”, comentou Pity no final do encontro em Abu Dhabi. E os adeptos responderam da mesma forma, cantando “Pity é do River, Pity não se vai” após o jogo.