Fez apenas um jogo em Portugal mas são muitas as histórias que deixou por cá nesse período. Quais são as probabilidades de haver um avançado argentino a destacar-se na Ligue 1 ao ponto de receber propostas milionárias da China antes de cumprir o sonho de ir para a Premier League? Poucas. Se pensarmos então que falamos dos Distritais da Associação de Portalegre ainda menos. Mas é assim que começa a história de Emiliano Sala no futebol, há dez anos. E ao serviço do Crato.

Avião privado com jogador argentino desaparece da zona de radares no Canal da Mancha

O jogador nascido em Santa Fé terá começado no San Martín de Progresso, onde andou até aos 15 anos, altura em que se mudou para San Francisco, em Córdoba, para entrar na escola de futebol do Proyecto Crecer – que se encontrava na altura ligada ao Maiorca e aos Bordéus. Não existem registos oficiais de encontros nessa altura precoce de uma carreira que estaria prestes a dar a primeira grande volta quando foi recomendado por outro argentino que jogava então no conjunto de Portalegre, Maurício Vaschetto. A seguir, houve outro “empurrão” para a contratação – José Correia da Luz, o presidente da Câmara.

“Tive uma trabalheira com ele. Fui de carro daqui para Málaga buscá-lo. Saí daqui às cinco da manhã, cheguei às 20 horas e ele ainda treinou. Foi o presidente da Câmara da altura que me disse para ir buscá-lo – já se sabe que estes clubes não sobrevivem sem o apoio das câmaras… Não sei como é que o presidente o conhecia, só me disse para ir buscá-lo e fui”, contou ao Bancada José Manuel Curado, que era também nessa altura da temporada 2009/10 líder da formação alentejana, sobre a viagem em que conseguiu trazer o avançado para o Crato quando estava a viver então em Ascona, no sul de Espanha.

Emiliano Sala na disputa da bola com David Luiz num jogo entre Bordéus e PSG em outubro de 2014 (FRANCK FIFE/AFP/Getty Images)

Acabaria por fazer apenas um encontro oficial, por sinal um que mais ninguém esqueceu. Já nos treinos Sala dava nas vistas, quase como se fosse alguém demasiado bom para aquelas andanças; frente ao Gafetense, num jogo que começou com um golo de Vaschetto, marcou aos 28′ e 46′ e empurrou o Crato para uma goleada por 4-0 mesmo tendo terminado a partida reduzido a dez. “Nunca percebemos bem toda a história mas o clube pediu a carta dele e chegou a inscrevê-lo. Ele esteve no Crato um mês e meio ou dois meses, fez alguns jogos amigáveis e apenas um oficial. Entretanto, veio dizer que tinha de ir embora, que tinha conhecido uma rapariga pela internet e que ia voltar à Argentina. Não sei se foi verdade mas entretanto ele apareceu no Bordéus”, recordou Luís Leandro, que era nessa fase jogador-treinador dos alentejanos, ao Maisfutebol.

É neste contexto e depois de uma história digna de filme pelos contornos improváveis que Emiliano Sala surge nos quadros do Bordéus, por onde se viria a destacar na Ligue 1. Além da equipa B, ainda passou a título temporário por conjuntos mais modestos para ganhar a rodagem de futebol profissional que nunca tivera no início da carreira, casos de US Órleans (2012/13), Niortais (2013/14) e Caen (segunda metade da época 2014/15) mas nunca chegou a convencer propriamente os responsáveis do clube, apesar da estreia auspiciosa como titular na goleada por 4-1 ao Mónaco de Leonardo Jardim com um golo – que seria o único que marcaria até janeiro de 2015 nessa temporada, num total de 12 jogos realizados entre Campeonato e Taça.

Emiliano Sala no último jogo realizado em casa pelo Nantes, frente ao Montpellier (LOIC VENANCE/AFP/Getty Images)

Em 2015, o Nantes avança para a sua contratação. Custou, então, um milhão de euros, num negócio que com a devida distância temporal se percebeu ter sido uma aposta em cheio: depois de um primeiro ano em que marcou seis golos em 31 partidas na Ligue 1, tornou-se a principal referência ofensiva da equipa e apontou 12 golos em casa uma das épocas seguintes, em 2016/17 – onde foi treinado pelo português Sérgio Conceição, que sairia depois para o FC Porto – e 2017/18. Na atual temporada, com 28 anos, estava a ter os melhores números de sempre na carreira, com 12 golos em 16 encontros na Ligue 1. Também no início voltou a cruzar-se com outro técnico português, Miguel Cardoso, hoje à frente do Celta de Vigo. Antes, trabalhara com outros dois nomes históricos: René Girard e Claudio Ranieri. Recebeu uma tentadora proposta da China mas recusou e assinou pelo Cardiff, cumprindo o sonho que tinha em jogar na Premier League, naquela que terá sido a maior transferência de sempre do clube galês (fala-se numa verba superior a 15 milhões de euros, superando os 12 milhões de Gary Medel em 2013).

“Os meus amigos, sobretudo na Argentina, hesitam quando me veem no topo da lista dos melhores marcadores com o Mbappé e à frente de avançados de classe mundial. Não esperava este início mas não coloco limites. Não me esqueço de onde venho e o momento que estou a viver é consequência disso mesmo. Jogar na seleção com Messi era um sonho e vou lutar por essa oportunidade. Quando comecei a jogar fixava-me muito no Batistuta, era um dos meus exemplos. Pelo meu sacrifício e pela minha competitividade, penso que tenho coisas do Cavani. Vir desde baixo dá-me forças para continuar a trabalhar desta forma”, contou numa entrevista à Marca em novembro, quando levava dez golos em 11 jogos da Ligue 1.

Esta terça-feira, a notícia de que o avião privado que o transportava para o País de Gales tinha desaparecido dos radares no Canal da Mancha após sair do Nantes-Atlantique caiu como uma bomba. Depois de ter assinado com o novo clube, o argentino regressou a Nantes para se despedir do clube onde estivera três anos e meio e preparava-se para começar a trabalhar pelo atual 18.º classificado da Premier League, que apostou em Sala para chegar aos golos que lhe permitiram fugir aos lugares de despromoção. Antes, colocou nas suas redes sociais a última imagem com os antigos companheiros de equipa.

“Estava a trabalhar quando me chegou a notícia, ainda não posso acreditar. Estou desesperado. Oxalá cheguem boas notícias. Para ele, como para todos nós, a transferência para o Cardiff era um grande passo. É um miúdo que sempre lutou, um miúdo do povo, um miúdo humilde. Não sei o que pode ter acontecido. A linha família também não sabia de nada, fui eu que avisei. O Emiliano ia agora de Nantes para Cardiff mas não me ligou para dizer nada”, explicou o pai, Horácio Sala, à C5N.