Donald Trump voltou a colocar pressão sobre os congressistas do Partido Democrata para aprovarem a alocução de 5,7 mil milhões de dólares para a construção de um muro entre os EUA e o México. Defendendo que essa é a única maneira de pôr fim àquilo que chamou repetidas vezes de “crise humanitária”, o Presidente norte-americano sublinhou que o encerramento parcial do governo federal — que já durava há mais de 17 dias e 21 horas à hora que Donald Trump falou a partir da Sala Oval — é uma realidade “apenas porque os democratas não querem financiar a segurança das fronteiras”.

Num discurso em que lançou várias críticas aos democratas, Donald Trump acusa-os de no passado terem defendido a construção de um muro e de agora não o fazerem por aproveitamento político. “Eles só mudaram de opinião depois de eu ter sido eleito Presidente”, apontou o Presidente dos EUA.

O governo federal dos EUA está parcialmente encerrado desde 22 de dezembro de 2018, como resultado da falta de entendimento entre os republicanos e democratas no Congresso, ou seja, as duas câmaras do sistema político norte-americano, e que têm como responsabilidade negociar e definir o Orçamento do Estado. O plano dos republicanos consiste em gastar 5,7 mil milhões de dólares (aproximadamente 4,9 mil milhões de euros) na segurança fronteiriça, o que incluiu os gastos anuais para a construção de um muro na fronteira com o México. Os democratas, porém, têm respondido com ofertas que não chegam sequer aos 2 mil milhões de dólares, impossibilitando dessa forma a construção de um barreira entre os dois países.

Trump disse que a “fronteira a Sul é uma entrada constante de enormes quantidades de drogas ilegais, incluindo heroína, cocaína e fentanil”

Nos 13 minutos que levou a fazer o seu discurso, que foi a primeira comunicação em horário nobre desde que é Presidente, Donald Trump voltou a insistir nos mesmos argumentos que têm marcado o seu discurso sobre a fronteira com o México e a imigração ilegal — enunciando que esta é uma fonte de insegurança e crime — mas não chegou a recorrer à declaração de estado de emergência, que lhe permitiria utilizar fundos do Departamento de Defesa para a construção de um muro sem ter de passar pelo Congresso.

“A nossa fronteira a Sul é uma entrada constante de enormes quantidades de drogas ilegais, incluindo heroína, cocaína e fentanil. A cada semana, 300 dos nossos cidadãos morrem por causa de heroína, 90% da qual invade o nosso país a partir da fronteira a Sul. Serão mais os americanos a morrer pelas drogas este ano do que todos os que morreram em toda a guerra do Vietname”, disse Donald Trump.

Além das drogas, falou dos casos de homicídios cometidos por imigrantes sem documentos, referindo-se a alguns casos específicos. “O coração dos americanos ficou quebrado no dia seguinte ao Natal quando um jovem polícia na Califórnia foi morto de forma selvática e a sangue frio por um imigrante ilegal”, disse, referindo-se ao agente Ronil Singh, cujo homicídio tem como principal suspeito Gustavo Perez Arriaga, de nacionalidade mexicana. Também falou de outro caso na Califórnia, juntamente com mais homicídios cometidos na Georgia e no Maryland, em que imigrantes ilegais são os principais suspeitos.

“Ao longo dos anos, milhares de americanos têm sido brutalmente assassinados por aqueles que entraram ilegalmente no nosso país e milhares de outras vidas serão perdidas se não agirmos já”, disse Donald Trump. “Quanto mais sangue americano é que temos de perder para que o Congresso faça o seu trabalho?”

O Presidente dos EUA referiu ainda que, “no mês passado, 20 mil crianças migrantes foram trazidas ilegalmente para os EUA”, referindo que “estas crianças são usadas como peões por contrabandistas cruéis e por gangues impiedosos” — ficando ainda assim aquém de mencionar diretamente o caso de duas crianças migrantes cujas mortes depois de terem sido detidas pelas autoridades fronteiriças estão neste momento a ser investigadas.

“Este é um ciclo de sofrimento humano que estou determinado a fechar”, disse. “Mas a única solução é os democratas aprovarem um orçamento que defenda as nossas fronteiras e reabra o governo. Esta situação podia ser resolvida numa reunião de 45 minutos. Já convidei as lideranças do Congresso para virem à Casa Branca amanhã e tratar do assunto. Se tudo correr bem, seremos capazes de nos da política partidária para podermos apoiar a segurança nacional.”

Democratas acusam Trump de “malícia” e dizem-lhe que discussão sobre o muro pode acontecer sem shutdown

Logo após o discurso de Donald Trump, discursaram os dois líderes do Partido Democrata no Congresso: Nancy Pelosi, recém-eleita líder da Câmara dos Representantes, onde os democratas estão em maioria; e Chuck Schumer, líder dos democratas no Senado, onde estão em minoria.

A primeira a falar foi Nancy Pelosi, que acusou Donald Trump de estar a gerir este processo recorrendo a “desinformação e até malícia”. “O Presidente escolheu o medo e nós queremos começar com os factos”, disse a líder dos democratas na Câmara dos Representantes. Num dos vários “factos” enumerados, Nancy Pelosi acusou Donald Trump de “sequestrar serviços essenciais para a segurança e bem-estar do povo americano e suspender os salários de 800 mil trabalhadores inocentes em todo o país”, tudo por causa de uma “obsessão em esbanjar o dinheiro dos contribuintes num muro caro e ineficaz na fronteira, muro esse que ele sempre prometeu que ia ser pago pelo México”.

Logo de seguida, o senador Chuck Schumer insistiu no mesmo soundbite que utilizou em ocasiões passadas, dizendo que nos EUA “não governamos por birra e nenhum Presidente pode dar um murro na mesa e dizer que se a sua vontade não for feita o governo será encerrado”. Além disso, instou-o a terminar o encerramento parcial do governo federal, referindo que existe neste momento “legislação com apoio bipartidário para que o governo seja reaberto, permitindo dessa forma continuar o debate sobre a segurança fronteiriça”.

Chuck Schumer terminou rejeitando um muro na fronteira com o México e o seu valor simbólico. “O símbolo da América deve ser a Estátua da Liberdade e não um muro de nove metros”, disse. “Por isso, a nossa sugestão é simples: senhor Presidente, reabra o governo e podemos trabalhar para minimizar as nossas diferenças sobre a segurança da fronteira. Mas acabe com o encerramento do governo agora.”

Mike Pence acusou democratas de agirem com má fé

Já durante a manhã desta terça-feira, o vice-Presidente dos EUA, Mike Pence, fez uma ronda por vários canais de televisão, deixando em cada um deles uma mensagem onde insistia na importância da construção de um muro — e apontava que a Casa Branca tem gerido este tema junto do Partido Democrata em “boa fé”, sugerindo que o mesmo não podia ser dito do outro lado.

“Nós estamos nos 5,7 mil milhões. Onze democratas no Senado votaram a favor de 1,6 mil milhões e quando nos sentámos na Sala Oval, depois de todas as câmaras saírem, eu perguntei ao líder Schumer [Chuck Schumer, líder dos democratas no Senado] se eles ainda estavam nos 1,6 mil milhões e ele disse que não, ‘estamos nos 1,3 mil milhões’. Por isso, eles até baixaram”, disse Mike Pence numa entrevista ao programa matinal da CBS.

“Está na altura de os democratas voltarem à mesa, dizerem-nos do que precisam e qual é a oferta deles”, sublinhou o vice-Presidente, para depois completar: “E, como o Presidente disse, podemos resolver este problema numa questão de poucas horas”.